Sarah Bulhões e a emoção de fotografar o novo Papa
Entrevista a Edu Cerioni – A jornalista e fotógrafa Sarah Bulhões, que está morando na Itália, viveu o que chama da experiência mais extraordinária de sua vida nesta quinta-feira (8), que foi participar da Praça São Pedro, no Vaticano, da revelação do novo Papa Leão XIV.
Ela conta como foram estes últimos dias até registrar em imagens a fumaça branca saindo da chaminé, a reação do povo e também a apresentação do sucessor do Papa Francisco, o norte-americano naturalizado peruano Robert Francis Prevost, de 69 anos.

A história começa com a morte do argentino Jorge Mário Bergoglio, no dia 21 de abril…
“Moro em Florença, faço trabalhos para uma agência de fotografia, e pouco vejo televisão aqui. Justo no dia da morte do Papa Francisco eu estava com a TV ligada e, como todos, acabei sendo surpreendida com a notícia bombástica. Sou católica, frequentava a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Colônia, inclusive fiz aulas de italiano e de oratória para leituras nas missas antes de me mudar. Pensei: ‘caramba, eu aqui na Itália, o funeral acontecendo, vou pra lá’. Mas não deu certo de viajar naqueles dias.
Fiquei ligada, então, na data do Conclave e na segunda-feira (5) disse pra mim mesma: ‘você tem que ir!’ Florença é perto de Roma, me animei e fui tentar pegar o trem… Tudo lotado, vendas de bilhetes suspensas e muitas viagens canceladas, tamanha era a confusão do povo querendo ir para lá.
Eu decidida a registrar esse momento histórico, o mundo de olho, e sem conseguir uma passagem de trem… Frustrada, comecei a buscar alternativas e também pesquisar hospedagem. Tudo muito caro em Roma, o que não estava cheio pedia um preço inimaginável, comecei a achar que não era pra eu ir. Mas daí aconteceu uma coisa: entrei em contato com freiras de Florença para que me ajudassem a achar hospedagem. Foi sem sucesso, mas que me motivaram a não desistir.
Depois que fiz 30 anos, comecei a ter medos que não tinha antes, gozado isso, inclua aí ficar na rua em Roma.
Outro dia, outras possibilidades. Veio a terça (6) e logo consegui embarcar para minha segunda visita ao Vaticano. Se na primeira foi marcante, a sensação desta vez foi mais que incrível. Até arrumei hospedagem na boa em Roma, tudo contribuindo.
Fui para a Praça São Pedro e todos estavam na mesma vibração, o que te envolve de uma maneira inexplicável, uma grande expectativa para o primeiro dia de Conclave. Muita gente falando em português, brasileiros aos montes pelo caminho, e jornalistas e fotógrafos do mundo todo reunidos, me senti entrando num filme.

Na quarta (7) cheguei bem cedo e até estranhei ter pouca gente. Pensei: ‘a pessoa vem a Roma e fica dormindo ao invés de vir ver o novo Papa’. Aos poucos, no entanto, o povo foi chegando, chegando com bandeiras de todas as cores, vindos de todo lado, uma multidão que tomou todo o espaço.
Eu fiquei ali. Não podia sair pra comer para não perder o lugar legal que arrumei para fotografar a sacada do Vaticano. Não dava pra beber muita água, banheiro era problema. Não podia ficar mexendo muito no celular, corria o risco de a bateria acabar bem na hora do anúncio. O que fazer? Você entra na onda e observa tudo e todos, você reza, reza muito, mais um pouco ainda.
Bateu cansaço, eu com uma lente gigante pra captar fotos lá no alto, e o tempo que não passava…
Na frente da TV, você fica ligado na história dos cardeais, mas vida vai acontecendo ao lado, outras coisas pedem sua atenção, e vai que vai. Ali não. Não podia perder posto, sabe tipo adolescente no show da vida sem sair do lugar?, me senti assim.
Cada um falava o que achava, mas na realidade ninguém esperava que o primeiro escrutínio resultaria numa fumaça preta, às nove horas da noite. Inclusive, muitos já apostavam que tinha sido eleito o italiano Pietro Parolin, ao que tudo indicava. Mas como todos sabemos, quem entra papa, sai cardeal. E assim foi. Já fazia quase 14 horas que eu estava em pé. Graças a Deus era hora de ir embora.

A quinta foi mais intensa. Se no dia anterior teve até uma chuviscadinha boa pra atenuar, agora o sol e o calor eram de derrubar. A demora do primeiro dia do Conclave fez crescer a esperança de que o resultado sairia logo e, então, o público quadruplicou. Não sei como coube tanta gente. Cheguei 9 horas e peguei o lugar que deu e dali não arredei pé. Tinha que sair um papa e eu tinha que conseguir mandar foto para minha agência em Florença.
A fumaça branca tão esperada às 10h30 não aconteceu. Câmeras pra baixo. Pessoas sentadas. Hora de relaxar um pouco. Agora era esperado uma branca ou preta por volta do meio-dia. Dessa vez, eles anteciparam. Fomos pegos de surpresa pela segunda “fumata nera” às 11h51, antes do previsto.
Uma longa espera novamente e cada um fazendo uma especulação, muita informação desencontrada. Daí veio a fumaça preta. Que decepção, achei que ia desmaiar. Pedi: ‘Deus não me tira esse momento’.
Ele me mandou forças. Comi uma pizza que tinha levado na mochila e segui sob o sol de Roma. Sombrinhas tentavam driblar o calor. Os fotógrafos na minha frente fumavam sem parar. Não tinha vento. A hora não passava. A fumaça branca das 17h30 não chegava. E quando já havíamos desistido desse primeiro escrutínio da tarde, a espera acabou às 18h07. Com um céu ainda azul e gaivotas voando, a fumaça branca começou a sair com força. E continuou. Apesar de esperada, veio inesperada.
A gritaria foi geral quando alguém avisou e começou uma grande festa, com abraços, risos, choro, gritos, histeria geral. Mudou uma chave na minha cabeça e ligou o alerta para emoção total. Que momento foi aquele!

Emocionada eu fiquei de registrar a fumaça tão esperada, depois a banda dos carabinieres, o povo todo em alvoroço. Passou tudo, o cenário mudou e ficou lindo.

Quando anunciaram o nome do escolhido, confesso que nem eu nem ninguém entendeu nada. Foi uma surpresa, porque tinha torcida para o italiano e outros, mas não se falava do cardeal Prevost. Melhorou quando se ouviu o nome Leão XIV, nome potente, forte. Incrível vivenciar, poder fotografar o novo santo padre naquela sacada, aqueles poucos minutos que ficarão para a eternidade da humanidade.
Saindo do Vaticano, todo mundo comemorando, comecei a chorar muito, muito mesmo. Afinal, se tinha dúvidas, reafirmei minha fé. Como fiel e jornalista, vivi no 8 de maio de 2025 o melhor momento da minha vida.
Ah!, e não acabou. O pós-Papa foi também sensacional. Volto para a hospedagem, coloco o celular pra carregar e as mensagens não param, uma atrás da outra, numa velocidade que me deixou atordoada. Primeiro vou ver o que a família em Jundiaí quer e minha avó começa a gritar, comemorando que me viu na TV. Minha mãe liga, outras ligações vêm de amigos de outros países, todos na maior alegria por terem me visto na Praça São Pedro. Gratidão a Deus eterna a minha. Brilhou Francisco, que seja iluminado o caminho de Leão!”

