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Os portenhos

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15 de maio de 2018
Tango, vinho, jamón Pata Negra, muita caminhada, conversas e surpresas em Buenos Aires, conta Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

As luzes se apagaram lentamente. Em instantes, o palco iluminou e, nele, um casal pronto a dançar tango. A casa estava cheia. O cheiro de paixão pairava no ar. O show teve início com uma música que eu não conheço, mas me soou linda. O casal, vestido de forma extremamente elegante, exalava sensualidade. Olhos nos olhos, mãos nas mãos, pernas e braços se entrelaçando num balé de salto alto, meias finas, vestido rodado e masculinidade. Feminino e masculino, entrega, alma, paixão, ardor, dor, drama, coração na mão. Logo outro casal entrou. A sensualidade aumentou. As mulheres acariciavam seus pares com olhares ora lascivos ora misericordiosos. Desiludidas, elas simulavam ir embora dali, deixar seus amantes e eles as puxavam para junto de seus corpos rijos. Mãos grandes acariciavam com delicadeza seus rostos muito maquilados.

Os acordes do bandoneón choravam assim como os de um violino, só que com mais drama, mais dor. Os dois casais se amavam no palco, na frente de toda a plateia, sentada em mesas para quatro pessoas. O gran finale não podia ser outro: “Por Una Cabeza”, de Carlos Gardel, talvez o tango mais conhecido do mundo. Os casais, no palco e na plateia, se enamoravam.

Arrepio na pele, sorriso no rosto. O tecnicismo do tango nos pés, no corpo e na expressão do rosto daqueles quatro bailarinos era hipnotizante. As pernas das mulheres com cabelos pretos presos eram longilíneas, bem delineadas, esguias e fortes. O torço dos homens... ah, aqueles torços. Eu tive vontade de tocar, abraçar, ser acarinhada e aninhada naqueles torços.

Assim começou minhas pequenas e merecidas férias em Buenos Aires. A tanguería em que fui na minha primeira noite na cidade nada tinha de turística. Localizada em San Telmo, bairro próximo à Casa Rosada, a casa era pequena, com palco pequeno e apenas quatro bailarinos no show. Na medida para quem queria fugir de tudo ou quase tudo que um turista típico quer fazer quando chega à capital portenha. Eu queria ver alma, paixão, entrega, coesão. Achei exatamente isso. Foi incrível.

ACABOU A FESTA - Só no dia seguinte (por um só dia) virei turista típica. Peguei um ônibus aberto de dois andares para (re)conhecer Buenos Aires (se você acha brega, não sabe o que está perdendo). Estive lá em 2001, no auge de uma das piores crises econômicas da Argentina. Era época do governo Fernando de la Rúa. O peso não valia nada, a cidade estava aos trapos, assim como seus habitantes. Panelaços para todos os lados. O real era muito bem aceito assim como dólares. Táxis eram extremamente baratos. Foi um período tristíssimo para a população e de festa para turistas, especialmente brasileiros. Eu fui um deles. Comprei casacos maravilhosos, comi, bebi e andei para todo lado de táxi gastando um xelin.

Atualmente, a situação é completamente diferente. A economia parece ter melhorado de lá para cá, mas a cidade está caríssima. O peso ainda está desvalorizado frente ao real e ainda mais frente a moedas fortes, como dólar e euro, e o preço de todas as coisas subiu exageradamente. Não há festa para turista, embora haja muito turista por aquelas terras. Mas é preciso ter muitos pesos no bolso para uma boa estadia.

Para você ter uma ideia, em 2001, uma corrida de táxi do centro da cidade até próximo da periferia (fui a um museu, não lembro o bairro, mas não andamos mais que cinco ou oito quilômetros), custou algo em torno de 5, 6 pesos. Hoje, a mesma corrida custaria 100, 150 pesos – 25 vezes mais o que paguei na época. E tudo está assim, 25, 30 vezes mais caro que em 2001. Um dólar compra hoje 23 pesos no cambio oficial, mas passa fácil desse valor em muitas casas de câmbio. No paralelo nem se fala. A pergunta é: o salário dos portenhos aumentou na mesma proporção? Como jornalista não sei dizer, mas como turista acredito piamente que não.

A mim me pareceu que a pobreza aumentou, a classe média baixa tornou-se maioria e o topo da pirâmide é formado por ricos que ficaram ainda mais ricos. Situação bem semelhante ao Brasil, não lhe parece? Os Kirchners acabaram com o país, assim como os governos Lula e Dilma com o Brasil. Perguntei a várias pessoas, cultas e da população em geral, se o governo Macri estava melhor. “Não” e “igual” foram as respostas que mais ouvi. Talvez porque não tenha dado tempo de o atual presidente botar a casa em ordem ou talvez porque ele tenha herdado vários elefantes brancos para resolver.

PUENTE DE LA MUJER - O fato é que Buenos Aires, apesar de tudo, continua linda. A “Paris da latino américa” por conta de sua arquitetura. Coisa linda de se ver. A região do Puerto Madero já estava revitalizada em 2001. Hoje, ainda mais. As duas margens do Rio da Prata estão quase que totalmente prontas, ganharam mais lojas e restaurantes, um largo passeio para pedestres, arborização e, para mim, o mais legal de tudo: o Prata recebeu a Puente de la Mujer, desenhada pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava. Novamente ele no meu caminho. Ô, mas que alegria sem tamanho, meu Deus. Não sabia da ponte. Foi uma surpresa e tanto ver e andar por mais uma de suas obras espetaculares (o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, é projeto dele, como já disse aqui numa de minhas crônicas).

