Jundiaqui
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Tudo no devido lugar

Jundiaqui
5 de junho de 2019
Por Valquíria Malagoli

Dia desses, minha filha e eu observávamos uma taturana ziguezagueando pela garagem...

Fatigada da distração, ela me propôs que entrássemos, ao que me mostrei contrariada, dizendo que eu poderia, com tranquilidade, passar o dia todo naquela tarefa.

– Como poderia? Você precisa fazer o almoço, deixar tudo em ordem, cuidar da gente, essas coisas...

Obviamente sorri, afinal, eu, a adulta, falava do tocante ao meu desejo, enquanto que ela, a criança, pensava nas obrigações. Tudo, pois, no seu devido lugar!

Embora eu estivesse absolutamente fascinada com a visão daqueles longos cabelos voando ao vento leve, igual faz um marujo admirando a embarcação flutuar... Apesar também de eu ficar arrebatada por seu sorriso brilhantemente alinhado por força do aparelho, por sua voz risonha, por estar, enfim, diante desta criatura à qual adjetivo algum alcança... ainda assim, pude, de relance, notar as mangas no quintal da vizinha. E consegui retê-la, ali, comigo por mais um pouco à sombra de meu deleite, e, claro, à sombra concreta (tanto quanto pode ser concreta uma sombra) da majestosa mangueira.

– Filha... Veja como as frutas já começam a amadurecer!

Ela olhou simplesmente. Sem dizer palavra.

– Sabia que elas conversam comigo?

– Quem, mãe?

– Ora, as mangas!

...

– Aqui entre nós, acho isso bem estranho...

– Eu também acho, né, mãe.

– Concordo, filhinha. Afinal, não é da natureza das mangas falar. E essas aí falam.

– Estranho é você ouvir.

– Ué, eu tenho ouvidos.

– Eu também tenho e não escuto nada.

– Isso se explica facilmente: sou eu quem fica ali na varanda, quando está ardendo o sol, quando os sanhaços vêm repousar debaixo do frescor dos galhos, e quando as vespas roçam as frutas. Tenho, portanto, mais oportunidade que você de prosear com elas. Mesmo porque é bem nessa hora que elas tagarelam. Vai ver aprenderam a confiar em mim, sei lá. Como as andorinhas transitam pelo céu, confiando nas pipas, sem saber sequer que os meninos é que as empinam, e que nenhum deles tem carta de motorista, ou permissão pra voar.

Aparentemente, para minha surpresa, ela não pareceu me levar a sério.

Tanto é verdade, que retornou à investigação da taturana fofa. Insisti.

– Imagino que agora estejam fazendo a sesta. Reparou como estão quietas?

Quis provocá-la até o limite, por isso, mantive os olhos fixos nas alturas, donde as mangas precipitavam-se. No muro, bastante próximo, um gato amarelo espreguiçava as pernas, e depois as encolhia, espreguiçava e encolhia, espreguiçava...

Contei a ela a respeito de um amigo meu, o Roberto, que é marido da Vera, a bibliotecária, que mora lá perto da casa do Alexandre...

– ... resumindo, filhinha, essa história é ou não é uma maluquice?!

– Ah, tá bom. Ele que é maluco? Só porque conversa com grilos em pensamento é maluco?

– Você não entendeu, amor. Ele não tem grilo na cuca, não. Isso é música do Dudu França; nem é do seu tempo.

– Não foi isso que eu disse. Foi você que disse. Disse que ele conversa com grilos...

– ... e sapos

– e sapos!

– ... e vagalumes...

– Eu entendi! Tudo à noite. Da janela. Em silêncio.

– Isso. Mentalmente.

– Isso qualquer um faz. É uma brincadeira, mãe. Vai dizer que você nunca fez isso quando era pequena...

– Mas ele é adulto, filha. Mais velho que eu, inclusive.

Ela pasmou. E sorriu novamente, porém, desta vez, foi um riso inseguro, e, segurando-se na grade interrompeu por um momento o exercício de subir e descer, a fim de mirar-me melhor.

Eu, por minha vez, neste exercício recorrente de fascinar-me a qualquer gesto seu, não pude deixar de rir quando notei que seu corpinho esguio ficou suspenso no ar, todo curvado: mãos e pés muito próximos, queixo e calcanhares quase juntos.

– Mãe, você só pode estar brincando!

– Não, filha. Você está! Aliás, está brincando de quê? De vírgula? Porque parece uma, aí, toda torta.

– Não é possível, mami. Fala sério. Pra começo de conversa, mangas não falam. Ah, deixa pra lá. Você tá fazendo piada.

– Ai ai ai... que elas não nos ouçam, filha. Imagine, fazer piada da vida dos outros...

Valquíria Malagoli é escritora
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