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É preciso ler com muita calma os documentos antigos

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5 de janeiro de 2022
Por Luiz Haroldo Gomes de Soutello

A história de Jundiaí no século XVII, ou seja, o povoamento do “Sertão do Jundiahy” e a formação do primitivo arraial, é um campo minado para os historiadores. Documentos daquela época são uma leitura difícil. Para começar, geralmente os garranchos só podem ser decifrados por um paleógrafo. E se o paleógrafo não conhecer o assunto de que trata o documento, está sujeito a cometer erros de transcrição.

Obtida a transcrição, com ou sem erros, é preciso decifrar o português arrevesado da época, no qual as palavras nem sempre têm o mesmo sentido em que as empregamos hoje. E é preciso conhecer o contexto para não extrair conclusões erradas. Vamos dar um exemplo. Durante muito tempo, o documento mais antigo disponível para os historiadores de Jundiaí era uma transcrição, feita em 1747, do primeiro livro de tombo da Matriz, no qual se encontra a seguinte passagem:

“A igreja desta freguesia é da invocação de Nossa Senhora do Desterro; teve seu princípio no ano de 1651 anos, como melhor consta de um letreiro que os antigos fundadores dela puseram em visíveis letras na lumieira de cima da porta principal da Matriz que ainda hoje se conserva nova, anos depois de descoberta esta povoação, foi alta a igreja por duas famílias poderosas e vindas que foram, Petronilha Rois Antunes, dona viúva com seus filhos e genros e Rafael de Oliveira com sua mulher e filhos e genros, que por criminosos e fugindo da Justiça vieram rompendo os sertões (...)”.

Azevedo Marques, que se baseou nesse documento para escrever os “Apontamentos”, inverteu os algarismos ao copiá-los e converteu a data em 1615. Por mero acaso, 1615 é uma data plausível para o início do povoamento do “Sertão do Jundiahy”, mas não para a formação do povoado e muito menos para a construção da igreja que substituiu uma capela muito mais antiga (de 1634, segundo Alceu de Toledo Pontes).

Com base na passagem do texto que fala em “por criminosos e fugindo da Justiça”, alguns pretensos historiadores, com muita imaginação, pouquíssima cultura e nenhum bom senso, criaram a lenda absurda de um romance adúltero entre Petronilha Antunes e Rafael de Oliveira (o velho), que teriam assassinado o marido de Petronilha. Isso é mais do que asneira, é disparate, é baba e baba de má qualidade.

Uma leitura contextualizada daquele trecho deixa claro que a predicação “criminosos fugindo da Justiça” não se aplica a Petronilha e Rafael, mas apenas aos genros de Rafael, que são os sujeitos da frase contíguos ao predicado. Quem eram esses genros? Um era Francisco Cabral de Távora, outro era João Leme do Prado, ambos envolvidos na luta armada ocorrida em São Paulo entre a facção política dos Camargo e a dos Pires. Todos os envolvidos nesses confrontos (e era muita gente) estavam incursos em crime de lesa-majestade, na modalidade “sedição”, e realmente estiveram foragidos da Justiça até obterem uma anistia concedida pelo governador-geral Conde de Atouguia.

Mas até um historiador sério e competente como José Pedro Leite Cordeiro não atentou para o contexto e sugeriu a hipótese de crime de bandeirismo. Embora as entradas pelo sertão fossem realmente proibidas durante algum tempo, não tenho notícia de que algum bandeirante haja sido jamais processado por crime de bandeirismo.

Mário Mazzuia, também um pesquisador sério, converteu-se em paleógrafo amador e transcreveu as primeiras atas e outros documentos do arquivo da Câmara, com pouquíssimos erros (por exemplo, o sobrenome Bocarro ele transcreveu Bocano). Mas, com base nessa pesquisa de valor inestimável, Mazzuia extraiu algumas conclusões completamente erradas, obviamente por má influência do amalucado Padre Stafuzza.

Recentemente, o nosso Museu Histórico e Cultural (Solar do Barão) obteve uma transcrição do termo de elevação da Freguesia de Nossa Senhora do Desterro do Jundiaí à categoria de vila (foto), documento que se encontra arquivado em Portugal, na Torre do Tombo. A transcrição foi feita por uma paleógrafa profissional, mas essa senhora portuguesa, não conhecendo as famílias de Jundiaí em 1656, cometeu alguns erros de transcrição. Por exemplo, transcreveu como Mello o sobrenome Málio (provavelmente grafado Malho pelo tabelião seiscentista). E é importante esclarecer que se trata do bandeirante João Paes Málio, genro de Petronilha Antunes.

O próprio tabelião que lavrou o documento cometeu alguns erros. O nome do governador da Capitania ele escreveu Miguel de Cabedo e Vasconcelos, em vez de Miguel de Quevedo e Vasconcelos. Com certeza ambos, governador e tabelião, falavam com um carregado sotaque português, pronunciando Q’bedo, que no papel virou Cabedo. Pois pois.

Luiz Haroldo Gomes de Soutello é advogado e escritor. Foto: Divulgação PMJ

 
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