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À procura da glória perdida

Jundiaqui
29 de janeiro de 2020
Por José Renato Nalini

Muito mais injusta do que certa a justiça humana. Não falo do equipamento encarregado de solucionar conflitos, que parece preferir institucionalizá-los do que resolvê-los, tal a sofisticação, formalismo e burocracia de que o sistema o dotou. No Judiciário, a maior parte dos integrantes crê fazer justiça e pretende fazê-lo.

Contemplo mais os outros ambientes em que se julga. Sempre sustentei que todos julgam, o tempo todo. Só que o juiz – orgulho-me de sê-lo – é obrigado a assinar embaixo. Os outros julgamentos são muita vez levianos, superficiais, fruto de visões distorcidas, quando não de ignorância, ressentimento ou até má-fé.

Um universo em que se comete muita injustiça é o da literatura. Seria tão bom que as pessoas entendessem existir espaço para todos. Somos múltiplos. Temos gostos diferentes. Mas os que têm a missão de analisar obra alheia se utilizam de suas próprias réguas. Sem comiseração ou condescendência.

A constatação de que hoje todos escrevem e ninguém lê é uma quase-verdade. Há quem leia. Conheço muitas pessoas que devoram livros. Isso é bom. Mas ainda faltam leitores. Ler, ler sempre, ler cada vez mais. Para mim, é um prazer indizível. Para as crianças e jovens, uma urgência. Ler qualquer coisa. Ainda que a leitura não pareça atraente. Exercício de memorização vocabular. Encontrar verbetes desconhecidos. Ir ao dicionário para verificar qual o seu sentido.

Encantar-se com o fato de alguém reproduzir uma sensação que você já sentiu. Ou a exclamação que é o maior prêmio para o escritor: “Gostaria de ter escrito isto!”.

A patrulha crítica é quase sempre cruel. Rotula obras. Por exemplo: autoajuda. Um livro tem de ser sempre de autoajuda. Se não me ajuda em nada, não valeu a pena ter escrito.

Os “donos da verdade” erraram muitas vezes. Um caso emblemático é o do hoje venerado Marcel Proust. Sérgio Milliet, um intelectual brasileiro que tanta falta faz ao nosso cenário, reconheceu que “ninguém foi mais atacado, ridicularizado, insultado, incompreendido” do que Proust.

Ele teve de publicar sua volumosa obra. Foi rejeitado por quatro editoras, inclusive por André Gide. Um amigo de Proust, Louis de Robert, recebeu uma carta de uma das editoras que recusaram a publicação: “Custa a crer que se gastem trinta páginas só para descrever alguém a remexer-se na cama, sem poder conciliar o sono”.

Assim que publicado pela primeira vez, o volume “Du Coté de Chez Swann”, aqui traduzido por “No caminho de Swann”, foi espinafrado por André Germain, que o chamou de “livro sanduíche”: 30 páginas imorais entre duas fatias modorrentas de vulgaridade.

O escritor português João Gaspar Simões, primeiro editor de Fernando Pessoa, recordou-se de que um dos principais jornais lusos, ao ser informado da morte de Proust em 1922 – ano da nossa Semana de Arte Moderna – noticiou, por engano, o falecimento de Marcel Prévost. Ao corrigir, a redação acrescentou: “e ainda bem” não fora o grande Prévost, mas um obscuro escritor de nome Marcel Proust. Por sinal, Prévost viveu até 1941.

Hoje Proust é uma glória. E seus detratores? Onde foram parar eles?

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Ética Geral e Profissional” e Presidente da Academia Paulista de Letras.
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