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As gêmeas

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13 de junho de 2017
Por Cláudia Bergamasco

Irmãs gêmeas, Gerusa e Gertrudes tinham gestos largos como boas descendentes de italianos. Viúvas, beiravam os 70 anos e estavam ambas muito bem de saúde e de aparência. Vez em quando, apenas vez em quando, tinham lapsos de memória. Como no dia em que saíram para fazer compras no supermercado.

Foram a um atacarejo comprar alguns itens não perecíveis em caixas fechadas para dividir depois metade cada uma, porque moravam cada uma na sua casa - elas se amavam, mas nunca se deram morando juntas.

Carrinho cheio, conta paga, Gertrudes abriu o porta-malas do seu carro e Gerusa ajudou a colocar as compras. Com a bolsa tiracolo, Gertrudes a escorregou pelo banco traseiro para poder pegar as caixas com mais facilidade. E fechou o porta-malas.

- Ahhhhhhh, não acredito, disse batendo a mão na cabeça.

- O que foi Gertrudes?

- A bolsa... a chave do carro... a chave de casa...

- Ah, não me diga! Você fechou o carro com tudo dentro?, perguntou Gerusa sentindo o sangue subir. - Gertrudes, você tomou aquele remédio para a cabeça hoje? O que é que te deu?

- Para, Gerusa, me desculpe, esqueci da bolsa. Botei dentro do carro para facilitar o trabalho.

- O que vamos fazer agora? Moço, moço, ajuda aqui! Minha irmã fechou o carro com a bolsa dentro, gritou Gerusa para o guardinha que passeava pelo estacionamento do atacarejo.

- E a chave tá onde?, perguntou o moço.

- Na bolsa, gritaram as duas em uníssono.

O guardinha olhou para as duas senhoras com aquele semblante de “não tem jeito”, “vocês são loucas”.

- Olha, ali na esquina do boliche tem um chaveiro. É capaz que esteja aberto, mas não sei.

- Que boliche? Aquele perto da loja de bolos?, questionou Gertrudes.

- É.

- Obrigada, moço, disseram as duas saindo em disparada.

Correram até onde o fôlego permitiu, ambas culpando uma à outra.

- Se você não tomasse essas porcarias para dormir isso não tinha acontecido.

- Já falei para parar com isso, Gerusa. Eu tomo porque não consigo dormir e não foi por causa do remédio que eu fechei o carro com a bolsa dentro.

- E foi por que, então, sua tonta?

- Gerusa, não me apoquente. Quer que eu fale dos seus podres?

- Ihhhhh, você está bocó hoje. É o remédio de dormir.

Resfolegando, as irmãs chegaram ao chaveiro. Fechado. Era sábado à tarde.

- Ai, moço, o chaveiro está fechado! Onde tem outro?, perguntou Gerusa a dois homens sentados na porta de um bar bem ao lado da porta pequena do comércio.

- É, onde tem outro que esteja aberto?, disse Gertrudes.

Os dois pararam para olhar aquelas figuras bem vestidas, de óculos escuros, cabelos curtos e bem tratados, pintados de loiro natural, ambas de vestido envelope, uma com um modelo de tecido lido e a outra, com um estampado chamativo.

- Agora, só lá no Paulistão. Pode ir lá que está aberto, disse o homem mais novo.

- Espera um pouco que eu procuro aqui no Google, disse, solícito, o mais velho, com o celular na mão.

Sem dar ouvidos, as duas agradeceram alto e correram para o Paulistão. Correram, trotaram, andaram rápido.

- Ah, Gertrudes, não sei como você conseguiu fazer isso.

- Perdoe-me minha irmã. Acontece.

- É, acontece. Acontece mais com quem toma remédio para dormir.

- Para, Gerusa!! E lá foram as duas andando, caladas, cada vez mais rápido e com a esperança de achar o tal chaveiro do Paulistão aberto.

Lá chegando, Gertrudes olhou desolada a pequena banca fechada. - Ah, Dio Mio, está fechado também! - Não acredito, disse Gerusa.

- Deixa eu perguntar lá dentro se eles sabem de outro. Gertrudes se aproximou do balcão de informação e a mocinha achou esquisito o chaveiro estar fechado, porque o dono só ia embora depois de o supermercado fechar.

- Acho que lá na Coopercica tem, né Gildete?

- O quê? O que foi?

- Chaveiro. A essa hora só na Coopercica, né?

- É, acho que é.

Gerusa é Gertrudes se olharam, suadas e respirando com dificuldades. Nem precisaram dizer palavra, saíram voando para o outro comércio, que ficava a uns dois ou três quarteirões de onde estavam. No caminho, Gerusa saiu da calçada esburacada e um carro passou a centímetros do seu corpo.

- GERUSA! Pelamordedeus, presta atenção por onde anda. Você com essa mania de usar salto, quase foi atropelada. Podia ter morrido, credo!