A obra tem como inspiração um casal dançando tango. De design moderno e vanguardista, um contraste com parte do entorno. A base representa um homem que sustenta uma mulher e sua longa e longilínea perna levantada. Uma dança perfeita. Uma poesia.

Fiquei horas em Puerto Madero e voltei ali mais umas duas vezes para ver a ponte com sol, porque estava frio quando cheguei e o dia seguinte ficou fechado, com fina garoa vez por outra. Nos outros sete dias em que permaneci em Buenos Aires (foram 10 no total, com direito a uma passadinha na Patagônia), o sol se fez presente em poucos momentos.

Devo dizer que nem tudo me surpreendeu positivamente. Buenos Aires é linda, continua linda, muita coisa melhorou e muito mais coisas se degradaram. A Calle Florida, por exemplo, que outrora fora um calçadão de lojas chiques, com peças finas de cashmere para vender, hoje mais se parece uma 25 de Março melhorada. A quantidade de camelôs aumentou demasiado, a qualidade das lojas caiu muito, assim como as coisas que vendem, e é absolutamente irritante homens e mulheres por todos os lados gritando “cambio”, “cambio”, “cambio”, “cambio”... Incrível como a tonalidade das vozes é igualzinha àquelas que se ouvem na 25 de Março, em São Paulo. A diferença é que, aqui, eles anunciam outros produtos. Lá, só câmbio, só “plata” interessa, especialmente de turistas desavisados e inocentes. Quanta gente não vi sendo enganada em plena luz do dia. Coitados. Turistas caem em cada cilada. Italianos, brasileiros (aos montes), americanos, alemães e suas inseparáveis bermudas e horríveis chinelos Birkenstock.

Carne, futebol e mulheres são paixões argentinas. A primeira não provei (não como carne sangrando e detesto chourizo), mulheres no me gustam e o futebol me deixou triste. La Bombonera, o estádio onde tantas e tantas partidas importantes aconteceram, está aos cacos. Muito degradado mesmo. Uma partida entre Boca Juniors, Independiente ou River Plate? Que nada. Ficou só a fama e a exaltação colérica dos portenhos pelos seus clubes de coração.

Como será na Copa do Mundo? A cidade já se prepara para o show. Na Avenida de Las Naciones Unidas, uma pintura gigante antecipa o gosto da vitória. Veremos.

Outra coisa que me deixou incomodada, além dos altos preços de tudo, foi o próprio povo. Desta vez eu não vi homens e mulheres vestidos elegantemente. Em 2001, encontrei homens vestindo sobretudo e chapéu, mulheres maquiadas (argentinas adoram se maquiar), com vestidos, meias fina, saltos, casacos e echarpes cujo conjunto era lindo de se ver. Agora, só jeans, camiseta, moletom e muita modinha sem-vergonha e de muito mau gosto. Ou seja, o que vi foi exatamente um reflexo da crise financeira da população, que sofre com vários e vários governos corruptos dilapidando o Tesouro Público. Algo também bem familiar ao brasileiro, não?

FLOR DE METAL - Porém, falando em arte, um assunto que eu sempre gosto de tratar, Buenos Aires é divina. Além da Puente de la Mujer, ganhou uma flor metálica incrível. Na verdade, ela já existia desde 2002, mas uma série de problemas com o sistema de abrir e fechar suas seis pétalas a deixou inativa até 2014, quando foi reinaugurada. Com 18 toneladas de peso e 23 metros de altura, a flor em aço inoxidável abre e fecha suas pétalas conforme a luz do sol. Quanto mais sol, mais aberta fica. Conforme vai anoitecendo, se fecha lentamente. Em dias de temporal, suas pétalas se fecham por completo.

É uma obra lindíssima. Fica no meio de um lago artificial em um parque imenso, bem ao lado da Faculdade de Direito, na Plaza de Las Naciones Unidas, no rico bairro de Recoleta. Tem como autor o arquiteto argentino Eduardo Catalano. Vale a pena conferir.

Descobri uma peculiaridade da Casa Rosada. Sabe porque ela é rosada? Porque quando da sua construção, foi pintada com cal e sangue de boi. É o que me disse um canadense com quem engatei longa conversa. André estava na cidade em visita aos pais. Sua mãe passou por uma baita cirurgia na cabeça para a retirada de um tumor, mas tudo correu muito bem e o destino quis que nos encontrássemos. Super bem-humorado, André tem cinco cidadanias: canadense, italiana, francesa, americana e argentina. A história para tanto é longa e não vou aborrecer vocês com isso. Uma história que daria outra história em outro artigo. Assim como o restante da minha viagem. Visitei muitos lugares que antes nem sabia da existência e conheci muita coisa que eu amei – tudo fora do circuito turístico tradicional.

Também cruzei com um senhor distintíssimo, sócio de uma vinícola na Patagônia. Señor Roberto, com quem bati um papo curto porém consistente e inteligente. Por fim, ele mandou para meu hotel duas garrafas de vinho da Bodega Patritti, localizada nas terras mais altas do vale de San Patricio del Chañar, próximo à província de Neuquém, na parte Leste da Patagônia.

Antes de nos despedirmos, ele me disse: “Gusto acompañado por aquello que valdría la pena. No pierdas estos maravillosos vinos con quien no aprecia y no la aprecia.” (eu mesma escrevi, não sei se está correto. Quem sabe, por favor, me corrija. Em tradução livre, ele disse: “Deguste acompanhada por quem valha a pena. Não desperdice esses maravilhosos tintos com quem aprecia e não aprecia você.”

Señor Roberto, seguirei seu conselho à risca. Gracias!
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