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Silêncio!

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7 de julho de 2019
Nunca julgue um homem pelo modo de vida e sua aparência, você nunca sabe do que ele é capaz, diz Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

As árvores balançam com o vento frio lá fora.

Dentro de casa, só o som do vento e das árvores.

Nada mais.

Fidalgo desce a escada de pau ferro enegrecido vestindo seu chinelo de pelos. Silenciosamente.

Ao entrar na cozinha sua gata Marina lhe dá bom dia com um miadinho e alguns enroscos em suas pernas vestidas de calças de pijamas de flanela xadrez miúdo. Ele acende uma boca do fogão elétrico, que faz um “trrrimmm”. Em seguida, ouve-se o som da chaleira com água pousando no ferro da boca do fogão. Alguns minutos e ela avisa que a água do café está fervente o suficiente. O pão pula da torradeira.

O prato pequeno de porcelana branca com friso dourado escorrega da pilha perfeitamente feita ao lado dos rasos e dos fundos, todos do mesmo jogo. Fidalgo derrama o café na xícara com pires e leva até a mesa de madeira pequena ao lado da porta. Pega o prato com duas torradas e pousa sobre a mesa. Um som oco toma o ambiente.

A faquinha de manteiga faz crec crec na fatia de pão torrado e logo o crec crec vem da boca de Fidalgo, que abocanha com vontade sua fatia e bebe um grande gole de café sem nem saber se está quente demais. Ele sempre acorda esfomeado porque acostumou a jantar e dormir muito cedo. Começa a trabalhar antes do sol nascer e Marina reclama mais um dia a inventar brincadeiras sozinha ou a dormir o dia inteiro até seu dono chegar e lhe fazer um carinho ligeiro.

O vento lá fora aumenta e pequenas gotas, como nuvens, açoitam seu rosto e mancham seus óculos. Fidalgo puxa o capuz do casaco. Anda quase um quilômetro e já está na porta do prédio onde trabalha - um privilégio nos dias de hoje. O bairro é calmo, não há atribulações nem trânsito. A cidade é calma, o trabalho é calmo, a casa onde mora é calma, Fidalgo é calmo. Muita calmaria. Fidalgo sua, apesar do frio lá fora e do ar-condicionado bem regulado.

Do nada, levanta de sua cadeira de rodinhas empurrando-a para bem longe, pega sua pasta, seu cachecol, seu guarda-chuva e segue em direção à Clara. Vira sua cadeira com violência para ele e lhe mete um beijaço. Longo. Parecia cena de cinema. O escritório parou. Incrédula, ela olha para ele, Fidalgo tira os óculos, tem a expressão máscula como ninguém nunca havia visto. Vira as costas e sai.

Pega o caminho da sua casa, corre porque agora chove, abre a porta de pau ferro enegrecido, joga seus pertences num canto. Marina sai da casinha e, de orelhas e, pé, vai ao encontro do dono. Fidalgo treme ao teclar seu telefone. Está ligando para o número de Clara. No escritório.

- Clara, é Fidalgo. Eu tenho uma garrafa de vinho aqui. Sei que é cedo, mas gostaria de saber se quer compartilhar comigo agora.

Silêncio.

- Claro! Diz uma voz excitantemente hesitante e afoita.

A campainha tocou dez minutos depois. Fidalgo abraçou Clara apertado, tirou seus óculos, desmanchou seus cabelos curtos e loiros, olhou fundo em seus olhos, a beijou como se fosse a última e a carregou para sua cama.

Na manhã seguinte, o tempo não estava diferente do dia anterior. Talvez um pouco mais fechado e frio. Fidalgo desceu as escadas de pau ferro enegrecido com seus chinelos de pelo e seu pijama de flanela xadrez miúdo. Marina, branquinha como a neve, miou e se enroscou nas pernas de seu dono. A chaleira apitou, o pão pulou da torradeira e a mesa estava posta para dois.

Ambos estavam esfomeados. Muito.

Cláudia Bergamasco é escritora e jornalista
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