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O Big Brother da política

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13 de setembro de 2018
Por José Renato Nalini

A cena política brasileira lembra os “reality shows” que ainda não caíram de moda, tipo “Big Brother”, “Survivor” e outros. Faço essa associação após a leitura de “A Ética é possível num mundo de consumidores”, de Zygmunt Bauman. Ele diz que “esses programas de TV que seduzem milhões de espectadores como uma tempestade e capturaram de imediato suas imaginações, são ensaios públicos do conceito de descartabilidade dos homens”. Trazem a mensagem embutida de que ninguém é insubstituível, ninguém é indispensável, ninguém será recompensado apenas porque durante um período “fez parte do time”.

O recado é muito explícito: a vida é um jogo duro para pessoas duras. Cada jogo começa do zero, méritos passados não contam, cada um vale apenas o correspondente aos resultados do último duelo. Cada jogador joga o seu jogo, pode transitoriamente cooperar com um colega para eliminar um terceiro. Nem pense que aquele que foi auxiliado se veja obrigado a agir com reciprocidade.

À medida que os mais fracos vão sendo eliminados, a competição fica mais árdua. Todos são obrigados a usar astúcia, estratégias ardilosas e postura ambígua para tirar do páreo quem quer que os atrapalhe. Extraia-se do colega toda a utilidade, até à última gota. E depois o deixe para trás. Sem piedade.

Desconfie de todos. São competidores. Estão sempre tramando, cavando buracos, armando armadilhas, puxando tapetes e maquinando para que o adversário tropece e caia.

Vale tudo nessa arena. “Os recursos que ajudam os vencedores a sobreviver a seus competidores e a emergir vitoriosos da violenta batalha são de muitos tipos, oscilando da descarada autoafirmação até a dócil autossupressão. Qualquer que seja o estratagema mobilizado, porém, sejam quais forem os recursos dos sobreviventes, as susceptibilidades e deficiências do derrotado, a história da sobrevivência está fadada a se desenrolar de um modo monótono: no jogo da sobrevivência, a confiança, a compaixão e a misericórdia são opções suicidas”.

Se você não for mais duro, mais cruel, menos sensível e menos escrupuloso do que todos os outros, eles acabarão com você, com ou sem remorsos. É o retorno à sombria verdade do mundo darwinista: é o mais bem-adaptado que invariavelmente sobrevive. Ou melhor: sobreviver por mais tempo do que os outros é a prova definitiva de adaptação.

Se nossa mocidade ainda procurasse ler os clássicos, talvez dessem razão ao exilado russo e professor da Sorbonne, Leon Shestov, que tinha uma visão nada otimista do convívio humano: “O homem lobo do homem” é uma das máximas mais firmes da moralidade eterna. Em cada um de nossos próximos tememos um lobo. Somos tão pobres, tão fracos, tão facilmente arruinados e destruídos! Como podemos evitar o medo? Enxergamos perigo, apenas perigo”.

Volto a Zygmunt Bauman que recomenda: “Ao encontrar um estranho, primeiro você precisa ter cautela; depois, cautela; e, em terceiro lugar, cautela”. O pior é que você pensa estar entre semelhantes e, depois de certo tempo, vai descobrir que esse “amigo” não passa de um estranho!

Estranho mesmo é o mundo da política partidária. Será assim em todo o planeta?

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista
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