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Nobel em Economia e a educação como mercadoria

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11 de janeiro de 2018
Por Nelio Fernando dos Reis
Richard H. Thaler, professor da Universidade de Chicago, foi laureado com o prêmio Nobel de Economia em 2017, devido a sua dedicação em pesquisar como cada indivíduo toma decisões de consumo.

A base da teoria de Thaler evidencia que não é razoável pressupor que antes de cada decisão, os consumidores levem em conta todos os fatores envolvidos e as consequências de longo prazo. Conduziu experimentos que apresentam a predisposição humana em manter contratos que consideram justos. Ele concluiu que as pessoas são mais propensas a correr riscos no longo prazo.

Muitas pessoas que buscam fazer um curso superior privado no Brasil são influenciadas por propagandas milionárias de instituições de ensino. A despeito de precarizarem o trabalho docente e serem inadimplentes com o sistema previdenciário brasileiro, muitas empresas faturam bilhões e conseguem contratar, a peso de ouro, artistas famosos como garotos propaganda de suas campanhas publicitárias. Esses famosos, cujo poder de influência é inegável, fazem com que a escolha do futuro estudante seja enviesada, não sendo muitas vezes aquilo que o mesmo realmente almejava.

As consequências futuras serão desastrosas, para ele e para sociedade. Neste caso, pode-se dizer que o candidato à vaga não avaliou todos os fatores envolvidos, tais como qualidade da instituição, qualidade do curso, qualidade dos professores, vocação para área escolhida e empregabilidade. Se avaliasse melhor, poderia encontrar instituições privadas sérias e de qualidade que não lançam mão de artifícios de indução propagandistas e pagam seus impostos em dia.

Mercadoria é qualquer produto suscetível de ser comprado ou vendido. Muitas empresas privadas do setor de educação tratam o aluno como cliente comprador. Este por sua vez assina contrato, após escolher o curso pelo preço promocional e de forma intuitiva, com a expectativa de que o serviço ofertado o impulsionará para uma maior mobilidade social e empregabilidade. Frequentando o curso durante alguns anos, por exemplo, sente que não está vocacionado para a profissão escolhida. Descobre, ainda, que o Ministério da Educação (MEC) relata, em instrumentos oficiais de avaliação como ENADE, que o curso é de baixa qualidade. Embora o estudante perceba que fez uma escolha irracional, ainda, se mantém fiel à instituição por que considera o contrato justo tendo em vista que concordou e quer honrá-lo até o final, devido ao ônus que terá que arcar no curto prazo, em caso de desistência.

Pior ainda, mesmo não se sentindo vocacionado para escolha feita e o MEC relatando a falta de qualidade do curso, os encargos financeiros começam a pesar em seu orçamento, como relata pesquisa de 2017 do SEMESP (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), publicada no jornal "Valor Econômico", que estudantes estão desembolsando até 50% do salário para pagar dívida, e de forma desesperada assina contratos de financiamentos, com a própria instituição de ensino como se banco fosse, com taxa de juros exorbitante e prazo a perder de vista, pois pensa que assim consegue melhorar seu fluxo de caixa mensal, evitando a inadimplência. Avesso ao risco de curto prazo, mas arrojado ao tomar crédito altamente oneroso e arriscado no longo prazo. Vã ilusão de que no futuro as coisas serão diferentes, pois a mesma pesquisa do SEMESP afirma que a maioria dos formandos não ganha mais que três salários mínimos.

Portanto, ao deixar de avaliar todas as possibilidades que envolvem a decisão, os estudantes podem estar assumindo riscos no longo prazo que poderiam ser evitados por ele e pelo órgão regulador MEC.  Empresas privadas, que apresentem baixa qualidade, deveriam ser proibidas de atuarem na educação brasileira, bem como, jamais deveriam atuar como intermediário financeiro por haver conflito de agência, por não pertencerem ao sistema financeiro nacional e muitas vezes estarem devendo milhões aos cofres públicos.

Governos deveriam valorizar mais as instituições públicas de ensino, seus servidores e criar mais vagas para que os cidadãos, que já pagam impostos elevados, pudessem ter acesso à educação pública de qualidade e gratuita.

Enfim, a irracionalidade do consumidor no mercado da educação pode, além de tudo, proporcionar lucros a muitos famigerados empresários que tratam a educação como mercadoria e o Estado como sócio financiador dela, bem como causar muitos danos irreversíveis a ele e à sociedade. Enfim, embora cientificamente comprovada a irracionalidade do mercado da educação, ainda carecemos de ação para realmente corrigir o rumo do Brasil e tratar a educação como bem público para um futuro melhor da nação.

Nélio Fernando dos Reis é doutor em engenharia de produção

 
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