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O Geraldo, o bairrismo e a distração

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21 de dezembro de 2021
Por Luiz Haroldo Gomes de Soutello

O centenário de nascimento de Geraldo de Camargo Vidigal foi lembrado por José Renato Nalini com um texto de curioso título: “O Geraldo da Mariazinha”. Antes de ler a matéria toda, pensei que esse título fosse uma concessão do amigo Nalini ao bairrismo municipal, porque de fato aqui em Jundiaí o grande Geraldo Vidigal era mais conhecido como o marido da Mariazinha Congílio do que por seus próprios méritos, que eram muitos como se pode ver por aquela matéria. Mariazinha Congílio era uma pessoa de grande prestígio em Jundiaí, Geraldo Vidigal era uma pessoa de grande prestígio no Brasil, especialmente no círculo restrito das altas finanças (era filho e sobrinho de banqueiros, advogado do Banco Mercantil de São Paulo, foi um dos responsáveis pela criação do Banco Central do Brasil, fundou e presidiu a SERASA e, como professor de direito econômico no Largo de São Francisco, publicou importantes estudos de direito bancário e de direito monetário).

Mas, ao ler a matéria de Nalini, constatei que o título não era uma concessão ao bairrismo municipal. O que disse o Nalini foi que Geraldo Vidigal era um homem extremamente sisudo até que (já viúvo e para lá da meia-idade, esclareço eu) casou com a Mariazinha e se converteu em uma pessoa muito jovial. Segundo Nalini, essa transformação foi notada até na Academia Paulista de Letras, onde o Geraldo ocupava uma cadeira.

Não sei se concordo com o Nalini. Não posso dizer que tenha conhecido bem o Geraldo, mas esbarrei com ele inúmeras vezes ao longo da vida. Quando eu nasci, meus pais moravam na Rua Oscar Freire, no quarteirão entre a Rua Augusta e a Rua Padre João Manoel, mas logo depois fomos morar na Rua Guadelupe, 558, bem em frente à casa do Alcides Vidigal, pai do Geraldo. Por isso, conheci o Geraldo, de vista, desde quando eu era apenas um sub fedelho e ele, vinte e três anos mais velho, já estivera na guerra como soldado da FEB. Mesmo depois que meus pais se mudaram para a Avenida Rebouças, continuei a cruzar com o Geraldo de vez em quando, porque meu tio Amadeu era muito amigo dos Vidigal, mais até do Gastão (tio do Geraldo) que do Alcides. Eu próprio convivi bastante com um irmão dele, Celso Vidigal, e com os primos Vidigal Xavier da Silveira: Arnaldo, Plínio, Caio, Fábio e Martim Afonso.

É com essas credenciais que me atrevo a sugerir que talvez o Geraldo não fosse realmente tão sisudo, talvez ele fosse apenas “desligado”. Tinha tantas ideias dentro da cabeça que não prestava atenção no que estava acontecendo fora dela. A distração do Geraldo era lendária entre os Vidigal e servia de excipiente a inúmeras anedotas, algumas possivelmente inventadas como pilhéria. Alguém me contou, não posso afirmar que seja verdade, que no escritório do Geraldo havia um office boy cuja função precípua era não deixar o patrão se esquecer dos compromissos. O rapazinho se desincumbia dessa missão pregando bilhetes em lugares como o espelho do banheiro, o para-brisa do automóvel e até no cabo do guarda-chuva, preso com elástico.

Por falar em guarda-chuva, os Vidigal Xavier da Silveira me contaram uma muito boa do Geraldo. Quando ele era bem jovem, estava certa manhã em um escritório ou consultório no centro de São Paulo. Ao sair, viu pela janela que estava chovendo e passou a mão distraidamente em um dos vários guarda-chuvas deixados ali na sala de espera. O dono do guarda-chuva, que estava por perto, protestou energicamente. Muito constrangido com aquele incidente, Geraldo foi almoçar na casa do pai, onde ainda morava, e, ao procurar seu próprio guarda-chuva, constatou que estava quebrado. Anunciou que ia levar para ser consertado e o velho Alcides, cujo guarda-chuva precisava igualmente de reparos, pediu que levasse o dele também. Depois do almoço, ao tomar o bonde para a cidade, com dois guarda-chuvas pendurados no braço, Geraldo deu de cara com o mesmo homem cujo guarda-chuva ele quase havia levado por distração naquela manhã. O sujeito olhou para ele com ar de cínica cumplicidade e disse: - Boa colheita hoje, hein moço?

Encerro esta crônica lembrando ao Geraldo que ele precisa comemorar, lá no Céu, o próprio centenário de nascimento, porque é provável que ele tenha se esquecido de fazer isso. Um grande e carinhoso abraço, Geraldo. Que Deus lhe dê uma estupenda festa de centenário.
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