Coração disparado, a mulher não disse nada. As duas deram as mãos e atravessaram correndo a rua. Olharam-se e, num efeito fanfarrão descontrolado motivado pelo susto, começaram a rir, debochando delas mesmas naquela situação no mínimo excêntrica. Lá de longe, ainda rindo, as duas avistaram a portinha amarela do chaveiro fechada.

- Ó, Santíssimo, não é possível!, disse Gertrudes. Havia uma obra da prefeitura bem ao lado do chaveiro fechado e um senhor conversando.

- O senhor sabe se o chaveiro abre hoje?

- Não, senhora, não abre, não.

As irmãs se abraçaram e começaram a rir de novo. - Gertrudes, vamos tomar um táxi até sua casa, você pega a chave da minha casa, a gente pega o seu carro e vamos para a minha casa pegar a chave reserva do meu carro.

- É o jeito, minha irmã.

Por sorte, o senhor que estava conversando com os homens da prefeitura era taxista. No táxi, elas contaram o ocorrido, mas o motorista estava mais interessado em contar a sua história.

- Hoje eu fui lá na loja da Ana Maria. Comprei três frigideiras, mas acho que fui enganado.

As irmãs se olhavam. - É mesmo?

- É. Era promoção. Você paga uma frigideira e leva três. Comprei, né? Tem que agradar a patroa. Depois eu mostro e a senhora vê se é boa ou se fui enganado. A senhora acha que fui enganado?

Gerusa e Gertrudes ouviam o homem com desconforto. - Agora o senhor vira naquela esquina, sobe à direta e vai até o fim.

- Ele sabe, Gertrudes, ele é motorista!

- Ah, sabe sim. Ele sabe onde você mora, Gerusa?

Pararam na frente da casa e o homem foi logo abrindo o porta-malas para mostrar as panelas. Gertrudes empurrou Gerusa dizendo, “vai, vai lá logo que eu pago.”

- É, são boas essas frigideiras, disse Gertrudes dando o dinheiro e despachando o taxista com um “obrigada” atravessado.

Gerusa saiu da garagem com seu carro, pegou a irmã e voltaram para o atacarejo.

- Graças a Deus! Agora você vai na frente que eu vou logo atrás.

- Você vai para a minha casa, né?

- Claro, vamos dividir as compras.

- Tá. Te espero lá. Vem logo que o tempo está fechando.

Aliviada, Gertrudes pegou o caminho que achava mais perto para a casa da irmã. Dirigiu uns dois quilômetros e ouviu um estouro. O pneu havia furado. Ela desceu do carro, viu o estrago, levou as duas mãos na cabeça e olhou para o céu grunhindo palavras impublicáveis. Além do mais, era tarde e ela estava com muita fome, o que aumentava sua irritação.

Demorou umas duas horas, quase três, e Gerusa preocupada. O celular da irmã estava sem bateria. Dali a pouco, Gertrudes apareceu.

- Onde você foi? O que aconteceu? Liguei mil vezes no seu celular.

- Não pergunta nada, Gerusa, não agora. Para de falar e vamos comer.

- Por onde você veio que demorou tanto?

- Furou o pneu! Um homem num desses carrões altos parou e me ajudou a trocar. E ainda levei uma cantada, pode isso?

- O quê? Há, há, há, há.... só você...

- E você ainda ri da minha desgraça?

- Você quer que eu chore? Venha, a mesa do café está posta.

Gerusa e Gertrudes entraram e, sozinhas, se abraçaram de novo e, de novo, começaram a rir. Desta vez, alto e tanto que choraram. Só não contou à irmã que errou o caminho da sua própria casa e demorou pelo menos meia hora a mais para chegar e, quando entrou, viu que esquecera a chave na porta. – Humphf, foi a correria, pensou, num ato de autocomiseração.

- Para, se não eu faço xixi, disse Gertrudes.

Olhos molhados e barriga doendo de tanto rir, Gerusa disse: - Só falta a gente ficar sem luz.

O tempo fechou e uma chuvarada estava prestes a cair grossa e pesada. Em cinco minutos, a luz caiu. O portão de Gertrudes era elétrico e os dois carros estavam na garagem.

- Nããooo!! Agora vou ter que dormir aqui e ficar sem meu remédio. Cáspita!!

- Verá como vai dormir bem aqui, querida, sem o seu remedinho que te deixa louca.

- Gerusa... lembra da mãe? Era a mesma coisa. Somos filhas da mesma mãe. Você toma o remédio que eu tomo escondida de mim. Fala sério, te peguei!

- O que é isso, Gertrudes, ficou louca? E deu de ombros.

Na hora de dormir, Gerusa abriu seu criado-mudo e tirou seu vidrinho de Rivotril. – Santo remédio! Rezou, pediu por ela, pela irmã e mandou luz para a mãe morta havia anos antes de apagar na cama.

Cláudia Bergamasco é escritora

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