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Façam isso, escravos

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21 de novembro de 2017
Por José Arnaldo de Oliveira

Desde que a mudança digital entrou forte nas nossas vidas, há uns vinte anos, eu ficava curioso com o reinício muitas vezes necessário em computadores como os antigos 286 e com a palavra que surgia na tela. Algo como reformatando o “slave”.

Mesmo com meu inglês macarrônico eu já sabia que essa palavra é diretamente ligada ao conceito de escravidão (“slavery”). Com o tempo, a tradução aportuguesada para servidor se tornou parte do vocabulário de trabalho e do cotidiano.

Essa outra me faz lembrar do medieval-renascentista Etienne De La Boétie e seu revolucionário “Discurso da Servidão Voluntária”, mas esse é outro assunto paralelo. O fato é que essa preocupação apareceu novamente nestes dias com uma constatação registrada por Ronaldo Lemos, do ITS. Ele chama a atenção para o crescente avanço dos comandos de voz na inteligência artificial, que no futuro pode ocupar boa parte do crescimento de crianças em diversos pontos do mundo, e como eles não envolvem aspectos como “por favor” e “obrigado”.

Dessa maneira, a modelagem de relações se desenvolve com um viés de comando, e não de relacionamento. Os efeitos desse tipo oculto de educação social é visto em diversas formas na família, na escola e na vida.

Além disso, o maior percentual das vozes artificiais de resposta ao comando é feminina. Isso exigiria pensar a questão de reforço da desigualdade de gênero dentro da tecnologia, inclusive pensando no motivo pelo qual essa voz não é neutra mas uma imitação da humana – o antropomorfismo.

Enfim, são coisas que ao lado da cada vez mais gigantesca concentração de poder em poucas multinacionais do setor e dos seus efeitos extremos entre os polos positivo e negativo levam a uma reflexão (coisa das antigas) sobre detalhes tão prosaicos como o uso das palavras como códigos.

José Arnaldo de Oliveira é jornalista do site Jundiahy

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