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Não muda na pantomina

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29 de setembro de 2019
Por José Renato Nalini

Outro dia,  conversando com Paulo Bomfim, antes de sua morte, contei a ele que havia ido ao velório de Agatha Christie. Estava em Londres, em janeiro de 1976, em minha primeira viagem à Europa, com meu amigo-irmão Francisco Vicente Rossi. Sempre acordo cedo e, ao ler nos jornais que Agatha Christie havia morrido, animei-me a comparecer ao seu velório.

Confesso que não lera a grande autora de romances policiais. Nunca me apaixonei por esse tipo de leitura, embora ouvisse as melhores referências sobre o seu talento. Foi então que Fafá, a inefável Fátima Celina, fez questão de me emprestar o livro “O conflito”, que Agatha Christie escrevera sob o pseudônimo de Mary Westmacott.

Sim, além dos 66 romances de mistério, 163 contos, 19 peças, uma série de poemas e dois livros autobiográficos, ela escreveu 6 romances sob esse pseudônimo. Agatha Mary Clarissa Miller nasceu em 15.9.1890 em Torquay, Inglaterra. Ela era a caçula de três irmãos e estudou em casa. Perdeu o pai quando tinha doze anos. Casou-se em 24.12.1914 com Archibald Christie, tiveram filha única, Rosalind, em 1919. Em 1926, a mãe morreu e Archibald, de quem herdou o nome, abandonou-a por outra mulher. Em 1930, casou-se novamente, com Max Mallowan, um arqueólogo. Morreu em 12.1.1976.

O livro “O conflito”, escrito enquanto curtia a decepção do abandono marital, reflete bem o mundo da política. O candidato ideal, um dos principais personagens da história, é descrito como “um sujeito matreiro, manhoso, com as respostas na ponta da língua e que saiba arrancar risadas da plateia. E, é evidente, alguém capaz de prometer mundos e fundos”. Não poderia ser alguém escrupuloso, incapaz de dizer “que todos vão ter casa própria, nem que toda dona de casa vai ter aquecimento central e máquina de lavar”.

O “teste do palanque” necessita de alguém esperto, rápido como um relâmpago. Com boas tiradas de improviso. Que abuse um pouco de clichês. E que saiba conquistar as mulheres. Os conservadores admitiam que “os tempos mudaram. Costumávamos ter cavalheiros na política. Agora se pode conta-los nos dedos”.

Os antigos ingleses estranhavam a ideia de parlamentares assalariados. “Deveria ser uma questão de servir a seu país, e não de obter compensações financeiras”. Só que não é esse o objetivo do político em questão. Ele admite, sem cerimônias que “não tenho crenças. Comigo é só uma questão de oportunidade. Preciso de emprego…Sempre achei que podia ter sucesso na política. Vou provar isso para quem duvida de mim”.

Cara e coragem. Ou melhor, cara de pau e falta de escrúpulos.

Pois o remate de sua campanha, admitida só para confidentes, é de que “a última coisa que um candidato quer numa eleição é um monte de eleitores que realmente sabem usar a cabeça e o senso crítico”.

Melancolia à parte, Agatha Christie conhecia bem a alma humana. E, quase um século antes destes tempos que estamos vivendo, parecia profetizar o que seria a vida política brasileira em 2018.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, jornalista profissional, conferencista e Presidente da Academia Paulista de Letras 2019-2020
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