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A rainha do Refogado e eu

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28 de fevereiro de 2019
Luiz Haroldo Gomes de Soutello

Para o público pensante de Jundiaí, que não é pequeno, o Carnaval de 2019 vai ser Carnaval com literatura. Carnaval precedido de perto pelo lançamento recente de dois livros muito interessantes, que de certa forma se relacionam e se complementam, um de Sumara Fernanda Mesquita e outro de Edu Cerioni.

Sumara recuperou e organizou para publicação uma preciosa coletânea de textos de Erazê Martinho, a meu ver o escritor mais importante entre os nascidos em Jundiaí, pelo conteúdo denso, pelo estilo saboroso, pela fantástica concisão.

O próprio Erazê estava começando a juntar material destinado a uma coletânea desse tipo quando partiu para o céu dos boêmios, no dia primeiro de abril para todos pensarem que a má notícia era mentira, e com sua partida prematura aquele acervo inestimável correu sério risco de ficar para sempre nas gavetas da família, como uma recordação só deles. Haja gaveta, porque Erazê escreveu muito.

Sumara é suficientemente íntima dos filhos do Erazê, Ivan e Cássio, para pedir que eles compartilhassem aquele tesouro com o público, e foi autorizada a vasculhar a papelada do Erazê em busca de outros textos além dos que ele já havia selecionado para publicação ou republicação. Assim mesmo, o que ela agora divulgou para o público não é a obra completa, são obras (bem) escolhidas: crônicas, poemas, cartas, recordações de viagem, filosofadas, uma amostra diversificada. Obrigado, Sumara. Ficamos te devendo essa.

O título imaginado pelo Erazê para a coletânea que ele não chegou a concretizar era “Palmas para mim”. Como a organização da coletânea acabou não sendo feita por ele, Sumara achou mais honesto publicar com outro título, e escolheu “Um beijinho do Erazê”, que era como ele se despedia dela nos e-mails. E retribuiu o beijinho inserindo antes da assinatura no prefácio a frase “com amor imenso”. Platônico naturalmente, ou melhor, filial, porque o Erazê havia oferecido a ela o espaço de filha mulher, que ele não tinha.

A propósito, diz a Rita Rodrigues que “o Erazê era admirado pelos homens e amado pelas mulheres”. Eu diria que ele era mais do que admirado, ele exercia um considerável fascínio, com sua inteligência fulgurante e versátil, mesmo sobre quem não compartilhava suas ideias políticas. Eu por exemplo.

Já o livro do Edu Cerioni é a respeito da obra não escrita do Erazê, é a respeito do bloco carnavalesco Refogado do Sandi, que está completando um quarto de século. Nesse livro, Edu misturou com habilidade dois estilos diferentes, o estilo de jornalista que está produzindo um documentário e o estilo de contador de “causos” que está batendo um papo descontraído com o leitor.

Como documentário, o livro é riquíssimo em informações a respeito do ambiente em que Erazê criou o Refogado, de como ele conduziu os destinos do bloco enquanto foi vivo, e de como a “Deretora” Gisela Vieira operou o verdadeiro milagre de assegurar que o Refogado sobrevivesse ao seu criador e se expandisse para patrimônio cultural de Jundiaí.

Por obviamente impossível, a resenha do Edu não abrange os milhares de foliões que refogam nos dias atuais, mas vai a fundo no grupo inicial e naqueles que foram mais próximos do Erazê. É aí que entra a contação de “causos”. Tudo isso ilustrado com centenas de fotografias, não exatamente as mesmas oitocentas que ele Edu montou nos painéis expostos primeiro no Maxi Shopping e agora no Gabinete de Leitura Ruy Barbosa.

No acervo de fotografias reunido pelo Edu para ilustrar o livro, apareço eu, de bicão, como marido da Rainha do Refogado em 2005. É, o Edu não botou legenda porque era muita fotografia, mas aquele tesooouro que aparece na página 119, com fantasia e sem fantasia (não seja otimista, eu quero dizer em trajes civis) é a Maria Helena, minha mulher. Bonita, né? Eu também acho.

Quando o Erazê decidiu que ela seria a Rainha do bloco em 2005, a cúpula do Refogado não estranhou, porque todos sabiam o motivo. O Edu conta, na página 118, como em 2004 ela pegou no meu barzinho doméstico uma garrafa de Absinto, que eu havia ganho do Rui Galvani, e levou para o “esquenta” do Refogado, na casa da Rita Rodrigues. Mas ela não sabia e não avisou que os bebedores de Absinto, como foram Oscar Wilde, James Joyce, Charles Baudelaire, Toulouse-Lautrec, Erik Satie e Pablo Picasso, para citar alguns dos mais famosos, costumavam diluir os 74% de concentração alcoólica na hora de beber. A turma do Refogado bebeu Absinto puro e o efeito foi devastador. Houve um que perdeu o desfile, porque apagou até o dia seguinte.

Os franceses apelidaram Absinto de a Fada Verde, por causa da cor e das supostas propriedades alucinógenas (é lenda). Foi por isso que o Erazê, que sabia das coisas, começou a chamar a Maria Helena de Fada Verde. De Fada para Rainha, foi pedra cantada.

Valeu, Erazê. Valeu mais do que vosmecê podia imaginar. Com a licença do Edu, agora sou eu quem vai contar um “causo”.

Quando nós casamos, Maria Helena tinha vinte e três anos, e eu sou vinte e três anos mais velho que ela. O dobro da idade da noiva, não é numerológico? Ela ainda não era formada em psicologia e eu já lecionava na FADIPA havia dezessete anos, por isso era razoavelmente conhecido no meio jurídico local, e nesse meio ela passou a ser vista como a mulher do Luiz Haroldo. Em compensação, ela é nascida em Jundiaí e eu não, a família Menten é muito conhecida em Jundiaí e eu não, de modo que fora do meio jurídico eu era o marido da Maria Helena Menten. Assim, do meu ponto de vista havia um razoável equilíbrio de poder nas nossas relações domésticas.

Mas, por causa da diferença de idade, ela se sentia um pouco a mulher do Luiz Haroldo. Só depois que foi Rainha do Refogado ela assumiu realmente a postura de rainha do lar. Acontece que no livro do Edu não está mencionado o nome Menten, só Maria Helena de Soutello. Edu amigo, vosmecê cutucou onça com vara curta. Minha cara metade sentiu-se outra vez tratada como a mulher do Luiz Haroldo e resolveu recuperar o terreno perdido.

A Rainha do Refogado, este ano, é a formosa Liliane Rossi, mas a Maria Helena pretende desfilar como Rainha do Absinto. Eu explico. Absinto é feito com losna, cujo nome científico é Artemisia absinthium. Maria Helena vai se fantasiar de Artemis, uma deusa que na mitologia grega era a senhora da caça (Diana, em latim), mas que no contexto refogoso é sabidamente a senhora do absinto.

Como eu já disse logo no primeiro parágrafo, vai ser Carnaval com literatura.
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