Tem Jundiaí no Rally dos Sertões
Por Edu Cerioni – Um sítio no bairro dos Fernandes virou pista de teste neste domingo (10) para o Rally dos Sertões 2025, que acontece entre 26 de julho e 3 de agosto. Por que Jundiaí? É aqui que a equipe GO2 Next, do piloto Paulo Henrique Pichini e do navegador Paulo Bomba, prepara seu carro com o pessoal da Auto Mecânica Bêgo, na Colônia. É o terceiro ano que isso acontece.

O protótipo de chassi tubular coberto por uma bolha em fibra do Mitsubishi Triton tem na preparação o mecânico responsável André Bêgo e os auxiliares Lucão, Eduardo e João. O engenheiro é Celso Beraldi, da Oficina MM Beraldi, na Vila Rami.
O teste faltando cerca de 50 dias para a tradicional prova de velocidade e resistência atraiu até torcida e, como bom domingão, rolou churrasco e muita conversa depois de o carro encarar o barro por conta da chuvarada. O tempo ruim limitou o trabalho, mas foi o suficiente para apontar a necessidade de algumas correções até a próxima acelerada daqui a 15 dias.

Bêgo conta que o protótipo fica aqui o ano todo, quando passa por revisão total e melhorias, saindo apenas às vésperas da disputa que este ano terá um total de 3.482 quilômetros, dos quais 2.215 cronometrados, percorrendo cinco estados, pela ordem Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Alagoas. A largada será em Goiânia e a chegada em Marechal Deodoro, cidade da famosa praia do Francês.
“Trabalhamos com um único objetivo: não quebrar. Essa é a motivação de um ano todo e que se resume a oito dias apenas. E garanto que não é fácil não quebrar quando se exige tanto do carro. São muitas as variáveis, diferentes terrenos, velocidades… O Sertões é mistura de amor e ódio, sendo que o amor fala mais alto. Tanto que acaba um ano, já fico ansioso pra recomeçar e melhorar para o próximo”, contou Bêgo, 43 anos.
O mecânico diz que uma abraçadeira ruim pode custar um pódio. “São muitas peças e tudo tem que funcionar bem por mais severo que seja o uso”, explica. “Qualquer coisa diferente disso traz frustração”.

Bêgo acompanha junto com Eduardo todo o percurso do Sertões em carro de apoio que faz um trajeto paralelo, tipo uma prova por fora só que bem próxima daquela oficial, isso para atender alguma emergência da dupla competidora, o que não é difícil de acontecer – tipo um pneu estourado, por exemplo. O monitoramento é via sistema de geolocalização, somando GPS, comunicação e sensores para rastrear a posição exata do carro em tempo real. O sonho dos jundiaienses é que não seja necessária qualquer intervenção.
Bem diferente do que acontece de noite e normalmente varando a madrugada, quando o quarteto da Bêgo pega firme no trabalho de manutenção preventiva e de reparos (cada equipe tem seu caminhão-oficina) para que na manhã seguinte o piloto e o navegador voltem a acelerar confiantes na briga pelo melhor tempo. O chefe de equipe é Roney Gregório, que cuida desde o pagamento da inscrição, a logística, o alojamento e tudo mais para que a dupla foque no que é o mais importante: correr bem.
No Rally dos Sertões, criado em 1991 e que não parou sequer durante a pandemia da Covid-19, é permitido consertos pelo caminho e até resgate, mas o piloto Paulo Pichini lembra que não cruzar a chegada de uma etapa é certeza de que não se terá pódio naquele ano. “Tem que fazer o menor tempo possível todos os dias”, diz.
Neste tipo de prova de velocidade em linha como o Sertões, os competidores vão de um ponto “A” ao “B” todo dia e, ao final das etapas, quem tiver feito o menor tempo no geral é o campeão. Serão oito dias e reunindo 50 carros como o da GO2 Next, 60 motos e quadriciclos e 100 utilitários (UTVs), divididos em dez categorias que dão troféus aos melhores, sendo dois em caso de duplas.

Celso Beraldi é o responsável por refazer algumas peças do carro em nome da maior resistência. Exemplos são as mangas e os eixos traseiros, que saem de sua usinagem.
O protótipo pesa mais de 2.300 quilos e vai encarar entre fins de julho e começo de agosto percursos diários que terão de 230 a 400 quilômetros. “É o tempo todo buraco, subida, descida, pedra, lama, poeira, areia etc. Tem que ser forte”.

