LOADING...

Jundiaqui

 Rita von Hunty veio para desacomodar Jundiaí
21 de maio de 2025

Rita von Hunty veio para desacomodar Jundiaí

Por Edu Cerioni – Parecia show do Alceu. Avenida Frederico Ozanan congestionada desde o viaduto da Duratex até o Sesc a partir das 18h, isso apesar de muita gente estar na fila para conseguir um dos 900 ingressos gratuitos desde o começo da tarde. Teve quem chegou às 13h30 para conferir a palestra da Rita von Hunty às 19h. Começou com compreensível atraso para que o público pudesse se acomodar. E depois disso ela desacomodou a todos!

Foi recebida em pé sob aplausos e o mesmo se repetiu na despedida. Foi tão intenso que teve quem ficou do lado de fora, sem bilhete, ouvindo ao longe e esperando até poder entrar no ginásio a partir das 21h, quando a drag queen e influenciadora já tinha dado uma aula sobre o que é diversidade. Seguiu com dados históricos, estatísticas, dedo nas feridas com pitada de bom humor quase até 22h. Teve que correr no final com as palavras, para fechar o conteúdo proposto. Deu o recado assim mesmo.

Como disse Rita, “não tem ninguém do mal aqui”, em referência a quem não está preso ao ódio conservador. Ela conseguiu em uma sexta à noite (isso mesmo) dar aula de um jeito que muito professor de universidade sonha, todos atentos, ligados no que ouviam e prontos nas respostas em palmas, risos, espanto…

Foi um chacoalhão ver tão escancaradamente quão grandes são as diferenças que seguem sendo historicamente alimentadas pela classe dominante. Diferenças essas que são usadas para sustentar não só o racismo como também as desigualdades sociais, o preconceito contra homossexuais, nordestinos, indígenas e sufocante também contra mulheres. Uma sociedade se diz contemporânea, só diz.

“Existe negro? A Resposta é pra quem, quando, onde? Até o ano de 1200 essa palavra não existia. A partir da colonização, negro surge como significado, como significante”.

Em uma brincadeira diante de público maior de 14 anos e para refletir, perguntou: “Quem quer limpar minha casa de graça? Quem quer lavar minhas cuecas sem receber nada? Quem quer cuidar da comida, dar conta de tudo?” Daí se ajoelhou no palco e soltou: “Quem quer casar comigo?” Foi assim que falou de como a mulher é explorada pelo homem, para quem “deixou pelos debaixo dos braços ou nas pernas é porca”. “E não sabe fazer bolo? Vai tomar no cu, isso sim”.

“Por que o bom é cantar de galo, é ser forte como um touro? Já a galinha e a vaca são putas. Nasceu em Pernambuco, Bahia ou Alagoas, todos são nordestinos. Por que não existe os sudestinos, para quem é de São Paulo, Rio, Minas? O humor negro é ruim, bom é a inveja branca… e a verdade travestida de mentira? Porque não foram os travestis que cunharam a frase”.

Fez citações sobre a obra de Achille MBembe, Foucault, Maurice Merleau-Ponty e Hélio Santos, usou dados da OMS e voltou até a Grécia Antiga para perguntar se ali existiam homossexuais. Ouviu sim de parte da plateia e esclareceu: “Homossexualidade só aparece na Europa em 1800. Na Grécia Antiga homem não transava com homem por prazer, isso era inadmissível. Mas quem era da classe dominante penetrava o dominado para mostrar seu poder. O adulto penetrava o jovem, o rico o pobre”.

Rita von Hunty, personagem criada por Guilherme Terreri Lima Pereira, de 34 anos, formado em artes cênicas e em língua e literatura inglesa, abordou a questão de grupos sociais buscando tímidas mudanças na língua portuguesa, como com o tods e que reacionários veem isso como tentativa de destruir a língua. “Claro, porque proparoxítona veio de uma bromélia. Feminicídio estava na terra, alguém bateu enxada e a palavra saiu. Toda palavra é inventada, a questão é qual grupo pode e qual não pode inventar”.

De saia, blusa de tricot que ganhou de uma amiga, com peruca e maquiagem, assumiu o papel de professora e deu lição sobre cultura, literatura, política, filosofia, sociologia e até cutucou a psicanálise de Freud, em especial o famoso enigma “o que deseja uma mulher?”. Acompanhada de intérprete de Libras (dois se revezaram), logo mostrou que “cultura não é o reino de doçura e luz, onde são preservados o que de melhor a humanidade produz”, como a elite quer fazer crer. “O que a gente vê não é o mundo, mas a cultura sobre o mundo. Cultura é campo de guerra”.

“Saia letrado para letrar”, pediu e foi aclamada.

Algumas frases que disse:

# “O racismo custa R$ 103 bilhões ao mês para o Brasil, por conta da diferença salarial para a mesma ocupação. Um país em que 354 dos 525 anos foram de escravidão”.

# “Não olhar para raça quando se debate o Brasil, na real se está debatendo a Noruega”.

# “Entre 2012 e 2023 a renda de negros foi de 57,8% para 59% daquela dos brancos nos mesmos postos de trabalho. Nesse ritmo vai igualar daqui a 340 anos”.

# “Dançar balé já foi crime? Tocar música clássica foi crime? Mas jogar capoeira e tocar samba já foram criminalizados”.

# “Só a partir de 1990 a homossexualidade deixou de ser doença mental para a OMS”.

# “Ao você assinar numa ficha raça, gênero, sexualidade, está produzindo desigualdade”.

# “Não há exclusão, certo? Mas para ser trainee na empresa o jovem de 17 anos tem que ter inglês fluente, embora nunca vá usar o inglês para nada. O que se diz ali é que quero jovem branco de classe privilegiada e não negro pobre”.

# “Corpo que não consigo explorar é vagabundo, o primeiro foi o indígena”

# “Só bato porque te amo. O poder da cultura dominante faz coisas absurdas passarem como naturais”.

# “Sociedade é tecido social, diz respeito a ocupar espaço e estar na presença do outro e tecer uma relação”.

# “Deus sempre esteve entre nós. Como foi parar acima de tudo para tanta gente?”

 

Para saber mais, a dica é assistir o canal no YouTube “Tempero Drag”, com mais de 1,2 milhão de inscritos e 300 vídeos publicados nos últimos 10 anos.

Fotos: Divulgação/Sesc Jundiaí

 

 

Prev Post

Manhã festiva no Grupo Sol…

Next Post

Felicidade é isso aí

post-bars

Leave a Comment