Jundiaqui
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Essência e imaterialidade

Jundiaqui
28 de junho de 2018
Por Valquíria Malagoli

"Minha bela Marília, tudo passa; / A sorte deste mundo é mal segura; / Se vem depois dos males a ventura,/ Vem depois dos prazeres a desgraça (...) Sobre as nossas cabeças,/ Sem que o possam deter, o tempo corre;/ E para nós o tempo, que se passa,/ Também, Marília, morre (...) Que havemos de esperar, Marília bela?/ Que vão passando os florescentes dias?/ As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;/ E pode enfim mudar-se a nossa estrela./ Ah! Não, minha Marília,/ Aproveite-se o tempo, antes que faça/ O estrago de roubar ao corpo as forças/ E ao semblante a graça.”.

Eu sempre disse e reafirmo que este poema de Tomás Antonio Gonzaga ditou meus rumos...

Havia, creio, poesia em tudo antes dele, entretanto, eu não a percebera até então.

Eu era movida apenas pela certeza que, hoje, vejo nortear também a vida de meus próprios filhos, esta prazerosamente enganosa certeza da qual não tarda, cairá a máscara. A indubitável, ao menos nesta idade, ciência de todas as coisas; a inalienável, por mais alguns anos, crença na infalibilidade pessoal; na insuficiência e insignificância do derredor.

Àquela altura, eu não cogitava sequer que a essência é presa à matéria por um fio imaterial; que este fio, em minha vida, far-se-ia presente nas linhas do livro sempre aberto e imaginário em que escrevo acordada ou dormindo – porque ouso ainda sonhar!

Àquela altura, mais interessante se me apresentava e maior excitação me causava a angustiosa dúvida no tocante à história dos personagens, ou mesmo o quanto havia de real naquela ficção.

Curiosamente, o tempo passa, e não é difícil surpreendermo-nos à cata desta ficção, a fim de com ela florear a concretude cotidiana.

E a esta altura, quanta gente haverá a notar que coincidentes são os caminhos de quem escreve e de quem lê, afinal, pode ser que nossas vidas estejam mesmo todas atadas por um fio, na extensão duma linha somente, numa página suspensa de um livro maior...

Valquíria Malagoli é escritora e poetisa

 
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