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A doce orgia de Arthur

Jundiaqui
25 de setembro de 2017
Por Cláudia Bergamasco

Sovar uma boa massa, jogar uma pitada disso outra daquilo, um creme, um toque pessoal e, voilà, sai um doce do forno aguçando papilas gustativas.

Arthur acordou com vontade de cozinhar. Fazer massa, lambuzar as mãos com farinha, ovos, água, amassar bem, bater e massagear aquela bola de massa no mármore, dar umas palmadas e deixá-la descansando por um tempo na geladeira. Pensou em fazer um prato salgado, mas tendia para o doce, já que naquele dia acordara com desejos açucarados – açúcar, mel, caldas, chocolate, coco, cremes, algo molhado, doce e macio, que lhe acalmasse a alma, abraçasse os sentimentos e o espírito, que lhe remetesse a um tempo longínquo, quando era criança e ficava na barra da saia da mãe a vendo cozinhar.

Tomou banho, fez a barba grossa, enfiou uma camiseta branca, uma calça de moletom cinza claro e foi para a cozinha. Depois de tomar uma caneca cheia de café preto forte sem açúcar, abriu o livro de culinária da bisavó paterna, uma exímia doceira que aprendera essa arte com a mãe e assim foi por uma longa linhagem de antecedentes que amavam cozinhar.

Arthur, quinta geração dos Mello de Lima e Souza, decidiu por uma iguaria portuguesa, com creme e fios de ovos, massa folhada muito, muito fina e um toque final pessoal: uma camada de avelãs e castanhas tostadas com um tantinho de mel no topo.

Pegou o avental imaculadamente branco de sarja gasta com seu nome bordado no peito e o vestiu dando a volta na fita e amarrando na barriga já um tanto saliente. Pegou um saco de farinha, ovos, açúcar, água morna e começou a fazer a massa que carregava a ancestralidade da família e uma assinatura sua: mudar a receita sem mudar o doce. Só para testar e ver como ficaria com uma pitada disso, outra pitada daquilo, um jeito novo de sovar e assar a massa. O que não podia faltar em nenhuma de suas receitas eram capricho e qualidade de ingredientes.

Comprava sempre produtos cuja procedência ele sabia. E quanto mais perto fosse de sua casa, melhor. O resultado, por pior que Artur achasse que ficasse o prato, sempre era um deleite para os poucos paladares que ele costumava chamar para experimentar. Os comensais soltavam onomatopeias de prazer, como hum, hummm, hummmm, oh, ohh, ohhh, ai, ai, aiiii, a cada mordiscada, bem devagar, para aproveitar cada pedacinho dos sedutores pratos de Arthur. Mas, do meio para o fim, eles perdiam toda a classe e invocavam a Deus de boca cheia, faziam elogios ao amigo com creme na ponta dos lábios, nos bigodes, e, salivando, iam com gula buscar outro naco do doce.

Arthur costumava servir café e chá com seus pratos. Café forte, um clássico, nunca faltava. Os chás eram sempre uma surpresa. Ele gostava de testar as papilas gustativas dos amigos servindo bebidas que eles não conheciam. Neste dia, por exemplo, fez uma infusão de mirtilo seco com vários tipos de ervas e outras frutas secas. Na boca, os sabores eram ora adocicados ora acres, o que impressionou os amigos. Junto com o prato de doce, a combinação ficou perfeita.

Arthur, no entanto, nunca ficava totalmente satisfeito. Queria mais, aprender mais, fazer mais, viajar o mundo, comer o que nunca comeu, sentir o gosto de certas comidas e temperos e o que elas provocavam na boca, no cérebro e no estômago. Especialmente no cérebro.

Era autodidata, mas já tinha feito um curso comprido em Portugal, foi aprender a confeitar na França e agora queria ir para um lugar exótico, como a Índia ou o Vietnã, algum lugar do Sudeste Asiático. Mas temia pegar alguma doença. Se tinha algo que ele não suportava, que tinha medo mesmo, era doença. Não ia ao médico de jeito nenhum. Quando sentia alguma coisa estranha, virava um bruxo com seu caldeirão fervilhante e tomava infusões, comia isso ou aquilo ou, ainda, tirava por um tempo do seu cardápio algum ingrediente. Era batata. Sarava sempre. Seu mantra era: a saúde e a cura estão na feira (ou no seu quintal, coalhado de ervas e pés de frutas). Mas, na Ásia a coisa era um pouco diferente. Então, ficava com um pé cá outro na ponta do precipício, com a cabeça maquinando entre os prós e os contras.

