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Foge às palavras

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28 de maio de 2018
Por Valquíria Malagoli

Palavras são contêineres. Acondicionam tentativas de, em si, transportar a quase tradução do intraduzível. E, embora libertas e acomodadas num papel, termo a termo, dispostas e expostas, vísceras à mostra... ainda assim, permanecem indecifráveis muitas vezes na essência!

Cabe à compreensão, cuja bússola é a sensibilidade, singrá-las. O que, no entanto, não será impedimento, comumente, de numa delas afogarmo-nos.

A linguagem poética – seja em verso, seja em prosa – nua em pelo ou metafórica, se sujeita mais do que ao conhecimento técnico ou predisposição do leitor, isto sim, à sua versatilidade sensacional. E isso é impossível medir...

Medidas são, aliás, causa de recorrentes entreveros no universo dos poetas. Defendem-nas estes, atacam-nas aqueles. Tudo em vão, pois, “todo verso é livre”!

Folgo em reafirmá-lo: “na catarse em que o verso é concebido,/ um punho humano e débil o conduz./ Mas, mesmo que isso não seja ainda lido,/ seu espírito já é todo luz./ Respirará o poema em fel ungido.../ batizem-no em dulcíssimo alcaçuz.../ de Deus ou do rival o tenham crido.../ esconda ou traga à mostra a sua cruz./ Pouco importa, portanto, se é medido;/ se é branco e puro ou tem rima e seduz;/ será único, livre e sem igual!/ Pois a liberdade é dom concedido/ aos de ouro recobertos como aos nus,/ no corte do cordão umbilical.”.

Continuarei, portanto, a buscar a palavra exata; busca vã? Só aos céticos.

Medidos nascerão versos, se de clássica inspiração eu engravidar.

Desmedidamente, porém, sempre haverei de continuar andando por aí, junto desses outros tantos incompreendidos, desses desbocados como eu que, querendo versar o sacro, vez por outra, cometem sacrilégios.

Tudo, amigos, porque palavras são contêineres apenas. O que vai dentro delas, sua talvez repugnante essência, sua impalatabilidade até, nelas não cabe, delas foge... é seu avesso, seu adverso enigmático, sua própria face, a minha, a nossa, a de quem lê.

VALQUÍRIA MALAGOLI é escritora e poetisa
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