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Uma cabeça em ordem

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2 de outubro de 2020
Por José Renato Nalini

Michel de Montaigne, em seus “Ensaios”, proclamava que, melhor do que possuir uma cabeça cheia, é melhor ter uma cabeça em ordem.

O que ele queria dizer com isso? A educação passou a se preocupar com a lotação da cabecinha das crianças, cuja idealização seria preenche-las de dados e informações. Numa sociedade competitiva e cruel, o importante é acelerar a corrida rumo ao sucesso. Fracasso é inadmissível. Cobrança e pressão sobre os educandos. Será que isso é o melhor para as novas gerações?

O tema é antigo. Muitos pensadores já se preocuparam com isso. Max Weber falava em “gaiola de ferro”, cujas hastes mantinham representam o materialismo regido pelo consumo e pela produção.

O que significa uma “cabeça bem arrumada”? Começaria com uma ferramenta muito antiga quanto em desuso: o exame de consciência.

Ele serve para o enquadramento pessoal da alma, a compreensão dos elementos que nos motivam, o que realmente valorizamos na vida e o que gostamos de fazer.

Esse exercício pode ser feito sem auxílio, mas às vezes é conveniente recorrer-se à psicanálise. Ou submeter-se a testes de personalidade. Quem se dispuser a, sozinho, procurar o caminho, deve iniciar por um cuidadoso questionamento do círculo íntimo das próprias cogitações.

Esse é o processo tão polêmico da “auto-ajuda”. Na verdade, não se compreende que alguém deixe de pretender tornar-se mais equilibrado, mais satisfeito com a vida, alguém que aceite a realidade e não deixe que a fantasia ou a depressão reduzam sua lucidez.

Quem quer se ajudar e encontrar viabilidade para continuar a viver, a despeito das dificuldades que são próprias a qualquer trajetória humana sobre o planeta, deve aprender a relaxar, a espairecer, a fazer mais coisas inúteis, no sentido prático ou financeiro da perspectiva. Evitar o supérfluo, viver com a imperfeição, aceitar-se.

As coisas mais importantes da vida são nossas crenças e valores. Se forem reais, são refratárias às modas passageiras. O essencial é separarmos o bom, o saudável, o relevante, dos tumultos e histerias transitórias.

O êxito deve ser repensado. Não é, necessariamente, a conquista do espaço considerado o clímax de uma existência. Ele admite vários focos de apreciação: o familiar, o intelectual, o espiritual, o recreativo, o financeiro.

O relacionamento afetivo é parte integrante da obtenção de um status equilibrado. Administrar adequadamente esse fator não é fácil. É muito comum que se queira transformar um outro ser no personagem que minha imaginação criou. E a decepção não tardará.

Conviver não é fácil, mas é uma proposta instigante. Quais as qualidades que vislumbrei no ser amado? O que mais aprecio em sua pessoa? Como é que tais atributos me modificaram?

Na esfera espiritual, preciso me questionar em que acredito, se minha vida é um reflexo disso. No intelectual, se me divirto com leitura, cinema, poesia, música ou qualquer outra sedução. Se convivo saudavelmente com a natureza, a partir do trato que confiro ao meu corpo.

Enfim conceber a vida como uma viagem. O importante é viajar, não chegar. Será que estou em direção ao meu destino? Não cheguei ainda? O importante é continuar.

Lembrar-se de que a situação material não me garante a felicidade possível nesta peregrinação transitória, uma vida frágil e efêmera, cujo resultado todos sabemos qual é. Enfim, não estou protegido do vento da sorte – ou da má sorte – pelo biombo delicado da riqueza.

Isso é tentar obter uma cabeça bem feita ou em ordem. Bom exercício.

José Renato Nalini é presidente da Academia Paulista de Letras
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