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Notre Dame em chamas

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15 de abril de 2019
Uma das catedrais mais importantes e belas do mundo é consumida pelo fogo. Será que a teremos de volta?

Cláudia Bergamasco

Era maio de 1992. Dia 21. Eu estava no pátio da catedral de Notre Dame de Paris pela primeira vez na vida. Ao pisar naquele solo, começaram a escorrer lágrimas dos meus olhos sem que eu pudesse controlar. Eu olhava a catedral e meu rosto se lavava em lágrimas. Quando entrei, fiquei arrepiada dos pés à cabeça e o mesmo aconteceu quando eu subi o longo caminho de degraus muito estreitos e extremamente gastos. Tudo de mármore branco datado de séculos antes de eu estar ali. Cheguei às gárgulas e a visão maravilhosa que a catedral me dava de Paris vista do alto.

Chorei sem saber e continuo até hoje sem saber por que chorei tanto naquele lugar. O único lugar do mundo que fui e desabei. Não lembro quanto tempo fiquei por lá, mas um tantão assim de histórias me veio à cabeça. História, aliás, é o que não falta em viagens ao exterior e eu sou fã de carteirinha desse “entretenimento”. Nem na Piazza de San Pietro, Vaticano, eu chorei. Só lá, na Notre Dame de Paris.

Talvez, na época, eu estivesse sugestionada pelo livro homônimo à catedral, do escritor parisiense Victor Hugo, os personagens que ele criou, a tristeza e as atrocidades pelas quais passou Quasímodo, o sineiro corcunda apaixonado pela bela Esmeralda, ou mesmo pelo próprio lugar, que é tão simples e tão deslumbrante. Sua arquitetura gótica guarda muitas histórias, belas e terríveis. Mais terríveis, como toda igreja e castelo europeus.

Nesta segunda-feira (15), a bela Notre Dame, que eu tanto amo e sempre quis voltar, entrou em chamas. Seu corpo arde, suas colunas e estruturas caem lambidas pelo fogo.

Minha tristeza não pode ser maior. Vi igrejas e catedrais muito maiores, lindas e importantes que a Notre Dame, mas é ela que me fisgou o coração. Sempre que penso na França, penso em Paris e, claro, na “minha” Notre Dame, a dama que tomou me coração, me fez chorar não sei se de alegria, emoção, ou as duas coisas juntas.

Meu coração está partido como estão partidas as belíssimas e tenebrosas paredes da Notre Dame. Aquele maio de 1992 nunca será esquecido. Nem este 15 de abril de 2019.

Lembro que saí de lá, horas depois, com uma baita fome. Sem francos suficientes para um almoço, comprei uma baguete, enfiei um queijo redondo que comprei em um dos vários mercadinhos das redondezas. Vinha numa embalagem vermelha com quatro ou seis queijinhos divinos reunidos numa redinha de plástico também vermelha. Tempos depois, eu vi o mesmo queijo em supermercados do Brasil. Comi aquela baguete recheada com aquele queijinho sentada num dos bancos da imensa praça de acesso à igreja. Entre uma bocada e um gole de água Évian de garrafa grande, meu olhar ia de um lado para o outro, mas sempre parava no relógio central, nas gárgulas, e nas duas pontas principais dos pórticos góticos. Maravilhosos. E lágrimas escorrendo. Não secavam. Até hoje eu tento entender o meu chororô e não consigo. Vai ver eu vivi ali em outra vida, eu passei por lá em outra vida, aconteceu alguma coisa comigo naquele lugar – para quem acredita que existe reencarnação, é uma hipótese. Para quem não acredita, por favor, respostas, suposições.

Na época não existia câmera fotográfica digital. Essas fotos que estão aqui publicadas foram tiradas por mim e são assim mesmo, sem filtro. Perdeu um pouco mais da qualidade por causa da digitalização. Mas uma coisa eu tenho certeza: as gárgulas, os anjos, toda a estrutura estão em prantos. Não vou falar sobre seguro nem quanto tempo vai demorar para a reconstrução desse patrimônio inestimável da humanidade. Só tenho a lamentar – e voltar a chorar. Muito. Com forte dores no estômago.



Claudia Bergamasco é jornalista

Foto mais ao alto do incêndio: reprodução Facebook
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