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Choque é o que melhor define a chegada a Hanói, no Vietnã

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25 de março de 2018
Marcela Andrade Gomes começa sua aventura pela Ásia e conta a razão de amar e odiar essa cidade (se bem que o ódio passou rápido)



Marcela Andrade Gomes

Fui para Hanói com a companhia aérea Turkish, que recomendo muito! A palavra que resume o que você sente quando chega no centro da cidade é “choque”: choque com tráfego, cheiros, fenótipos, vestimentas, comidas, ritmo de vida... enfim, uma experiência incrível.

Hanói (Hà Nội, em vietnamita) me provocou uma descentralização cultural e existencial. Acredito que mais do que construir aprendizagens, esta experiência me fez, a todo momento, desconstruir o meu olhar tão eurocêntrico, capitalista, neoliberal e ocidental que tenho da vida e do mundo. A forma de se relacionar, comprar, oferecer, comer, andar, vestir, ou seja, quase tudo dos vietnamitas é substancialmente distinto do que já tinha visto antes na minha vida!

Um dia em Hanói já foi possível amá-la e odiá-la! Só odiei por uma hora no dia em que estava quase tendo um ataque de pânico, pois, literalmente, não tinha como passar pelas ruas do centro onde estava hospedada - era final de semana, acontecia um mega show, estilo uma balada a céu aberto, e a disputa entre pedestres, carros e motos era selvagem! No restante, amei intensamente e lindamente Hanói!

O tráfego é surreal nessa cidade asiática (redefini minha definição para caos). E tem outro choque impressionante: o das comilanças nas calçadas. Aliás, a vida ali acontece nas calçadas! Comer nas mesas dentro dos restaurantes? Só para turistas.

A nossa prática ocidental de cozinhar e comer está muito voltada para a esfera privada e ocorre dentro de nossas casas. Em Hanói, além dos estabelecimentos comerciais serem, majoritariamente, formado pelas gerações familiares, as pessoas tomam o café da manhã (que para nós mais parece um almoço) nas ruas. Famílias inteiras se reúnem nas calçadas.Duas coisas que aprendi convivendo com asiáticos na Austrália no ano passado e que vi muuuito em Hanói: eles sempre levam suas marmitas (como eu apelido de “potinhos”) e não têm vergonha de estarem comendo ao mesmo tempo em que te atendem. O lema: a comida vem de casa e não deve ser deixada de lado por causa do trabalho.

COMER, COMER

Eu tenho uma característica peculiar e que me atrapalha muIto nas minhas trips que é uma relação bem fresca com a comida: sou daquelas que comem com os olhos, ou seja, estética é tudo para desejar um prato! Bastou sentir um cheiro ruim ou ver algo estranho, que já era e pronto! Não consigo comer mesmoooo!!!

Uma das cenas mais assustadoras (desculpe se estou sendo preconceituosa, nojenta) foi testemunhar o hábito e a forma que eles têm de vender as carnes: às 7 da manhã eles as expõem nas banquetas e elas ficam lá, assim, paradinhas ao ar livre, o dia inteiro. Sem falar nas cabeças de porcos e outros bichos na íntegra, inteiras, como se fossem máscaras de carnaval (não tive estômago para tirar foto).

O povo de Hanói matura a carne na sarjeta, é isso mesmo que você leu: na SARJETA! Jogam a carne na calçada e começam a bater com uma espécie de machado... De novo peço desculpa, sei que é um hábito cultural, mas ao meu olhar foi horrível. Neste dia que andei por estas ruas de mercados abertos, não consegui comer, o cheiro impregnou no meu nariz.ALGUNS TOQUES

Para mim, Hanói me lembrou um misto de São Paulo com a italiana Nápoles: caótica, viva, intenso tráfego de carros, motos e pessoas, com muitas roupas penduradas nas sacadas...

Agora, a mistura de tradição e modernidade ficou clara em uma mesma noite, quando pude escutar música vietnamita em um estilo tradicional e performático e ainda curtir uma balada a céu aberto com um festival de dança. Ambas atrações estavam a 5 minutos de distância uma da outra!

Outra coisa que me impressionou em Hanói foi a presença maciça da arte na vida das pessoas. Há muitas galerias de artes com obras de artistas locais com obras fabulosas! A maior parte é de telas com variados tipos de pinturas. Me apaixonei por uma em especial, que você vê aqui abaixo...

VALE A PENA VISITAR

Falando um pouco dos tourists points, um dos cartões postais é o Hoan Kiem Lake - aliás, a cidade é inteiramente cercada por águas: lagos e rios aparecerão no seu caminho a todo momento.

O entorno deste lago é lindo! Muitas coisas ocorrem ao redor dele: artistas cantando e dançando, pessoas comendo e cozinhando (sim, eles cozinham nas... calçadas!), pessoas sentadas jogando conversa fiada, turistas andando e batendo fotos ou simplesmente, como eu amava fazer, vendo e sentindo a cidade acontecer.

