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Suicídio é loucura?

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10 de outubro de 2020
Por José Renato Nalini

Tem-se afirmado que a pandemia mexe com as almas. O pânico deixa as pessoas amarguradas. Quem não tem boa reserva de paciência e de equilíbrio, pode chegar a perpetrar suicídio.

O suicídio é mistério. Há quem sustente que só o pratica aquele que ficou privado da razão. Teve um surto e, nesse repente, atenta contra a própria vida. Mas seria isso loucura? Chesterton disse que “a maneira como se encara vulgarmente a loucura é errônea: o louco não é o homem que perdeu a razão, mas o homem que perdeu tudo, menos a razão!”.

Fernando Pessoa, esse português que idolatramos, chegou a escrever: “Só a loucura é que é grande. E só ela que é feliz”.

O suicídio pode ser uma ideia a frequentar mentes lúcidas e brilhantes. Por exemplo: o grande pensador brasileiro Alceu de Amoroso Lima, que escrevia sob o pseudônimo Tristão de Atayde, ficou tentado a praticá-lo. Quem o diz é Evaristo de Moraes Filho, confrade seu na Academia Brasileira de Letras.

No ensaio “A loucura e o suicídio na temática de Alceu”, ele observa que, a despeito da jovialidade, higidez mental, entusiasmo e idealismo, “em certos momentos, principalmente durante o longo processo de sua conversão, temeu a loucura, desejou a morte e esteve à beira do suicídio. Depois de árduo e demorado sofrimento, a fé o salvou, voltou a encontrar Deus e a alegria de viver”.

Ele tivera um precedente em família. Sua irmã mais velha, Abigail, teve de ser internada num sanatório em Pau, no sul da França, nos Pirineus. Ali permaneceu de 1912 a 1943, ano em que faleceu. Era uma linda menina, para quem Machado de Assis chegou a fazer versos, pois se encantava com seus cachos, quando passava pela casa dos pais de Alceu e a via junto às grades do jardim.

Foi o primeiro embate do grande brasileiro com a loucura, a “luta impotente da ciência contra as sombras do crepúsculo interior”.

Era rico, era querido, formara-se com brilhantismo. Entretanto, aos vinte anos, sentia-se inútil e vazio. Não fora o seu encontro com Deus e teria privado o Brasil de uma de suas maiores fulgurâncias.

Não foi uma conversão sentimental. Foi uma renhida luta com a razão. Demandou muita angústia e sofrimento. Em 9.8.1927, ele escreve: “Sinto-me num beco sem saída. Sinto-me ferido de morte. Sinto-me velho. Sinto-me sem força. Sinto-me esgotado!”.

Quando, por fim, a sua mente aderiu ao chamado de Cristo, confessou: “Se não fora a fé em Deus, ou o que quer que seja de covardia e de baixa conformidade, talvez o suicídio me fosse também a única porta aberta”.

Interessante observar que, sendo brilhante, considerava-se medíocre. Questionava sua condição aristocrática e burguesa, diante de tanta miséria no Brasil. Em correspondência com Jackson de Figueiredo, teve a coragem de dizer: “o homem é uma experiência que Deus abandonou”. Jackson, que atuava para trazê-lo ao abrigo da Igreja, ficou alarmado. Alceu não estava bem. Mais adiante, afirmou “Eu duvido que haja quem se despreze tanto a si mesmo como eu”.

Criado num ambiente diferenciado, de pessoas também abonadas, não se sentia à vontade nesse ambiente: “Sou um solitário, um inadaptável. Um desgraçado esquizoide. Só me sinto bem com gente simples, sem preocupações transcendentes. E, sobretudo, com gente boa”.

Uma crença racional, equilibrada, sem fanatismos e sem intolerância que tipifica tantos beatos – na verdade, os “sepulcros caiados” do Evangelho – tornou Alceu de Amoroso Lima um farol a iluminar a sua geração e as posteriores.

Já maduro, volta a encarar a loucura e o suicídio, mas agora de forma serena e prudente: “Só o homem tem realmente o horror à morte. Ou o medo da morte. Exatamente por ser, por natureza, votado à imortalidade. Nascemos para viver e sobreviver. Não para morrer. A procura voluntária da morte é um ato negativo. Fruto de uma frustração com a vida. E, por isso mesmo, inumano. Mas digno de nossa maior piedade. Só os jovens e os desesperados se suicidam. Tanto uns como outros pelo amor intenso pela vida. Os jovens, porque no fundo não creem que a morte seja um fim. Os desesperados, porque não encontraram na vida tudo quanto esperavam. Uns e outros se iludem, mas não dignos de toda a nossa compaixão. E do nosso maior respeito. Forçam prematuramente as portas da eternidade, como forçaram cedo demais as portas do tempo”.

Alceu conseguia influenciar pessoas com tendências suicidas, pois passara pela tentação que, muita vez, pode rondar cabeças atormentadas. Por isso podia dizer, com naturalidade: “Sempre tive o maior respeito por quem considera a morte como o fim da vida. Principalmente pelos suicidas, inclusive porque, por muito tempo, também assim pensei. Mas hoje creio, cada vez mais firmemente, que, ao contrário, a morte é justamente um desdobramento da vida”.

Nestes dias angustiantes de confinamento, quantos os que se martirizam acreditando que nunca mais recuperarão suas economias, não concretizarão os projetos, ou qualquer outra decepção. É o momento de ajuda-los com o abraço, com a palavra amiga, com o olhar compassivo. Pode ser a chave mágica, impediente de uma partida extemporânea.

José Renato Nalini é reitor da UniRegistral
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