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Vou me embora para Pasárgada. Ou para BlueMoon

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29 de março de 2020
Por Cláudia Bergamasco

Vou me embora para Pasárgada. Pode ser outro lugar também: Patópolis, Macondo... desde que seja um lugar bom, inventado ou não, fantasioso ou não. Precisamos disso agora, uma cidade, um país melhor. Vou dar o nome de BlueMoon para não copiar (que vexame) o nome do lugar inventado pelo nosso fabuloso poeta Manoel Bandeira. Em Pasárgada, Bandeira iria dormir com a mulher escolhida, amada, na cama do rei.

Meu desejo não é exatamente dormir na cama do rei, mas com meu amado, que deve, sim, estar em algum lugar. BlueMoon é especial porque não há notícia ruim, desgraças, acidentes, doenças (qualquer uma), politicagem das mais cabeludas, nem injustiças e deslealdade. Ninguém come lixo, não existe pedofilia nem homofobia de qualquer tipo, muito menos ditadores, sexistas, preconceituosos e racistas. Lá ninguém precisa ser o estereótipo do homem/mulher perfeitos, com corpos atléticos e sempre jovens. Você só precisa ser você mesmo, gente comum, com seus cabelos brancos, rugas e as suas imperfeições perfeitas.

Em BlueMoon eu posso escapar das loucuras do trânsito, das atitudes infelizes e grotescas, das rejeições, da falta de providências das autoridades, da euforia apoteótica de um lado, das explicações cabotinas e da realidade insuportável do hoje.

Eu quero ir embora porque não suporto mais falta de coragem, caras amarradas, mentiras, decepções, ressentimentos, falta de privacidade. A repetição obsessiva de fatos no noticiário da noite que provocam insônia e náuseas no café da manhã. Quero ficar descalça, botar os pés na água, ir sem endereço certo, sem telefone de qualquer tipo, sem computador, e-mail e aqueles grupos chatos de WhatsApp em que pessoas se passam por boazinhas mas te destroem pela costas. Pessoas hipócritas e/ou que ignoram suas postagens e sua existência, mas no fundo, morrem de inveja de você, de tudo e de todos. São víboras prontas a atacar em pele de cordeiro.

Quero liberdade total. Levaria comigo apenas livros, músicas, a parte boa da família, meu gato e o homem amado com sua sinceridade e honestidade natas (onde você está?).

Lá, a obrigação natural é a de ser e estar feliz de forma holística. Um lugar para descompressão. Não estou me eximindo dos perigos atuais, muito menos “desligar” das informações. Estou propondo um lugar de descompressão, de gargalhadas, de liberdade, paz, sossego, um lugar em que possamos sair da realidade e viver, por uns instantes que seja, dias muito bons.

Em minha nova terra mágica há coragem. Ninguém viveria angustiado, o tédio não teria vez. Pessoas com mais de 50 anos, como eu, teriam novas chances de se apaixonar. E porque não as com mais de sessenta ou setenta?

Em BlueMoon a gente tem poderes: viajar com o pensamento para onde quiser – hoje, de avião está inviável, riscos imensos. Com o pensamento, podemos ir para onde quisermos e extrapolar a realidade com histórias contadas em livros, filmes, músicas, obras de arte, todas as Artes.

Também posso curtir a natureza e saborear a arte, atender aos necessitados, preparar crianças e jovens para a vida, cultivar gentilezas e carinho, olhar para dentro de mim mesma e escutar os meus desejos e sonhos (e não os alheios ou os que me são impostos) e, principalmente, respeitar meus limites. Tudo isso é um ótimo começo em BlueMoon.

Também levaria parte das minhas crenças. Parte porque é preciso largar coisas pelo caminho para fazer uma estrada melhor pavimentada. Mas, não abro mão da crença de que ainda posso ser imensamente feliz, olhos brilhantes, coração quente, em harmonia comigo mesma, com os outros, com o mundo. Vou me vingar da chatice, da violência, das traições, da falta de coragem, da covardia, da burocracia e da corrupção que são como cracas na pele de um país chamado Brasil. Como? Sendo feliz. Simplesmente e complicadamente sendo feliz.

E quando tudo me aborrecer (duvido), quando eu ficar cansada das minhas neuras e manias (não são poucas), quando a paisagem perder a graça (difícil), vou espiar meu coração e ver o que ele diz. Se realmente quero voltar à realidade ou permanecer em Pasárgada/BlueMoon.

Na verdade, o que vai de fato acontecer é que eu posso ir e sair de BlueMoon quando e como eu quiser. Porque é um espaço-fantasia-idílico, sempre desejado. Serei como Squalidus, um personagem de gibi da Disney que eu amava quando criança. Ele era estranho, usava uma capa e, de dentro dela, tirava tudo. Tudo mesmo. Se precisasse de um edifício, era só enfiar a mão em um dos bolsos do casaco e lá estava o edifício. Ou uma casa, um carro, uma flor, um sanduíche, um trem.

O personagem “não vingou”, sabe-se lá porquê motivo. Mas ele está no meu inconsciente até hoje. Um anti-herói por quem me apaixonei quando menina. Já não tenho 10 anos, é claro. Mas os sentimentos de grandeza, de poder, encorajamento, coragem, de fazer a diferença, de que nada pode me assustar ou fazer mal, permaneceram. Ou foi conquistado ao longo desses meus 56 anos.

Só espero que meu futuro companheiro embarque nesta viagem comigo. Talvez ele não tenha se apaixonado pelo personagem de gibi, sequer o tenha conhecido. Não importa. Se ele seguir para BlueMoon comigo e comigo quiser por lá ficar já está de muito bom tamanho. Porque a fantasia está na cabeça de cada um de nós e ela nos dá o tempero necessário e nos espera por toda uma vida.

Cláudia Bergamasco é escritora
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