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Lula é culpado ou inocente?

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21 de janeiro de 2018
Por Nelio Fernando dos Reis

O ex-presidente Lula tem sido alvo de uma série de acusações, amplamente difundidas na imprensa e oriundas de autoridades do judiciário. É possível que a sociedade o condene de antemão. A maioria do julgamento das pessoas está baseada em crenças relativas que exigem pouco esforço. São comunicadas em frases do tipo “acho que...”, “é provável que...” e assim sucessivamente.

O que determina essa crença? As pessoas levam em consideração um número muito limitado de informação para facilitar seu julgamento. O professor Daniel Kahneman da Universidade de Princeton, recebeu o prêmio Nobel em economia de 2002 por sua obra pioneira sobre tomada de decisão, afirma que são julgamentos que induzem ao erro. São heurísticas e vieses de representatividade, disponibilidade e ancoragem. Eu explico.

Antes de mais nada é bom esclarecer que, segundo artigo publicado por professores alemães do Instituto Max Planck para o desenvolvimento humano, heurísticas são processos cognitivos que ignoram parte da informação com o objetivo de facilitar a escolha, onde a procura por alternativas tem que terminar devido as capacidades limitantes da mente humana, para que o julgamento possa ser feito. Vieses, no entanto, são tendências a apresentarem decisões parciais e limitadas em detrimento de outras igualmente válidas. Afinal, julgar é como falar - as pessoas fazem isso o tempo todo por necessidade, tendo ou não consciência.

No julgamento por representatividade, segundo Kahneman, existe o viés de ilusão da validade. Por exemplo, considere um político brasileiro que tenha sido descrito da maneira que segue: “fulano nasceu pobre, presidia sindicato e lutava pelos trabalhadores. Tornou-se político, elegeu-se presidente e hoje possui bens materiais”. Como as pessoas avaliam se ele é honesto ou desonesto? Na maioria das vezes, as pessoas fazem previsão selecionando o resultado, “acho que é desonesto”, que é o mais representativo inicialmente, pois “acho que é a descrição de político atualmente”. Essa ilusão continua até por quem julga e tem consciência dos fatores que limitam a precisão de sua decisão.

Decisão que pode ser por disponibilidade. Deve-se a facilidade com que os casos ou ocorrências podem ser trazidos à mente. Hipoteticamente, consideremos que a “operação lava-jato” é o grande instrumento atual para condenar os corruptos em geral. “Simuladamente”, a mídia de massa veiculará constantemente notícias de corrupção em programas sociais, priorizando envolvimento de políticos do PT. Poucas notícias com denúncias de corrupção contra políticos do campo ideológico oposto serão veiculadas.

Imaginemos que os dois partidos tenham “culpa no cartório” na mesma proporção e que a corrupção não seja exclusiva de programas sociais. As chances de pessoas acreditarem que programas sociais só servem para corrupção e os petistas são todos corruptos, são enormes. Irão desconsiderar as poucas notícias de corrupção contra os tucanos, descrevendo-as como falsas ou algo similar. Isso ocorre, dada a seletividade de denúncias veiculadas contra uma única sigla apenas. Kahneman chama isso de viés devido à recuperabilidade das ocorrências.

Ocorrências que se tornam referências. Muitas vezes as pessoas fazem estimativas iniciando por um valor de referência que será ajustado para produzir uma decisão. Kahneman afirma que o ponto de partida é sempre formulado por uma ancoragem selecionada. Por exemplo: veículos de comunicação em massa podem pautar invariavelmente em suas manchetes a seguinte proposição: “Lula é culpado”. Ao questionar o cidadão: “acredita que Lula não é culpado? ”. Dificilmente se arriscará a dizer “não é culpado”, tendo em vista que a massificação da afirmação de ancoragem “é culpado” faz seu cérebro criar uma barreira para negação. Torna-se refém de uma crença coletiva.

Reforçando a ideia de Robert Wright em "O Animal Moral" sobre nossa parcialidade: “o cérebro humano, analogamente comparado a um bom advogado, quer vitória e não verdade. Desta forma, tornando-se mais brilhante por sua habilidade do que por sua moralidade”.

Enfim, é possível afirmar que a confiança nas heurísticas e a prevalência de vieses não estão restritas aos leigos, tão somente, haja vista que pessoas experientes e com alto grau de instrução também são propensas aos mesmos vieses – quando pensam intuitivamente.

Vivemos tempos paradoxais. O conhecimento nunca foi tão fácil. A quantidade de informações reunidas na internet e a disposição de qualquer um que tenha um computador não tem precedentes na história da humanidade. Entretanto, a maioria dos julgamentos são enviesados e às vezes levam a erros graves e sistemáticos.

Pense bem, antes de julgar, você pode estar condenando um inocente.

Nelio Fernando Reis é doutor em engenharia de produção e líder de grupo de pesquisa no CNPq sobre sistema de apoio a decisão
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