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Peripécias na noite de São João

Jundiaqui
28 de junho de 2017

Lucinha Andrade te leva ao Porto em noite de marteladas que nos fazem explodir de alegria



Havia um silêncio, quase sagrado, em Porto. A impressão é a de que todos guardavam energias em potes, como pedras preciosas que seriam usadas em um futuro imediato. Todos os pensamentos estavam dirigidos a um único alvo: a festa de São João.


De repente, como em conto de fadas, o espetáculo invade a noite, com os fogos de artifícios que desenham no céu as alegrias de nossas almas.


Nos desperta primeiro o olfato: sardinhas na brasa, em restaurantes ou expostas em calçadas, nas ladeiras e praças e fazem surtir o efeito psicodélico de fumaças festeiras, quase embriagadas pelo vinho e risadas.


O caldo verde completa o bloco gastronômico e somos todos portugueses nesta noite de São João.


Sem alardes preparatórios, tomamos um susto de audição. São pequenos grupos folclóricos ou grandes conjuntos, cantores conhecidos ou não, espalhados pelo Porto. A cada curva uma emoção, ladeira a baixo, ladeira acima, um acorde, um abraço, um rodopio, a música e a poesia em ação.


Neste estágio, já aquecidos, outra surpresa da festa, desta vez, uma ebulição de risos, por tanta criatividade, um instrumento de "punição": martelos de plástico em mãos!


O cheiro das sardinhas, o vinho, a música e plic.plic.ploc.plocploc... marteladas nos participantes, sem aviso prévio ou identificação. Crianças, jovens, senhores adolescentes retardatários e idosos, todos munidos com martelos, coloridos, pequenos ou grandes e dá-lhe martelada, sem remorso, por hábito festeiro, cultural e tradição.


Lembro-me dos martelos dos carnavais da minha infância, tudo tão puro e alegre como esta noite de São João.


No primeiro momento, veio o riso amarelado, de quem não é parte daquela cultura e senti uma imensa vontade de brincar como outrora, nos carnavais de marchinhas.


Caro leitor e leitora não fique pesaroso por essa minha pequena cisma, pois, logo foi embora, a vida não foi feita de outrora e, ainda, havia mais a descobrir, a vivenciar.


Pasmem, segurem a respiração, para o que lhes conto agora: além dos martelos, há a flor de alho. Uma haste enorme, comprida. Na ponta a flor de alho e à medida que passamos, além da martelada, somos batizadas pela flor de alho, atiradas em nossa frente e deslizadas pelo rosto.


Voltemos ao cenário inicial: a festa de São João em Porto. Sardinhas na brasa, em restaurantes e nas calçadas, vinho, caldo verde, música, martelada, flor de alho e uma multidão que desce e sobe ladeira, em procissão de alegria e fantasia.


Confesso-lhes, fico encantada, mas um pouco à deriva, pois sou turista e não levava martelada! Pequenas mudanças, martelo em mãos, entro na dança e plic.plic.ploc.plocploc..., cheiro o alho, abaixo e corro em uma festa interior desmesurada.


Ao plic e ploc que recebia, acrescentei o toque brasileiro e gritava: aiaiaiaiaia, tudo na maior algazarra. Em cada martelada expurgamos uma dor íntima da alma, uma decepção amorosa, um desencontro entre amigos, uma perda preciosa etc.


À meia-noite um show de fogos de artifício iluminam o Porto e todos os corações da garotada (todos agora ficamos meninos e meninas) e sorrimos largamente com a alma leve e acariciada.


Desconheço a origem da festa e confesso não quero, neste momento, explicações históricas e científicas; quero preservar o gosto desta cultura, desta festa folclórica que tem resultados espantosos na psique, equivale a anos de terapia, afinal é uma catarse: fomos todos abençoados e exorcizados por martelos coloridos, alho, vinho e sardinha assada.


Viva São João! Viva o Porto! Viva o acaso, que nasceu no ocaso da noite de São João!


Lúcia Helena Andrade Gomes é professora, advogada e presidente do Clube da Lady


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