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Verdade, mentira ou omissão

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10 de novembro de 2017
Por Lúcio Dutra

Verdade é quando o que se fala está de acordo com os fatos ou a realidade; mentir é afirmar coisa que sabe ser contrária a verdade; e omitir é simplesmente deixar de fazer, dizer ou escrever.

Dito assim parece simples, no entanto, vivemos uma situação onde a verdade é ressalvada (há sempre alguém advertindo sobre os efeitos perigosos da verdade), a mentira ganhou status de gentileza e a omissão é a fuga para quem não quer envolvimento ou compromisso claro com as honrosas exceções de praxe.

Um estudo da Universidade da Califórnia do Sul, mostra que o ser humano mente, em média, 200 vezes ao dia - é de 1997, mas nada mudou. De acordo com Jurgen Schmieder, autor de um livro sobre o tema, “a questão não é deixar ou não de mentir, mas sim de quantas mentiras precisamos”.

Para Schmieder, precisamos de 50 mentiras diárias, aquelas diplomáticas, feitas para incentivar as pessoas ou não ferir alguém, como quando se diz a um péssimo aluno de matemática que ele irá bem no teste de cálculo. Já as mentiras que contamos a nós mesmos para nos livrar de responsabilidades ou nos sentirmos superiores a outros devem ser descartadas. Em longo prazo, elas fazem você tão solitário quanto quem só fala a verdade.

Nessa experiência ele diz que o mais difícil foi ser honesto com a esposa em cada aspecto da vida diária. “Mas minha esposa e eu aprendemos que, sendo muito sinceros, não queremos ferir um ao outro e sim ajudar um ao outro. Agora estamos sendo completamente honestos e dizemos tudo. Às vezes outras pessoas pensam que somos malucos porque somos muito honestos um com outro”.

Ser sincero pode ser muito subjetivo e envolve julgamentos. Se eu disser “Neymar é o melhor jogador de futebol do mundo”, posso estar sendo sincero pelo fato de eu pensar desse jeito. Mas outra pessoa pode dizer: “Não, o melhor é Lionel Messi”. Ele pode também estar sendo sincero.

Já a verdade é mais objetiva. Quando se diz “Alemanha é a campeã mundial de futebol”, isso é verdade, já que pode ser mensurado.

Schmieder acha (e eu modestamente também) que toda pessoa deveria almejar a verdade, que este deveria ser um valor a ser perseguido constantemente, como uma condição necessária à vida pessoal, afetiva, social ou profissional.

Isso não significa que a verdade deva ser dita em qualquer situação e de qulquer jeito (a educação e a generosidade ainda existem). A verdade de menor importância que pode machucar outras pessoas é desnecessária. Não é preciso dizer que uma pessoa é horrorosa...

Algumas mentiras devem ser ditas quando a gente acredita que vai ajudar a pessoa, quando uma amiga carrega na maquiagem não se deve dizer que ela se parece com o Arrelia, fica melhor dizer que ela está charmosa (se não for possível simplesmente não dizer nada), embora o ideal fosse encontrar uma forma de advertir que, se a maquiagem for mais leve, ela ficara ainda mais bonita porque iria valorizar seus olhos, por exemplo.

Deixar passar batido (omitir) ou uma mentira leve, ajuda a azeitar as relações pessoais no dia a dia, mas isso não nos exime da responsabilidade que a amizade traz. Se essa amiga da maquiagem for para uma entrevista de emprego numa empresa conservadora... Diga a verdade mesmo que ela não goste.

Nesse negócio de verdade, mentira ou omissão a intenção conta muito. Uma verdade com má intenção só não é pior que a omissão ou a mentira com má intenção. Não percebemos, como aponta o estudo citado acima, mentimos aproximadamente 200 vezes por dia e, consequentemente, somos enganados 200 vezes, todo dia, por outras pessoas.

Parece-me que o mais grave, nesse mundinho moderno, é a banalização da mentira. Mente-se por qualquer motivo. Em muitos casos a mentira é até tratada como se fosse uma virtude.

Aquele que consegue vender um carro ruim, enganando o comprador, omitindo os defeitos, mentindo sobre as qualidades e supervalorizando as poucas vantagens, é considerado um bom vendedor. Um ótimo profissional, quando na verdade ele é simplesmente desonesto.

O marido que tem várias amantes e engana a família anos a fio é considerado, por muito, como um sujeito esperto. Invejado pelos amigos... É apenas um safado tratado como competente.

Uma das formas de se exercitar a verdade é chamar as coisas pelo nome real delas. Nome bonito para coisa feia não contribui para tornar as relações mais honestas.

Consultores de imagem aconselham os candidatos a esconder informações em seus currículos e a supervalorizar sua qualidade. Não é raro alguém declarar numa entrevista que "seu maior defeito é ser muito sincero" ou declarar que fala “fluentemente um idioma estrangeiro” ou omitir (no currículo) idade, bairro onde mora, estado civil etc. Todo o processo virá uma ficção. Porque as pessoas estão virando produtos de consumo e adotam o mesmo tratamento mentiroso utilizado para vender sabonetes e pastas de dentes. É só ver o perfil de muitas pessoas nas redes sociais.

Da mesma forma a empresa ao demitir nunca diz o motivo real, atribui-se a culpa a tal de reestruturação organizacional e a pessoa sai da empresa sem saber o que precisa corrigir ou melhorar e vai engrossar a fila daqueles que serão sempre reprovados nas boas vagas de emprego.

Pessoalmente não creio que essa vergonhosa omissão tenha como objetivo o bem da outra pessoa. Penso que é só uma forma de a gente fugir dos conflitos e responsabilidades, porque as relações entre as pessoas (mesmo entre os mais amigos) foram banalizadas pela superficialidade desses tempos pós-modernos.

Nesse mundo perfeitinho do politicamente correto, a verdade ficou démodé. Existe um culto obsessivo por ser ‘cuidadoso’, ‘educadinho’... A verdade passou a ser aquilo que agente só fala na fofoca para a amiga mais íntima.

Mentir ou omitir? Esse parece ser o drama mais frequente. Deveria ser verdade ou mentira, mas como já vimos a verdade esta fora de moda porque  incomoda e é trabalhosa. Portanto, como ficamos: mentimos ou omitimos. É comum a gente ouvir: “não é mentir, é omitir”, soando como se mentir fosse ruim e omitir não fosse.

Existem autores que acreditam que em questão de gravidade, os dois têm o mesmo peso. Nos dois casos você tinha conhecimento do fato e decidiu agir de tal modo. Esse agir é o que decidirá como será batizada a sua ação.

A diferença entre mentir e omitir é realmente grande, mas suas consequências podem ser igualmente desastrosas.  No campo jurídico esta questão foi resolvida analisando a intenção: se você mente ou omite para obter uma vantagem a causando prejuízo ao outro, você é culpado numa situação como na outra.

Não quer dizer que precisamos ter opinião sobre tudo, palpitar sobre a vida de todos e sair falando aos amigos todos os podres que sabe deles. Mas também não devemos fazer da omissão um mantra que justifica nos acovardarmos frente aos fatos e às pessoas. A omissão não pode ser uma desculpa cômoda para fugir das responsabilidades inerentes ao papel de cidadão, amigo, empregado, patrão, aluno, professor, pai, filho...

Lúcio Dutra é empresário

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