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Felicidade imprópria

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8 de julho de 2017
Por Valquíria Malagoli



Definitivamente não sou consumista. E, volta e meia, algum episódio desagradável mais me desencoraja a me identificar com a coisa.

Comprávamos lembrancinhas. Mal saímos da loja, minha filha me puxou a orelha:

– Mãe, como você é feliiiz!!!

Eu, infelizmente, entendera sua ironia. E, mais infelizmente ainda, ousei responder:

– Que bom, meu anjinho.

– Bom? Não sei se você percebeu, mas ninguém está nem aí pra isso!!!

E eu não estou aqui pra lhes contar a sequência do episódio, nem como à minha maneira, heroicamente, tentei manter o pulso da situação. Narro-lhes, isto sim, o resumo da ópera: meu crime foi sorrir.

Sorri ao pedir, ao escolher, ao pagar. Sorri ao me despedir. Minha pequena envergonhou-se, pois, segundo ela, a vendedora ficou impassível. “Ninguém está nem aí.”.

Meu riso, de repente, tornou-se-me estúpido, inadequado.

Fala-se muito nestes dias sobre gentileza. Sobre ser imperativo exercê-la.

Fala-se.

Muito se fala, inclusive, que a gente só se encontra no outro. Fala-se também.

O que vale, no fim das contas, é o cada um por si.

Quando sentimos bater no sangue do nosso sangue o eco deste presente bruto e, ele sim, imperativíssimo, que tristeza, amigos!

Tornou-se impróprio ser feliz.

Dói-me compreender que ela só quis me proteger, alertar-me acerca desse mundo insensível. Eu, porém, não queria ser dele protegida; quem dera contagiá-lo. Contagiá-la.

A gente sabe que educar é remar contra a maré, mas, caramba – como ela é brava! Às vezes a água quase entra e leva tudo.

Visitávamos Foz do Iguaçu. Outros momentos em família ribombaram mais que as Cataratas...

Minha sina é esta: escrever. Porque falar, falar eu falo demais. Encho a paciência. Quem tiver um tiquinho, que leia. E a maioria, fora, é claro, vocês, convictos companheiros, a gente sabe, não lê. Às favas a maioria também!

Ninguém está nem aí pro diálogo. Isso é coisa de antanho, mais até que a palavra “antanho”.

Vai ver eu sou de antigamente. Não é isso que dizem dos meus versos? Não é isso que vou sendo dia após dia diante do espelho? Não é isso que este meu sorriso idiota diz a quem pra esta cara de boba alegre olhe?

Valquíria Malagoli é escritora e poetisa 
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