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Manhãs de domingo

Jundiaqui
15 de abril de 2018
Por Wagner Ligabó

Na minha opinião a fatia da semana mais reveladora - aquela que te faz virar para dentro de você mesmo em busca do seu “eu” - são as manhãs de domingo. Não sei por qual motivo ao  certo acredito ser o momento onde encontra-se a paz.

Talvez seja por lembranças longínquas da infância que me ensinou ser o domingo um dia santo, o momento que Deus descansou.

Talvez seja pela grata memória da Igreja de Santa Cecília, lá no centrão de São Paulo, onde fiz  o catecismo e a primeira comunhão,  e mesmo com a obrigação de ir à missa das sete do domingo na marra - caso não o padre Geraldo na confissão, além da bronca, ia passar umas cem Ave Marias e uns trinta Pai Nossos - era uma delícia o prazer em poder ir feliz e saltitante por estar de mãos dadas com meus pais. Tive uma infância plena, dominical!

Talvez seja pela lembrança de sair cansado do plantão de 36 horas no pronto-socorro lá em Guarulhos, iniciado na sexta-feira à noite e que terminava só as 7 do domingo, e poder voltar pra casa ansioso de felicidade e poder beijar minha mulher e meus filhos, que ainda dormiam num ninho “juntinho da mamãe”. Devo tudo a ela e até hoje me entristece os domingos que fiquei de plantão longe deles.

Talvez seja pela alegria e orgulho de ser brasileiro e relembrar quantas manhãs de domingo, após ver o resignado Ayrton Senna levantar nossa bandeira com patriotismo sincero, dizer pra mim mesmo: vale a pena lutar por um Brasil melhor. Um Brasil de vitórias.

Hoje eu e meus cabelos brancos nos entregamos ao silêncio reflexivo das nossas manhãs de domingo. São mais saborosas diria, coisa proporcionada pelos anos que se foram e que, apesar da idade e as dores por todo lado, causam um prazer enorme, tal qual o paladar de um bom vinho de guarda envelhecido por anos.

Sem fazer alarde, beijo suave minha mulher sem acordá-la, pego meus óculos, desço as escadas na companhia do fiel escudeiro, o meu gato Noballs. Com seus olhos verdes, me observa com atenção e mia rouco por saber que estou sereno. Sei que ele me entende.

Ponho a chaleira no fogo para preparar o café e enquanto isso vou ao jardim, a minha pequena Amazônia. A fragrância do ar envolve e acalma como bálsamo. Levo as frutas para meus pássaros visitantes com seus trinados que hipnotizam e soam como agradecimento.

Vejo as novas orquídeas, me farto de suas belezas, e paro para ver Josefina, nossa aranha de estimação, encantamento intrigante e misterioso que faz flutuar a imaginação de meus netos e netas. Diversão da vó e do vô.

Lá está ela, estática, em meio à sua enorme teia, que entrelaça varias plantas em um raio enorme, porém quase imperceptível ao menos avisado. Ela é esperta, arisca e prevenida ao menor movimento estranho. Sabe o perigo de estar viva em ambiente de risco. É bem mais prudente que nós. Entretanto sabe que aqui ela não tem nada a temer. Respeitamos seu pequeno mundo por sabemos viver em comunidade harmônica. Sabemos respeitar as individualidades. Viverá o quanto for sua vida.

Nossas vidas se assemelham e são assim mesmo: uma teia exposta aos ditames do existir que, se respeitados, nos darão a permissão de viver o quanto o destino nos reservou. Mas atualmente o homem insiste em desrespeitar suas leis. Se considera acima delas. Ando preocupado e pessimista, angústia que mais jovem eu não tinha.

Respiro fundo e volto pra fazer o café. Apronto a mesa com requinte merecido e sirvo o desjejum do Noballs, que não me larga. Cuidando de mim?

Entregue ao cálido silêncio que me rodeia me solto em diversos pensamentos, análises de meu interior, vasculho minhas ideias e dúvidas, tento espantar minhas preocupações, tento entender o que não entendo, faço uma auto penitência sincera, confesso meus erros e busco perdão. Fecho os olhos e com fé oro o Pai Nosso, hábito de minha mãe em busca de graças e proteção. Lembro das missas de domingo. Lembro de meus pais e eu criança de mãos dadas com eles.

Sentado na varanda de xícara na mão degustando com calma o café passado a pouco, visão aberta e absorto ante meu pequeno mundo, ouço uma voz ao longe: “ Você está aí embaixo ?”  ao que respondo “ O café está pronto!”.

Faltava só ela para completar esta doce rotina que já dura 42 anos e que só a calma das manhãs de domingo pode proporcionar.

Amar tem sabor de domingo...

Wagner Ligabó é médico e vereador

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