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Juízes dos infernos

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24 de janeiro de 2020
Por José Renato Nalini

Sossegai! Não estou falando de minha opção profissional por mais de quarenta anos! Nem estou a detonar colegas. Só estou a considerar a dificuldade de um biógrafo, quando pretende reproduzir uma vida de alguém que já se foi. O biógrafo historiador é considerado um “juiz dos infernos”, porque pode fazer o que quiser com uma vida de quem o não  desmentirá. Porque está morto. Incapaz de reagir.

O biógrafo pode inventar, pode invectivar, pode usar de ressentimento, ou de idiossincrasia, traçar o perfil que queira. Nem todos são assim, ainda bem. Talvez a maioria dos biógrafos seja também um hagiógrafo. Especialista em escrever vidas de santos. Isso acontece quando se é contratado para retratar alguém. Quem paga tem o direito de esperar que a biografia seja favorável e não destrua a imagem do biografado.

As biografias constituem minha leitura favorita. Até as autobiografias, em que a própria pessoa se encarrega de escrever suas memórias. A série de livros de Pedro Nava é imbatível. Também me impressionou a história de Joaquim Nabuco, escrita por sua filha Carolina. E os relatos pessoais de Norberto Bobbio, de Umberto Ecco, os “Cadernos de Lanzarote” de Saramago e, especialmente, “Minha jornada solitária pelo século”, de Roger Garaudy.

Quem quer ler coisa boa não pode perder “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar, “Invenção e Memória”, de Lygia Fagundes Telles, as memorialísticas do insuperável Paulo Bomfim, as “Cool Memories” de Jean Baudrillard. Aliás, praticamente todos os bons escritores fazem um mix de ficção e de autobiografia em suas obras. Miguel Reale, Edgar Morin, Zygmunt Baumann, todos eles nos fornecem traços emblemáticos de suas instigantes personalidades.

Li com interesse a vida de Maurício de Sousa, assim como o livro de Rita Lee, os dois volumes do querido Jô Soares, o depoimento do Lobão, a biografia de Leonardo da Vinci, aquela de Roberto Civita, de Alencar Burti,  entre tantas outras que chego até a reler. De todos hauri lições para a minha própria modesta existência.

Pretendo ler “Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco”, de Luis Cláudio Vilafañe e “Karl Marx e o Nascimento da Sociedade Moderna”, de Michael Heinrich, objeto de uma resenha de Marcelo Godoy, que me motivou a fazer esta reflexão. O resenhista se convence de que Marx não será posto em pedestal, tampouco condenado. Heinrich não será um dos “juízes dos infernos”, pois Marx não é exatamente o responsável pelos crimes de Stalin, nem o profeta da emancipação humana.

Por sinal que nessa resenha encontro motivação para ler a vida de São Luís, do genial Jacques Le Goff e o ensaio “A Ilusão Biográfica”, de Pierre Bourdieu. Para ele, “tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a associação a um sujeito, cuja constância não é senão aquela de um nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto do metrô sem levar em conta a estrutura da rede”.

Em síntese, quem se propõe a biografar não é senão um daqueles cegos solicitados a descrever um elefante. A partir da aproximação de seu tato com uma das partes do animal, provirá um relato. Isso vale para a autobiografia. Quem é que consegue se autorretratar com fidelidade?

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Pronto Para Partir?” e Presidente da Academia Paulista de Letras.
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