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Cinco ponto quatro

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24 de março de 2018
Numa manhã de sábado, a menina entrou na idade do lusco-fusco, na idade do outono, conta Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

Manhã de sábado, 24 de março, 6h30. A menina acorda com os olhos remelentos e bocejando em progressão geométrica. O sono é grande. Ela sempre gostou de dormir bastante, mas, de uns anos para cá, seu corpo acostumou a acordar cedo, ainda que em protesto.

Na noite anterior, tomou seu banho com espuma de banho de verbena de uma marca chique e internacional na jacuzzi do seu banheiro. Não ficou muito tempo mergulhada naquela água tépida e aromática. Uns 20 minutos, talvez. Não tinha muita paciência de ficar ali. Colocou seu roupão de banho longo cor-de-rosa sem enxugar o corpo, cheio de espuma. Desfez o coque dos cabelos claros e entrou em sua camiseta mais macia. Borrifou no pescoço e no meio dos seios um pouco de água de perfume com notas de verbena e chá verde, como fazia toda noite – adorava se sentir macia e cheirosinha na hora de dormir. Tinha a impressão que aquele aroma fazia seu sono ser mais reparador. Mergulhou em seus lençóis de algodão, checou o celular, o iPad, leu um capítulo de um dos seus livros de cabeceira (um hábito adquirido em tenra infância) e se enroscou em seus travesseiros.

- Amanhã é meu aniversário, pensou, olhos fechados, luzes apagadas.

De manhã, depois de tomar todo o bule de café amargo de sempre, saiu e comprou flores e um doce. Queria enfeitar a casa. E queria se enfeitar também. Tomou uma chuveirada rápida e fez uma maquiagem caprichada. Tanto fazia se era cedo ou tarde. O horário não lhe importava. Queria estar bonita por fora e se limpar por dentro, jogar no lixo aquelas emoções tóxicas. Já não era sem tempo.

A mãe ligou, o pai falou, uma tia querida, um primo, um amigo e mais outro também lhe telefonaram pelo seu dia. Agradeceu muito, agradeceu a Deus em silêncio. Olhos marejados. Ela queria muito o que não teve, mas tinha esperanças e ganas. Um impulso natural para conquistas. A duras penas, com o tempo, devagar, fazendo o impossível para controlar a ansiedade, ela conseguiria tudo.

O aroma das flores e o seu próprio perfume deixaram a casa ainda mais gostosa. Era um lugar aconchegante, com sua personalidade e toque pessoal em cada canto. Gostava muito de ficar em sua casa. Além disso, o limoeiro estava inteiro em flor, o que fazia o ar do jardim ficar delicioso e o próprio jardim ficar ainda mais agradável.

Ela fez uma omelete com cogumelos para seu almoço. Recebeu convites para sair à noite e comemorar seus 54 anos. Declinou, deu desculpas, disse que faria algo especial aquela noite com alguém muito especial (ela o achava especial, não ele, ela descobrira). Mentira. Ela ficou sozinha em seu canto. Não queria festa nem alardes. Lamentou não ter esse alguém especial ao seu lado e percebeu que estava ficando cada dia mais exigente, seletiva, chata, introspectiva e sem saco para certas coisas. Evitava sair. Faltava vontade, mesmo.

Abriu um vinho caro e o degustou com pão, queijo e o dedinho da omelete que sobrara do almoço. De sobremesa, o quindim comprado pela manhã na padaria. Pegou sua melhor taça de cristal, acendeu uma vela e disse a si mesma: “cheers, parabéns, menina.” Abaixou a cabeça, chorou baixinho e orou.

Cheirou as flores, a chuva começou a cair fininha lá fora, mas o céu estava lindo; azul marinho, um tanto nublado, mas com vazios brilhantes de estrelas. Amuada, foi tomar seu banho aromático exatamente como na noite anterior.

- Hoje foi meu aniversário, pensou.

Espalhou seu corpo pela cama, se acariciou e repassou em pensamento sua vida até aquele momento. A balança pendia mais para o positivo ou para o negativo? Nem para um bem para outro. Parou no neutro. Estava na idade do lusco-fusco, na idade do outono. Não era velha nem nova. Tinha muita energia acumulada ainda, nas não era jovem. Não estava na terceira idade tampouco na segunda. Em resumo, sem classificação.

Esquadrinhava as rugas no seu rosto, sentia a pele de seu corpo em gravidade vertical, mas sua cuca ainda funcionava bem. Muita coisa ainda funcionava bem até demais. Apoquentou-se com isso. Na idade do lusco-fusco você pode tudo, mas tem poucos direitos ou nenhum, em se tratando da coisa pública. Vacina, ônibus, estacionamento tudo tinha de ser pago ainda.

Dançava, mas seus braços denunciavam a implacável gravidade. Mas, tinha boas pernas. Não puxara sua mãe neste quesito, mas ainda eram boas. E, modéstia às favas, aos 54, no geral, estava melhor que muita mulher da sua idade. Tanto que, recentemente, foi convidada por uma agência de modelos da capital para campanhas publicitárias. Achou que era mentira, brincadeira de mau gosto. Afinal, a essa altura do campeonato? O moço ligou de novo e de novo, mandou mensagens e ela aceitou o desafio para uma sessão de fotos, com direito a cabelo e maquiagem profissionais. Gostou. Foi aceita como modelo da agência. Agora era do casting. Pelo menos era o que parecia. O tempo diria se ela faria ou não algum trabalho nessa área.

As roupas não apertaram seu corpo, mas o seu coração estava apertado. Vivia apertado nos últimos tempos. A menina precisava de um tempo, mais uma ou duas – ou três – viagens bacanas: Sidney, Oslo, Camberra, na Austrália, Toronto, no Canadá, Helsinki, Boston, Nova York, Amsterdam, a Itália inteirinha (lógico!), Grécia, Ilhas Fiji... e sempre, para sempre, em qualquer hora e tempo Lisboa, Madri e Londres. Era preciso acertar as coisas para casar viagem com trabalho. Havia de acontecer logo, se esforçava há tempos para isso. Sempre haverá problemas. Ela só precisava escolher com quem e como lutar.

A menina dormiu mais velha, mais bonita e mais esperançosa.

A menina era eu.

Feliz cinco ponto quatro, Cláudia!

Feliz aniversário para mim, feliz Ano Novo! Happpppy Birthday, menina!

Que neste meu novo ano eu ganhe muito mais aventuras e amores sem juízos; que os amigos realmente amigos se tornem parte de mim mais do que já são. Que Deus continue me permitindo ter os pais incríveis que tenho e que eu seja simplesmente totalmente feliz com que já tenho. Saúde nunca é demais e dinheiro para realizar meus pequenos sonhos também não. Que meus Anjos Protetores andem comigo e que os 9.5 me aguardem e me recebam de braços abertos. Porque estou VIVA!!!!!

Como diria nosso saudoso Picoco Bárbaro, Viva a Vida!

Cheers!

Cláudia Bergamasco é escritora
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