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Definitivamente enredados?

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16 de outubro de 2019
Por José Renato Nalini

Sou usuário e praticamente dependente da internet. Não costumo anotar as horas que passo a me utilizar do computador, do celular, a visitar Face, Google, WhatsApp ou Instagram. Maravilho-me com o milagre da comunicação online que me permite acompanhar a viagem de pessoas queridas, do outro lado do planeta, e até conversar com elas. A capacidade produtiva avançou até o infinito. Escrever artigos, enviá-los a uma capilaridade inimaginável, tudo isso causa impacto em alguém que começou a escrever em cadernos de caligrafia, que já usou caneta tinteiro de molhar a pena, que aprendeu datilografia com as mãos escondidas sob um grande aparato de lata, para aprender a encontrar as teclas sem olhar o teclado. O mundo progrediu muito. Mas será que é só progresso?

Nada mais é suscetível de aceitação em termos absolutos. Tanto que há críticos acerbos das redes sociais e demonizam as gigantes Face, que controla o Instagram e o WhatsApp e Google, dona do Gmail e do YouTube, assim como as três outras grandes: Amazon, Apple e Microsoft.

Jaron Lanier, cientista com atuação no Vale do Silício desde os anos 1980, escreveu um livro cujo nome dispensaria explicação: “Dez Argumentos para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais”, publicado no Brasil pela Editora Intrínseca. A mera leitura do índice do livro, com esse decálogo que pretende derrubar nossa submissão às redes sociais, talvez seja inspiradora: 1. Você está perdendo seu livre-arbítrio; 2. Largar as redes sociais é a maneira mais certeira de resistir à insanidade dos nossos tempos; 3. As redes estão tornando você um babaca; 4. Elas minam a verdade; 5. Transformam o que você diz em algo sem sentido; 6. Destroem sua capacidade de empatia; 7. Deixam você infeliz; 8. Não querem que você tenha dignidade econômica; 9. Tornam a política impossível; 10. Odeiam sua alma.

Cada argumento mereceria reflexão e análise. O primeiro já é um desafio. Li os três best-sellers de Yuval Harari – "Sapiens", "Homo Deus" e "21 Lições para o século 21" – e o jovem professor israelense sustenta que já não temos livre-arbítrio. Tudo é uma questão de bioquímica a impactar os neurônios. A aceitar-se a tese, eu, particularmente, me auto-indagaria: como pude passar 43 anos a julgar, a acreditar que as pessoas tiveram condições de escolher e de selar o seu destino?

Mas a advertência de Jaron é interessante. O mundo que ficou menor com a possibilidade de diálogo online instantâneo independentemente da distância física, também tornou mais iradas e agressivas as pessoas. A construção de uma sociedade humana fraterna e solidária não foi o resultado atingido. Ao contrário, vê-se muita agressão, muito bullying, muita crueldade, falta de caridade, de decência e tudo poderia convergir para o melancólico reconhecimento de que a humanidade se tornou ainda mais desumana.

Cada qual terá condições de escolher o bem, ao invés de optar pelo lado do mal? Investir naquilo que dignifique o ser humano e banir aquilo que o desqualifique?

Minha experiência pessoal é a de que tenho conseguido revisitar momentos mágicos da inspiração humana, com as mensagens mais edificantes que poderiam ser produzidas. Músicas que nos marcaram, frases que nos fazem crescer, aqueles pontos altos que propiciam concluir: a vida valeu a pena.

Embora atento à advertência de Jaron Lanier e sem desconhecer os perigos das redes, que são controladoras de nossos instintos e cujos algoritmos definem e precificam nossas preferências, vou continuar a me servir delas. Não desconheço que o capitalismo de vigilância desconfigurou a hierarquia do poder no globo e que, muita vez, somos parte da manada que num inconsequente “estouro da boiada”, faz muito estrago no acervo civilizatório produzido ao largo da História. Mas procuremos nos servir daquilo que nos torna mais sensíveis e mais humanos e, se possível, nos livrar do contrário: o que nos converte em seres frios, impassíveis, incapazes de reagir diante da injustiça e da maldade.

Por enquanto, concluo que todos estamos, irremediável e definitivamente, enredados nessa teia da qual é impossível se livrar.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019/2020.
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