Jundiaqui
Jundiaqui

Pregando peças

Jundiaqui
10 de junho de 2017
Por Valquíria Malagoli

Minha mãe sempre fez as mínimas coisas com uma destreza incrível!
Pelo menos aos meus olhos infantis era impressionante, por exemplo, como ela quase às cegas carregava a agulha, calculando de maneira a trazê-la do avesso do tecido para cima traspassando cada minúsculo buraco dos botões.

Como aquilo era possível? Eu não queria outra coisa da vida! Só queria imitá-la.

Ah... a poesia eu descobri nesse ínterim, porém, nem a lapidação de estrofes ou demais rococós me fez deixar de lado aquele objetivo.

Tampouco de desejar aquela singelíssima e invisível mestria.

Invisível sim. A gente só sabe ou se interessa por saber das vestes, em geral, o bastante para requerer delas se, ao cobrirem ou descobrirem nossos corpos, nos tornarão mais... ou menos belos.

Rarissimamente alguém vai se perguntar quanto tempo levou a costureira em seu labor, se ela suava debaixo de um sol de lascar, ou se um gato encafofado aos seus pés a aquecia enquanto ela escolhia a cor mais próxima da linha, dava o ponto final bem firme, cortava o fio excedente...

Falando em fios, voltemos ao desta meada: como, afinal, minha mãe acertava o local exato? Como simplesmente ia de lá pra cá pelo ínfimo buraco ao lado de outros buracos daquela pecinha dada a abrir e fechar bolsos, cinturas e afins? Como?

Ela não teve aulas de costura. Não teve aulas de nada. Minha mãe é raçuda! Um mulherão.

Hoje, quando de manhã recordei esses episódios de minha infância, me entristeci.

Sim, porque embora feliz por perceber que herdei alguma habilidade sua por mim observada com tamanho encantamento àquela época, dei-me conta de que talvez minha filha jamais sequer tenha me visto costurar. Nem meu filho. Pior – que graça isso tem?

Foram e são tantos os compromissos infantis, adolescentes, juvenis... tanta coisa mais interessante e mais surpreendente a fazer...

Mas, de repente, dei-me conta de outro fato. Salve! Tanta coisa e mais coisa existe pra ser contada e recontada!

Dei-me conta, pois, como eu lhes contava nas linhas acima, de que não obstante eu tenha me tornado com o passar dos anos essa mulherzinha simples que pouco sabe (e entre as poucas coisas sei pregar botões e zíperes), enfim, não obstante isso... meus dois filhos decidiram-se por profissões ligadas uma às letras e outro às artes.

Então, me envaideço porque, de alguma maneira, servi de inspiração. Senão eu mesma... a minha inspiração serviu.

Portanto, enquanto eu talvez às vezes me julgue menor que o menor desses botões a me pregarem peça enquanto eu os prego no tecido... meus outrora pequenos, hoje grandes filhos e grandes pessoas, enxergam algum discreto valor nessas tais coisas supostamente invisíveis. Algo digno, portanto, de não demérito.

Por isso, se antes eu queria ser que nem minha mãe, e se isso me deu motivo pra crescer... agora quero crescer mais um tantinho. E, quando crescer, quero ser que nem meus filhos!!!

Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br

Jundiaqui
Você vai
gostar de

170 bares fechados pela GM, a maioria a partir de denúncia da população

Muitos comerciantes alegaram desconhecer a ordem para fechar

Quando um prendedor de roupas vira equilibrista

“Circo de Coisas”, da Cia. Circo de Bonecos, traz peça gratuita ao Complexo Fepasa

Carnaval do Tênis Clube é diversão para a meninada

O sábado foi de dupla folia, com festa Kids e depois Teen. Veja as fotos…

Estar com quem se ama

Por Kelly Galbieri
Jundiaqui
Artigos assinados não representam a opinião do site. Esse conteúdo é de responsabilidade exclusiva de seu autor.