Padre Júlio vem despertar corações e mentes
Por Edu Cerioni – Padre Júlio Lancellotti foi recebido por centenas de pessoas que ficaram em pé e não economizaram aplausos na manhã desta quarta-feira (7) em Jundiaí, cidade que ele disse ser famosa em meio àqueles que vivem em situação de rua. A fama a que se refere cresceu nos últimos anos é “porque aqui se oferece passagem a quem está rua para que vá embora rapidinho”. O coordenador da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo espera a partir de agora que a sociedade se mexa e faça de Jundiaí um lugar que dá oportunidades, não onde apenas se reza pelo pobre e sim se reza junto com o pobre.
Foi pouco mais de uma hora de conversa, que voou. Desceu do palco para ficar próximo das pessoas, olho no olho. “Tem que saber ler os olhos dos outros. Faço casamento e percebo quem fala a verdade, por exemplo, quando jura amor e fidelidade. Xiii, tem cada coisa que os olhos revelam”.


Saiu do auditório da Unianchieta lotado depois de receber muito carinho e fazer incontáveis fotos e com a certeza de que esse tipo de encontro também lhe faz muito bem. Como disse ao JundiAqui, “é um alento, dá esperança”. E usou da sabedoria de Frei Beto para alertar: “Feijão só cozinha na pressão, por isso agora é com vocês, precisam cobrar os governantes por mais moradias populares, por inclusão e não permitir mais a exclusão dos irmãos”.
Se o padre ficou assim tocado com a recepção, imagine o que mexeu com os ouvintes. Creio que todos vão prestar mais atenção a suas ações diárias com o coração menos duro do que esses tempos incertos impõem. Convocou os presentes para que façam camisetas com frases do tipo “Sou amigo dos pobres” e que escrevam e-mails para a Promotoria de Justiça de Jundiaí dando apoio à Missão Belém, que atua no acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade no Santa Clara e tem seu funcionamento contestado.

Sua atuação junto a dependentes químicos na cracolândia da Capital o fez ser perseguido por muita gente e aqui fez questão de chamar para a primeira fileira de poltronas esse público assistido pela própria Missão Belém. Os convidados estão conseguindo ficar longe das drogas, do álcool, homens que trabalham na terra, na recepção de outros necessitados e que deram depoimentos emocionantes de que todos merecem uma chance de recomeçar, mas ninguém consegue sem amor, carinho e apoio.
E o padre explicou: “Há um entendimento errado sobre a Missão Belém, estão tratando como clínica e não é. Não recebe um centavo público”. Sobre a fiscalização feita pela Vigilância Sanitária e que ameaça o funcionamento da casa, prosseguiu: “O Poder Público vem fiscalizar, mas não ouve as pessoas, só vê problemas. São 180 atendidos com quatro refeições ao dia e que têm certeza de que nossa missão é primeiro ouvi-los, entender as circunstâncias de vida que eles têm e dar apoio. Ninguém aqui fora pergunta a eles o que você sente? Erraram, claro, mas sabem fazer muitas coisas. E eles amam”.
O que ensinou a todos é que ninguém fica amigo perguntando RG e CPF, as pessoas não são fichas, porque amizade se conquista com confiança. “Precisamos ser mais sinceros, governantes, entidades, cada um saber o que estamos vivendo hoje. Se não se faz assim, fica fácil eleger um bode expiatório, que é o pobre. O exercício de partilhar em uma sociedade que concentra, incomoda e gera conflito”.

Uma novidade anunciada com trabalho de assistidos da Missão Belém foi a criação do Pet Shop Social São Francisco de Assis, em homenagem ao Papa Francisco. O projeto será em parceria com a Prefeitura Municipal. A secretária Luciane Mosca, de Assistência e Desenvolvimento Social, participou do encontro desta terça e ouviu do padre que este será um piloto de Jundiaí e que será levado a outras cidades. “Muitos que vivem na rua precisam de atendimento para seus cães e este serviço vai ser ampliado a toda a população carente”.
Outra proposta feita pelo pároco da Igreja de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, Zona Leste de São Paulo, é a de doação de computadores para a criação de um serviço de empregabilidade e que dê acesso ao site Gov.br para quem vive na rua e assim este possa buscar uma vida mais digna e aproveitar de seus direitos como cidadão. Ficou de Jundiaí se mobilizar para criar um grupo de estagiários que toque esse projeto.
Padre Júlio Lancelotti, de 76 anos, foi enfático e usou outra lição de Frei Beto: “Cada um pensa onde os pés pisam, se não pisa na favela não consegue entender o pobre. Não ler o Evangelho, não tem como entender o Papa Francisco”. Sobre o Conclave no Vaticano para a escolha do novo Santo Padre, resumiu: “Não tem como escolher alguém que não seja amigo dos pobres. Francisco deixou ensinamento e adotou o modo de vida de Jesus, não cabe retrocesso”.

Por fim, disse que ter a cabeça cheia de perguntas como a sua é melhor do que cheia de respostas, assim ouvindo é capaz sempre de aprender.
Fortemente criticado em várias ocasiões por políticos da direita, veio a convite do pessoal do PSol, o vereador Henrique Parra Parra e suas parceiras Patrícia Torricelli e Carol Lemos do coletivo Cardume. Ergueu o braço ao final e puxou coro de “Palestina livre” e “Anistia não”.


