Jundiaqui
Jundiaqui

Região de Jundiaí precisa de acordo ambiental metropolitano

Jundiaqui
9 de abril de 2018
Por José Arnaldo de Oliveira

Em um grande levantamento realizado pelo Instituto Florestal do Estado, em 2009, a vegetação nativa da região metropolitana de Jundiaí (AUJ) atingia a cobertura de 38.230 hectares, ou 382,3 km², nos sete municípios envolvidos.

Esse patrimônio natural, mesmo com alguma provável redução na década, representa uma soma de 30% do território total dessa região. E precisa ser considerado um ativo diferencial.

A prioridade cresce diante de trabalhos como a estimativa da perda de praticamente metade das espécies vivas das Américas nos próximos trinta anos – anunciada por uma das maiores redes de cientistas do mundo, a Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).

Essa palavra estranha (“serviços ecossistêmicos”) significa que a perda de ambientes e de biodiversidade também afeta economias, meios de subsistência, segurança alimentar e qualidade de vida em muitos lugares.

Mais que a Serra do Japi – Na região metropolitana AUJ, as conquistas dos movimentos surgidos com as passeatas ecológicas de 1978 e focalizados na Serra do Japi colocaram Jundiaí (12.768 ha) e Cabreúva (11.657 ha) na liderança em números absolutos. Mas são seguidos por Jarinu (6.217 ha), Itupeva (3.291 ha), Campo Limpo Paulista (2.347 ha), Louveira (1.214 ha) e Várzea Paulista (735 ha), mostrando que esse “cinturão verde” é importante como um todo.

Em termos proporcionais ao território de cada município, inclusive, Jundiaí cai para terceiro lugar. A lista é liderada por Cabreúva (44,9%), seguida por Jarinu (29,9%) e depois por Jundiaí (29,6%), Campo Limpo Paulista (29,3%), Louveira (21,9%), Várzea Paulista (21,2%) e Itupeva (16,4%).

Cada fragmento de mata ou mesmo campo nativo, vale lembrar, interage com outras espécies vivas específicas da fauna, da flora e do solo e com outras funções como a produção de água, o clima, a cultura local e a paisagem.

Acordo metropolitano – Com a média regional de 30% do território, a cobertura de vegetação nativa estava há uma década acima da média estadual de 17,5%.

A necessidade de um acordo ambiental é reconhecida no diagnóstico de base para o plano regional de desenvolvimento, da própria empresa estadual de planejamento. Um formato lembrado é algo como um plano metropolitano de mata atlântica, entre todos os municípios.

O ponto central de um acordo é reforçar a cooperação e os cuidados. Entre as recomendações recentes do IPBES estão a ampliação de áreas de conservação, a recuperação de áreas degradadas e a modernização sustentável da infraestrutura.

Um mecanismo de monitoramento, contando com núcleos descentralizados e um sistema geral de dados, também seria uma proposta factível.

A maior parte da rica diversidade de animais e vegetais da região permanece desconhecida pelos moradores: somente as espécies de aves registradas na cidade principal por colaboradores do portal Wikiaves chegam a 314. E isso é apenas uma “casquinha” dessa biodiversidade.

A base da água - A questão hidrológica é um elemento crítico, pois a região é parte da área de recursos hídricos UGRHI 5, dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) – que está no limite da disponibilidade existente (0,9) e tem no horizonte as transposições previstas do rio Atibaia para a região metropolitana de São Paulo.

Na região, somente duas das cidades contam com um “guarda-chuva” legal reconhecendo seus territórios inteiros como áreas de proteção ambiental – a APA Jundiaí e a APA Cabreúva. Mas a conservação é um processo que depende mais das comunidades de moradores.

Outros quatro municípios acabaram envolvidos no conceito da APA Jundiaí por causa dos sistemas hídricos. É o caso das nascentes do rio Jundiaí-Mirim em partes de Campo Limpo e Jarinu e também da continuidade da bacia do ribeirão Cachoeira-Caxambu, em parte de Itupeva. De forma indireta, por sua vez, Louveira é vislumbrada pela atenção aos mananciais do rio Capivari.

E o eixo principal da AUJ, o rio Jundiaí, é agora usado como bandeira de despoluição do PCJ depois de trinta anos de projetos aplicados – incluindo as outras duas cidades da região, Várzea Paulista e Campo Limpo Paulista.

