Jundiaqui
Jundiaqui

O paradoxo da insegurança

Jundiaqui
30 de agosto de 2018
Por José Renato Nalini

A cidade nasceu para garantir segurança ao seu morador. A solidão do campo, a longa distância até o vizinho, o isolamento, a ilusão de que “juntos seremos mais fortes” levou o indivíduo a se agregar. Em seguida, cercar a povoação com muralhas, cada vez mais fortes, antecedidas de fossos. Com portas levadiças que poderiam ser levantadas rapidamente, para impedir o ingresso de estranhos.

O burgo passou a ser sinônimo de tranquilidade. O senhor feudal garantia a ordem dentro das muralhas e contava com a lealdade dos súditos, que ofereciam braços e talento para o cultivo da terra e para a defesa da cidadela quando necessário.

Mas o sonho acabou e virou pesadelo. Se a proteção contra os perigos foi um dos principais incentivos para se construírem cidades cujos limites eram definidos por muralhas, hoje não é mais assim. Os muros, os fossos e as pontes levadiças marcavam o limite entre “nós” e “eles”, ordem e selvageria, guerra e paz. O inimigo era deixado do lado de fora e sem permissão para entrar.

Hoje a cidade passou a estar mais associada ao perigo do que à segurança. Arremedos de cidadelas se erguem nos condomínios cercados. É uma curiosa inversão do papel histórico e um desafio às intenções originais dos construtores de cidades e às expectativas dos moradores. A cidade é hoje fonte principal de periculosidade. Chega-se a sugerir que a milenar relação entre civilização e barbárie se inverteu. A vida urbana converteu-se num estado de natureza caracterizado pelo reinado do terror, acompanhado por um medo onipresente.

As fontes de perigo residem na cidade. Os estranhos nos ameaçam. Tem-se medo de todos. Não há um sentimento de segurança. Balas perdidas, sequestros relâmpagos. Assaltos. Brigas no trânsito. Empurrões. Olhares de ressentimento, ira e ódio.

É dentro da cidade que está o campo de batalha. A presença dos ocupantes dos espaços públicos é um fator de recrudescimento do medo. Não se distingue o miserável do “nóia”, do malfeitor, do hipossuficiente, do doente mental, do desassistido pela sorte.

Ninguém mais acredita que o refúgio nas casamatas e nos bunkers, os sistemas sofisticados importados de Nações que convivem com o terrorismo, os carros blindados, sejam suficientes para nos poupar da violência. O estado de emergência e de vigilância contínua, o receio de todos contra todos, é o que mais se evidencia em nossas cidades.

Os guetos se destacam e o convívio da mais exuberante riqueza contígua à mais repugnante miséria é uma questão de alguns metros. Como se a segurança privada contratada para os condomínios luxuosos fosse garantia de que pudéssemos superar aquilo que se tornou nítida certeza nos últimos anos: cresceu o medo, proporcionalmente ao crescimento da exclusão, da miséria e da desigualdade.

O que estamos fazendo para corrigir essa cruel distorção de um estágio civilizatório que prometia edificar uma Pátria justa, fraterna e solidária?

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista
Jundiaqui
Você vai
gostar de

Um viva às mulheres

Por Eusébio dos Santos

Candidatas a rainha moram longe da plantação de uva

Representante do Jardim Celeste é exceção, entre moradoras do Anhangabaú, Vila Arens, Jardim Paulista…

Jogos do Brasil ganham as telas do cinema e comentários de Grafite

Começa domingo, com 130 lugares no Cinépolis e participação do ex-atacante jundiaiense

A primeira festa do ano do Refogado você só vê aqui

No começo das comemorações de seu Jubileu de Prata, bloco vem cheio de alegria em centenas de fotos
Jundiaqui
Artigos assinados não representam a opinião do site. Esse conteúdo é de responsabilidade exclusiva de seu autor.