MESMA VIBE
Os dois Paulo, o piloto de 60 anos e dono da equipe, e o navegador, 50 anos, ambos moradores de São Paulo, correm juntos desde 2012, embora os rallys tenham entrado nas veias de ambos bem antes do que isso.
A comunicação durante a corrida é por microfones e fones de ouvido acoplados ao capacete. Como não tem mapa, somente referências em metros que aparecem em um monitor junto ao painel à frente do banco do carona, a dupla precisa estar afinada para que faça o melhor em um momento de pura adrenalina. Pichini resume: “Todos têm que estar na mesma vibração, a dupla que compete e todo o apoio, só assim haverá bom resultado”.

O navegador ensina: “Não dá para dizer curva acentuada mais à frente à esquerda, porque assim ninguém ganharia nada. Meu dever é simplificar a informação para que ela chegue rápido e precisa”. O piloto conta como é para ele: “É vital a concentração, a atenção para seguir à risca o que me é orientado”. Para tanto deve ter capacidade de lidar com a pressão e ser criativo para driblar os imprevistos.
Experiência não lhes falta. Pichini já foi campeão Paulista e mais incrível ainda: foi 6º lugar no Rally Paris-Dakar, o mais famoso e desafiador do mundo – na época com o navegador Lorival Roldan. Correrá pelo 21º ano o Sertões, no qual coleciona vários terceiros e quartos lugares, inclusive junto com Bomba, que também já foi campeão paulista duas vezes.
Além do capacete, são obrigatórios o macacão, luvas, sapatilhas antichamas, protetor cervical e balaclava, como se fosse na F1. E dentro da cabine ainda tem extintor de incêndio que é acionado automaticamente em caso de fogo. A proteção é necessária porque os rallys são cheios de acidentes. Pichini conta que já capotou o carro 14 vezes. A história de Pichini foi contada no livro “Nas Curvas da Vida”, publicado em 2024 e escrito por Carlos Gati.

Pichini não fala em investimento na equipe, mas lembra que são R$ 38 mil este ano de inscrição da dupla e mais R$ 3 mil para cada integrante do apoio. Tem peças importadas, pneus e outros muitos custos mais. O Sertões não oferece premiação em dinheiro, mas isso não é questão para ele que foi dono da CO2 Next, a empresa responsável pelo projeto de conectividade do rally e que acaba de ser adquirida pela japonesa Ricoh, da qual é vice-presidente de negócios. “Levamos rede, áudio, vídeo literalmente para o meio do sertão brasileiro e se funciona lá, imagine nos grandes centros então. Esse é o nosso retorno”.
Bomba fez faculdade de Ciência da Computação e trabalha na CO2. Foi ainda quando era universitário que participou de uma prova do Mitsubishi Motors Sport e se apaixonou.
A indicação de André Bêgo foi feita por um amigo em comum, Sandro Stringuetti.
Para efeito de curiosidade, Bomba conta que as disputas levam entre 4 a 9 horas diárias e isso significa esse tempo todo sem ir ao banheiro ou, na pior das hipóteses, fazendo xixi no próprio macacão. Ele passou a sentir enjoo nos últimos anos e assim recorre ao Plasil. Eles levam 3 litros de água cada e mais duas bolsas separadas de 1,5 litro cada de isotônico. Também consomem barrinhas de cereais pelo caminho.
Pergunto se dá sono e os dois são enfáticos em dizer que não e que muitas vezes no acampamento à noite é complicado dormir por conta de toda a agitação, a expectativa e tudo que envolve essa competição que em 2022, por conta de seus 30 anos, se tornou a maior do mundo em quilometragem cronometrada.

TORCIDA
Larissa Pitini, esposa do piloto, diz que não tem receio no aspecto segurança, “fico bem tranquila”. O que lhe provoca tensão é a possibilidade de quebra do carro. “É um trabalho de muita gente e isso nunca é legal, chateia muito quando acontece. Por isso acompanhamos esses testes e mandamos toda a nossa boa vibração”.
Pela primeira vez, por conta das férias escolares, Larissa e os filhos do casal vão junto durante todo o rally. Em edições anteriores acompanharam ou a largada ou a chegada. Paulo Henrique tem 13 anos e Rafael Henrique, 11. Desde que o primeiro nasceu, o pai nunca mais capotou em uma prova. Antes disso, foram 14 acidentes sem muita gravidade. Os troféus são sempre oferecidos aos meninos, cujos olhos brilham com a possibilidade de um dia também desafiarem o Sertões.

Também Antônio Luiz Bêgo, 69 anos, foi conferir o teste e disse que esse tipo de desafio motiva a equipe da mecânica que ele criou em 1992 e que tem sua filha Juliana comandando o escritório – a esposa Maria Inês cuida da casa e a outra filha, Angela, é professora. “O André leva no coração muita gente nessa sua aventura pelo Brasil”.

