A despedida de Orlando aos 108 anos
Por Edu Cerioni – Orlando Botelho nasceu em 16 de setembro de 1916 e faleceu nesta quinta-feira, 5 de junho de 2025. Nasceu em Monte Azul, cidade paulista, e escolheu Jundiaí como sua terra décadas atrás, indo morar no Jardim Pacaembu. Teve três filhos, oito netos, 17 bisnetos e quatro tataranetos. Era um dos 13 homens centenários que o último Censo apontou na cidade.
Ele adorava torresmo e uma boa cachaça, que ficou “muito marvada” com o tempo e foi trocada pelo vinho e, incrível, não tomava nenhum remédio regularmente. Outro prazer era ouvir música.
Católico fervoroso, sempre foi de rezar muito pela saúde de toda a família, assistia pela TV Aparecida a missa todos os dias pela manhã. Exceto nesta quinta. Ultimamente, bem cansado, já não pedia mais pela própria saúde. Foi embora do jeito que sonhou: deitou e se despediu da filha Maria Iolanda, dormiu e… adeus.
Seu Orlando já foi personagem do JundiAqui por conta do Dia da Cosnciência Negra de 2020 e foi destaque do TUTTO È FESTA de 2023.

Em 2020, me contou que sua primeira memória era de quando andava a cavalo. Garantiu que não pensava até quando iria viver e ensinou, sorrindo: “É um dia de cada vez, filho”.
Prazer nas pequenas coisas e certeza de que o negro nasceu para ser grande sempre nortearam o caminho de seu Orlando. Ele que criou a família na base da paz e do amor, claro que com muito suor, ensinou gerações a enfrentarem barreiras com o ombro erguido, o coração aberto e o pensamento positivo.
Morava com a filha Maria Iolanda e o genro Mário, além do neto Mil Taroba, cantor e professor de canto que já o homenageou em diferentes shows, normalmente na canção “Azul da Cor do Mar”.
Ainda enxergava com certa clareza e andava direitinho, sendo o melhor de tudo a cabeça boa.
Trabalhou na lavoura em Monte Azul Paulista até ir para São Paulo. Ficou pouco ali. De volta para sua terra natal, encontrou em Natália o grande amor. Se casaram e vieram para Jundiaí, que via como opção de trem nos tempos de vacas magras na Capital. Sabia que era um meio termo entre a cidade acanhada de nascimento e a metrópole que lhe assustou. Foi paixão à primeira vista e eterna.
Se instalou em uma fazenda no Jundiaí-Mirim, plantou, cuidou de granja e depois ajudou a construir literalmente essa cidade, pedreiro dos bons que foi.
Ele que veio ao mundo nos anos seguintes ao surto de gripe espanhola e que sobreviveu a chuvas e tempestades, com duas guerras mundiais, trocas de governos e moedas, crises e também folias, afinal ninguém é de ferro, nunca deixou de acreditar que “vai dar tudo certo, nem que seja na marra”. Essa era e é sua lição que o jundiaiense por adoção espera deixar como ensinamento aos mais novos.


One thought on “A despedida de Orlando aos 108 anos”
São histórias que não podem ser esquecidas.
Longevidade e muitas experiências.
Que o céu o receba.