Dessa forma, a ligação entre “produção” de água (áreas de infiltração de chuvas para recarga de lençóis subterrâneos e proteção de nascentes) e a conservação da cobertura vegetal nativa (manutenção da biodiversidade e de solos vivos) fica mais óbvia.

Ações diretas - A região metropolitana de Jundiaí é um caso raro no país, com 90% dos domicílios conectados a redes de água (com variações como Jarinu, ainda com 52,3% ainda atendidos por poço ou nascente nas propriedades rurais).

Surpreende nesse cenário, como curiosidade, o dado registrado pelo Anuário Mineral Estadual de 2015 que mostra a “produção” de água mineral beneficiada em Jundiaí saltando de 3,9 milhões em 2010 para 85,5 milhões de litros em 2014.

Os esgotos da região, mesmo com 84,14% dos domicílios atendidos, ainda têm restantes 9.398 (24,8%) dos 40 mil quilogramas diários da demanda bioquímica de oxigênio (DBO) atirada em cursos d´água, de acordo com a versão 2017 do indicador chamado ICTEM, da Companhia Ambiental do Estado (Cetesb).

Na urbanização, a prevenção de acidentes também enfrenta com esse tema a necessidade de compensar a impermeabilização do solo pela macrodrenagem (que pede visão integradas da região metropolitana diante de eventos hidrológicos extremos que levem a enchentes ou desmoronamentos).

Essas medidas preventivas, também ligadas à conservação dos ciclos naturais, envolvem ainda a questão de alteração dos microclimas pelas “ilhas de calor” surgidas a partir da extensão de concreto e asfalto.

A poluição difusa do lixo, por outro lado, teve no inventário estadual de 2016 a estimativa de que os sete municípios da região produziam 640 toneladas por dia – ou 640 mil quilogramas. Em outras palavras, são 19,2 mil toneladas (19,2 milhões de quilogramas) por mês ou 230,4 mil toneladas (ou 230,2 milhões de quilogramas) por ano.

A coleta, pelo menos, tem cobertura praticamente completa nos sete municípios. Mas o indicador estadual de gestão, chamado IGR, apontou diferenças de 4,8 em Várzea Paulista, que já foi sede de aterro de consórcio regional, a 8,3 em Jundiaí.

As experiências de coleta seletiva apontadas em Cabreúva, Jundiaí, Louveira, Várzea e Itupeva, algumas incluindo catadores, não foram incluídas. O recente sistema de gestão de resíduos da construção civil, que tem colocado Jundiaí em destaque, está nesse campo. Mas é também claro que ações regionais podem oferecer alternativas para a questão.

A chance do acordo – Obviamente, os conflitos entre a preservação do meio ambiente e a logística de atividades econômicas e sociais - industriais, habitacionais ou de mobilidade - estarão presentes em diversas áreas. Mas a convergência é ainda mais importante na medida em que a região metropolitana de Jundiaí (AUJ) é uma cidade global.

O que irá acontecer com esse patrimônio é uma decisão sobre sermos (ou não) uma potência ao mesmo tempo ecológica e econômica, nos planos estadual ou nacional.

E isso acontece a partir de cada plano diretor dos sete municípios no rumo de um plano regional integrado – e de ações específicas e fóruns de diálogo e cooperação, valorizando inclusive as lições como das passeatas ecológicas de 1978.

Algo como ajustarmos esse entendimento de uma região metropolitana, ainda em formação, para uma “eco região metropolitana” sustentável e desenvolvida. Se Martin Luther King ficou célebre por ter tido um sonho, temos uma geração inteira que também teve outro nesta região do planeta.

José Arnaldo de Oliveira é jornalista e sociólogo

Foto: Edu Gavioli/Colaboração
Jundiaqui
Você vai
gostar de

mais uma vez

Por José Renato Forner

O Brasil não é o país do futebol faz tempo

Por Marcel Capretz

Tem Glauber Rocha e um dos 100 melhores filmes brasileiros no Sesc

Filme “Terra em Transe” tem exibição gratuita a partir das 20 horas

Projeto Chuí: a vez de Tibagi

Por Eusébio Santos
Jundiaqui
Artigos assinados não representam a opinião do site. Esse conteúdo é de responsabilidade exclusiva de seu autor.