Sempre escolho um reflexive point que é onde me sinto acolhida, encorajada e tenho condições de assimilar todas as novas experiências das minhas trips - este foi meu canto escolhido, à beira do Hoan Kiem Lake. à noite, antes de jantar, eu levava uma garrafinha de vinho arduamente encontrada em um pequeno mercado próximo ao lago (aprendi que o modelos de super mercado, ou seja, grandes mercados, é bem ocidental, e claro, capitalista).

Outro destaque é o Templo da Arquitetura: lindíssimo! Ele foi construído em no século XV em homenagem ao filósofo Confúcio, onde funcionou uma das primeiras universidades do Vietnã. Se você chegar cedo, conseguirá até meditar! É um oásis de calmaria no meio da caótica cidade. Fiquei uma manhã inteira respirando e sentindo este local que é mágico.

Trata-se de cena típica de Hà Nội (sempre há um ritual cultural em alguma esquina! Não é religioso, é cultural! Mais da metade do povo de lá é ateu! Viram como não sabemos nada do Vietnã?)

Outro ponto turístico é a Pagoda Tran quioc: construída no século VI, é um reduto de paz e serenidade na caótica Hanói. Parece mentira que você está naquela mesma cidade barulhenta, com mil cheiros e sem espaço! Aliás, o bairro onde se localiza esta Pagoda é lindo. Como estava chovendo, peguei o clássico tuk-tuk e parecia cena de cinema chegar num lago tão tranquilo e cheio de lindos restaurantes e cafés nos arredores. Hanói sempre se mostrando inusitada... por isso a amei!
Gostou? Então, vamos ampliar esse giro fotográfico...

FORÇA FEMININA

Outro lugar que nunca havia lido nos blogues e conheci é simplesmente IMPERDÍVEL: o Museu das Mulheres do Vietnã. Como já disse, não conhecemos NADA sobre a história desse país que guerreou bravamente contra os Estados Unidos. Pois as mulheres possuem um lugar extremamente protagonista e ativista na história deste país! Foi lindo e importante aprender sobre isso no museu.

É destinado às heroínas que lutaram para construir um país mais democrático. O protagonismo feminino vem desde Lady Trieu (início séc. I) que liderou a luta contra a invasão chinesa, passando pela ampliação dos direitos políticos para as mulheres na Dinastia Ly (ainda no do início séc. XX), pelas ativistas do movimento de independência contra a França (1930-54) e, finalmente, contra o imperialismo norte-americano na guerra. A garra e proatividade das mulheres é extremamente visível nas ruas de Hanói

Parabéns a estas guerreiras! E ao país que teve a sensibilidade de montar um espaço para homenageá-las! Recomendo visita guiada pelo áudio que nos dá uma aula de história!
GUERRA

O que sabemos sobre a “Guerra do Vietnã”? Agora sei que mais deveria ser chamada de “Guerra dos Estados Unidos”. Fui ao museu militar para conhecer a perspectiva vietnamita, mas, como diz o dito popular, “dei com a cara na porta”, assim aprendi coisas novas com um jovem que fica na porta do museu e que está fazendo mestrado sobre o assunto.

A conversa com o jovem se estendeu para um chá e acho que foi melhor do que teria sido a própria visita ao museu, pois me deu uma aula magnífica sobre este trágico período vietnamita. Síntese do que entendi: a guerra surgiu porque os americanos queriam conter os avanços do movimento dos vietcongues (Frente da Libertação Nacional), inspirado nas ideias marxistas e no movimento liderado por Mao-Tsé-Tung na China. A luta era por um Vietnã mais democrático e igualitário.

Este foi um período brutal para as vidas de vietnamitas e soldados norte-americanos, uma vez que o conflito começou em 1959 e se estendeu até 1975. Cidades foram destruídas, vietnamitas mortos ou desabrigados, soldados norte-americanos se afundando em alcoolismo e depressão...

PRA FECHAR BEM

Bom, estas foram minhas andanças e vivencias em Hanói. Há muitos outros lugares, claro, por isso a dica: se jogue por lá! Reforço aqui: sou péssima “guia” no quesito comida, mas para quem gosta de bons restaurantes, há diversos na capital e bem refinados. E como nosso dinheiro vale muito no Vietnã (100.000 Don equivale a, aproximadamente, 14 reais!), um prato saboroso vai sair por uns 60 reais. Em um restaurante bom e aconchegante, metade desse valor e ainda com uma taça de vinho ou uma cerveja incluídos neste preço.



Por fim, saibam todos: não se pode passar por esta vida sem ir a Hanói, onde conheci até a flor de Lótus, que nasce da lama, por isso seu
simbolismo referente à força e renascimento.



Voltaremos, só que de Halong Bay...

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