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Desfazendo equívocos sobre Louveira

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3 de outubro de 2020
Por Luiz Haroldo Gomes de Soutello

A povoação conhecida no século XVIII como Rocinha situava-se na antiga sesmaria Sítio Grande, que pertenceu a Ana Joaquina da Silva Prado e depois aos seus descendentes Queiroz Telles e Pereira de Queiroz. Em documento datado de 1831, o Barão de Jundiaí (António de Queiroz Telles) dá quitação ao seu meio-irmão José Pereira de Queiroz pelo pagamento da venda de uma terça parte da antiga sesmaria Sítio Grande, que passou a ser a Fazenda Rio da Prata, depois pertencente a Manoel Elpídio Pereira de Queiroz (1826-1915). Os dois terços da sesmaria que ainda permaneceram com os Queiroz Telles passaram a ser a Fazenda Santo António. Não sei dizer onde ficou a Rocinha nessa divisão.

A Rocinha foi convertida em Município de Vinhedo pela Lei Estadual nº 233, de 24.12.1948. E Vinhedo levou de brinde o bairro Louveira, também desmembrado de Jundiaí na mesma ocasião. Esse nome, Louveira, parece datar da década de 1870, quando a Companhia Paulista mudou o nome da antiga Estação Capivary para Estação Louveira, para evitar confusão com outra Estação Capivari, da Ituana, situada no atual município de Capivari. Antes, Louveira era conhecida como Capivary, e no século XVII era conhecida como o “Sertão do Capivary”.

O histórico de Louveira disponível no portal da Prefeitura daquele município vizinho já passou por pelo menos dois aperfeiçoamentos, o que é muito louvável, e espero que passe por mais um, pois ainda registra alguns equívocos.

O primeiro desses equívocos é a afirmação de que Louveira teria sido fundada em 1639. Esse é um equívoco desculpável, porque reproduz o que consta da "Enciclopédia dos Municípios Brasileiros", editada pelo IBGE. Mesmo assim é um equívoco. Em 1639 ainda não existia sequer o arraial que deu origem a Jundiaí, quanto mais o arraial que deu origem a Louveira.

Contraditando aquela "Enciclopédia dos Municípios Brasileiros", elaborada pela tristemente famosa “comissão dos baianos”, existe uma escritura lavrada em Jundiaí, em 20.7.1698, que ainda se refere à região onde se situa Louveira como o “Sertão de Capivary” (Mário Mazzuia, “Jundiaí através de documentos”, página 59). Sertão, na linguagem da época, era uma região desabitada, ou habitada apenas por índios, ou ainda uma região em que europeus e descendentes de europeus constituíam apenas uma população rural esparsa. Esta última acepção é a que se aplicava ao “Sertão do Capivary” em 1698, o que sugere que arraial só se formou ali depois dessa data. Talvez muito depois.

Ressalve-se que 1639 poderia em tese haver sido o ano em que teve início o povoamento do “Sertão do Capivary”. Mas entre início do povoamento e “fundação” vai uma distância enorme. Aliás, essa é uma discussão que já houve em relação a Jundiaí, ou melhor, ao “Sertão do Jundiahy”, cujo povoamento parece haver tido início em 1615, data que Azevedo Marques aponta erradamente como sendo a da “fundação”, que na verdade só ocorreu em 14.12.1655.

Entretanto, se 1639 é uma data possível em tese, nesse caso os primeiros povoadores do “Sertão do Capivary” não teriam sido Gaspar de Lovera e sua mulher Páscoa da Costa, pois em 1639 eles ainda moravam em Santos, informação essa extraída por Regina Moraes Junqueira dos inventários de Inês Camacho e João da Costa (Lima), o Mirinhão, sogros de Gaspar de Lovera, como se pode conferir no link www.projetocompartilhar.org, item “inventários publicados”, volume 12.

Também os Oliveira e os Leme do Prado não poderiam estar no “Sertão do Capivary” em 1639. Os Oliveira, que se saiba, nunca estiveram por lá, a não ser talvez de passagem, eis que suas terras ficavam no sopé da Serra do Japi, como se vê por uma escritura lavrada em 15.5.1686 no Cartório do 1º Ofício de Jundiaí, livro 2, folha 75-A. Quanto aos Leme do Prado, o documento mencionado vagamente no portal da Prefeitura de Louveira permite situá-los naquelas paragens por volta de 1660 ou pouco antes disso, não em 1639.

Deixei o mais divertido para o final. O histórico de Louveira disponível no portal de sua Prefeitura afirma que há uma grande dúvida a respeito de se o sobrenome do velho Gaspar era mesmo Lovera ou se era Oliveira. Isso não é apenas um equívoco, é uma asneira de grosso calibre. Todos os documentos conhecidos mencionam o nome Lovera ou variações e corruptelas desse nome, e nenhum menciona o nome Oliveira. Assim, a tal “grande dúvida”, se é que existe mesmo na cabeça de alguém, é fruto de falta de pesquisa.

Vejamos.

O próprio Gaspar usou o nome Gaspar de Louvera ao requerer à Câmara de Jundiaí, em 27.1.1657, uma data de chãos (Mazzuia, ibidem, página 42).

O conceituado genealogista Luiz Gonzaga da Silva Leme, em sua “Genealogia Paulistana”, volume 1, página 79, dá ao velho Gaspar e seus descendentes o sobrenome Louvêra, com acento circunflexo, grafia essa presumivelmente extraída por ele do inventário de Gaspar de Lovera, processado em Jundiaí em 1660, que cita como fonte.

Escritura lavrada em Jundiaí, em 5.4.1726, menciona um neto do velho Gaspar com a grafia corrompida para Joseph Luvera da Costa (Mazzuia, ibidem, página 61).

Um filho do velho Gaspar usou a grafia João de Lobeira ao requerer à Câmara de Jundiaí uma data de chãos, em 27.1.1657 (Mazzuia, ibidem, página 45).
Esta última grafia é muito interessante, porque mostra que Lovera e Lobera são formas alternativas de escrever o mesmo nome. Lobera é o nome de diversas localidades na Espanha, bem como o nome de uma montanha, a Peña de Lobera, não muito distante de Logroño, onde teria nascido o velho Gaspar. Silva Leme coloca um ponto de interrogação após a palavra Logronha (sic), indicando assim dúvida quanto à transcrição do documento utilizado.

Por fim, nos retro citados inventários de Inês Camacho e de João da Costa (Lima), o nome do genro aparece com a grafia Gaspar de Lobria, obviamente uma corruptela de Lobeira, reforçando assim o que foi dito no parágrafo anterior.

Cadê a “grande dúvida”? Cadê o Oliveira? Ora essa.

NOTA DA REDAÇÃO: Luiz Haroldo Gomes de Soutello é advogado aposentado, escritor e pesquisador da história de Jundiaí, cabendo mencionar, a propósito desta crônica, que é descendente de Gaspar de Lovera.

Foto: somente no final da década de 1870 a Companhia Paulista alterou o nome da antiga Estação Capivary para Estação Louveira.
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