Os amigos incentivavam, já que Arthur morava sozinho, já não tinha seus pais com ele, não era casado e não tinha filhos. Namorava uma garota há uns cinco anos, mais ou menos, a Dedé, que ele amava e ela também. Mas, não queria que Dedé fosse com ele. E se ela pegasse uma doença? Por outro lado, e se algo acontecesse a ele, quem ele teria para cuidar? Dedé, então, seria uma boa companhia e ela poderia ajudar nas compras. Sem contar que seria muito mais divertido. Isso era o que os amigos falavam. Ele concordava em parte. Muitas vezes se entusiasmava em longos bate-papos sobre o assunto com Dedé.

Um dia, pegou o mapa, percorreu cada ponto do mundo e decidiu: não, não vou a lugar nenhum. Arthur tinha 43 anos de idade, era vigoroso e tinha uma vida inteira pela frente. Podia fazer o que quisesse sem problemas de qualquer tipo. Mas, herdara uma característica só vista em seu bisavô materno: era inconstante, tinha variações de humor e precisava ficar sozinho e cozinhar sozinho pelo tempo que ele achasse necessário para “voltar ao normal”. Preferia servir a ser servido, dar a receber, acolher a ser acolhido. Esquisito, mas justamente por esses “defeitos” Dedé o amava. Cuidava do namorado com tanto carinho que sabia a hora de deixá-lo voar em seu mundo, sozinho. Sabia também que quando ele estivesse pronto voltaria a buscar seu colo, seus beijos e afagos. Respeito pelo espaço de Arthur era primordial para o ótimo relacionamento que tinham, assim como compreensão.

Quando Arthur fechou o mapa mundi em seu computador, telefonou para Dedé e a convidou para vir à sua casa porque tinha uma coisa importante a dizer. À noite, ela foi encontrá-lo.

- Eu fiz um bolo de chocolate para você.

- Uau, que lindo! Deve estar delicioso. Deixa eu provar.

- Claro, amor.

Enquanto Dedé se deliciava com o bolo, Arthur a olhava com profundidade. Percorreu cada pedacinho do seu rosto, dos cabelos, seu corpo gracioso, bem desenhado, forte. Sentiu ganas de tê-la para sempre. Puxou a cadeira onde ela estava sentada para junto de si e a abraçou forte. Acariciou seus cabelos, pegou no seu rosto, fixou nos seus olhos e disse:

- Eu... eu... bem, eu...

Calada, Dedé via e o ouvia.

- Dedé... E chorou em seu ombro.

A namorada o abraçou.

- Chhhhh, está tudo bem, eu estou aqui e eu entendo você.

Arthur chorava lágrimas grossas.

Dedé, ao contrário de Arthur, era autoconfiante e tinha fé, foco e força em tudo o que fazia. Enquanto acariciava a cabeça do namorado pousada em seus ombros, pensou numa coisa que sua mãe lhe dissera pouco antes de morrer. Dona Dora disse à filha: “gostamos de certas pessoas porque elas são boas ou decentes. Internalizam certa decência do mundo que as torna capazes de assumir um risco ou fazer um sacrifício por outra pessoa. Elas nos permitem ver que, de fato, há uma espécie de bússola moral que ainda funciona e que, se quisermos, também podemos nos orientar por ela.”

Mais calmo, Arthur pediu desculpas por aquela situação. Dedé lhe beijou e disse que o amava, que não importava se era assim ou assado, o amava exatamente como ele era. O coração de Arthur esquentou. Ali, naquele momento, criou-se entre eles um laço que jamais se desataria e Arthur sentiu algo que nunca sentira, algo inexplicável. Algo que ele, achava, encontraria perambulando pelo mundo. Mas, esse sentimento estava bem ali ao seu lado todo o tempo.

Arthur e Dedé nunca casaram na igreja. Decidiram abrir uma doçaria com o nome da bisavó dele e passaram a fazer doces juntos. Felizes, com altos e baixos, mas felizes e satisfeitos. Vez por outra, depois da loja fechada, eles iam para a cozinha preparar as coisas para o dia seguinte e acabavam fazendo amor em meio a farinha, ovos e manteiga. Saciados, desatavam a rir e brincar um com o outro no chão da cozinha.

Dia seguinte, Arthur acordou com vontade de fazer muitos doces. Dedé fez café preto forte e abriu o livro de culinária da bisa do marido e começou a palpitar sobre essa e aquela sobremesa. Arthur se achegou a ela e a conversa rolou solta. Feliz e saborosa.

Claudia Bergamasco é jornalista e escritora
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