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Ciência de ver

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13 de fevereiro de 2020
Por Renata Iacovino

“Quem tem as flores não precisa de Deus”.

Considerado por muitos um panteísta, Alberto Caeiro – um dos heterônimos de Fernando Pessoa – inaugurou uma filosofia com sua poesia.

Segundo estudiosos de sua obra, não se trata de uma filosofia poética, nem de uma poesia filosófica.

Enquanto a filosofia busca pensar o mundo abstraindo das sensações, ele propôs uma ciência de “ver”, contrária à observação banal e ingênua.

Colocando linguagem e palavras a serviço de uma desarticulação (o primeiro verso de "O guardador de rebanhos" é “Eu nunca guardei rebanhos,”), de uma forma direta da fala – sem ser prosa –, como uma frase em que floresce a sensação... trilha seus caminhos!

A contradição como essencialidade do humano, a não aplicação das rimas ou de algum outro formalismo, criando um modo intuitivo e direto de relato, retratam o que é possível somente ver e sentir.

“Nunca busquei viver a minha vida./A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse./Só quis ver como se não tivesse alma./Só quis ver como se fosse apenas olhos.”.

Chamou-me a atenção sr. Luiz Vicente, acerca do poema: “Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares./Parecem ter medo da polícia.../Mas tão boas que florescem do mesmo modo/E têm o mesmo sorriso antigo/Que tiveram à solta para o primeiro olhar do primeiro homem/Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente/Para ver se elas falavam...”.

Indagou-me se o compositor Cartola teria se inspirado em tal poesia.

Se sim, não sabemos com certeza, mas que há uma belíssima intertextualidade entre o que Caeiro aí descreveu e o que o compositor brasileiro nos deixou em “As rosas não falam”, não há dúvida: “Queixo-me às rosas/ Mas que bobagem/As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/O perfume que roubam de ti, ai.”.

Os olhos, tanto do poeta lisboeta, nascido em 1889, quanto do compositor carioca, nascido em 1908, além de terem em comum o pouco estudo, viam muito além do palpável, seja inspirados em situações cotidianas, ou em intimistas e sobre-humanas; todas, regadas a uma filosofia e a um lirismo que transforma, também, nosso olhar.

Renata Iacovino é escritora e cantora / reiacovino.blog.uol.com.br
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