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Cláudia Bergamasco traz a sustentabilidade sem mimimi

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10 de outubro de 2017
Mostra+Sustentável prova que é possível aliar beleza, conforto e muita criatividade com sucatas e rejeitos da indústria

Cláudia Bergamasco

Não é de hoje que padrões de sustentabilidade estão em nossas casas e imóveis em geral, ainda que num porcentual muito abaixo do razoável. Em reformas, porém, a reutilização de materiais é ainda menor. Geralmente, as pessoas preferem jogar fora a dar um novo uso. Nos tempos em que vivemos, em que o mundo grita para o Homem parar de machucar o Planeta e devolve o descaso com tormentas, tornados, tsunamis, temperaturas extremas tanto de frio quanto de calor entre outras tragédias, é urgente mudarmos nossas atitudes e pensamentos. “A educação é o principal vetor de transformação e toda mudança se inicia em nós mesmos”, afirma Fernando Caparica, idealizador da Mostra+Sustentável, a primeira deste tipo no Brasil.

Montada no Lar dos Velhinhos de Campinas, a mostra traduz excepcionalmente bem o que quero dizer. Precisamos entender que um piso de madeira gasto não necessariamente precisa ser trocado nem ir para o lixo. Pode ser restaurado, ganhar um tratamento com cera, verniz ou resina, por exemplo, e ter sua vida útil bastante prolongada. Se não for possível aproveitar, dê a ele um novo uso. Na mostra, bancos de jardim tiveram acento e espaldar revestidos com tacos de madeira, os mesmos que revestiam parte do piso dos nove pavilhões do Lar dos Velhinhos, um imóvel construído na Vila Proost de Souza, em Campinas, que data de 1904 e tem um total de 72 mil metros quadrados de área. A forma de colocar as peças depende da criatividade de cada um: alinhado, desalinhado, na horizontal, na vertical, na chamada espinha de peixe ou tudo isso misturado, conforme as condições da madeira. O resultado é inusitado.

Nos 32 ambientes que passaram por intervenções, todos têm algo de surpreendente. Provam que beleza, aconchego, modernidade, bem-estar não precisam necessariamente de objetos, materiais e construções novos e caros. Aliás, baixo custo, ser economicamente viável, é um dos preceitos da sustentabilidade. A arquiteta Júlia Rodrigues Rivera, por exemplo, usou rodinhas de caminhão e argolas de várias circunferências para criar um portal na Sala de Imprensa do Vovô. O que era sucata, virou escultura. Saiu do lixo para o luxo do que se pode classificar como um novo olhar do muxarabiê, com DNA brasileiro. Para não ficar dúvidas, muxarabiê é uma treliça tradicionalmente feita em madeira para assegurar ventilação e poder olhar para o exterior sem ser observado. Tem influência árabe na arquitetura ibérica, mas foi trazida pelos portugueses e marca algumas casas coloniais brasileiras – como a do Lar dos Velhinhos.

O norte do projeto de Júlia foi o hobby do antigo usuário, a marcenaria. O “vovô” era apaixonado por carrinhos. Ela viu nas rodas de ferro desses carrinhos o que pouca gente veria – o tal portal.


Já o designer de interiores Fábio Tarossi e os arquitetos Raphael Calais e Eduardo Mestriner usaram vergalhões para revestir paredes e a estrutura de estantes. Tarossi desenhou quadrados sobrepostos que, em conjunto com uma luminotécnica adequada, dão o efeito de uma escultura em 3D. Calais e Mestriner se serviram de vergalhões para fazer a base de uma estante vazada. Os apoios para os nichos são em madeira USB, material que tenho visto em muitos projetos de design de interiores de uns tempos para cá. As luminárias foram feitas pelos próprios profissionais usando apenas papel machê.

O uso do vergalhão – enferrujado mesmo ou tratado com anticorrosivo e verniz fosco – também não é exatamente uma novidade, mas digo que é uma tendência. Já vi uma belíssima adega feita inteiramente com vergalhões enferrujados. A novidade do uso desse material de construção está em esculturas.

O artista plástico campineiro João Caçador fez uma cabeça de girafa gigante só usando vergalhões. E não é que o bicho ficou com aquele olhar de girafa mesmo? Parece viva. Ficou lindo. Arquiteto de formação, João usa praticamente apenas sucata em suas obras, que une o conhecimento de anatomia que ele adquiriu no curso de prótese dentária. A girafa está no Quarto de Hóspedes. Um detalhe: a cabeceira da cama desse ambiente foi feita com um portão bem antigo. Restaurado e com nova pintura, parece coisa cara. Só que não – era lixo.
O respeito pela história do imóvel, que conta 113 anos, não foi (nunca deve ser) esquecido. Em vários ambientes, parte das paredes ganhou massa corrida e parte revela o que tinha lá antes. Por exemplo, as marcas deixadas pela retirada de azulejos e tijolos originais deixados à mostra numa faixa do teto. As tesouras de madeira tiveram que ser trocadas e o telhado, antes com telhas sem proteção, foi fechado com grandes placas de USB tratadas e envernizadas. Foi isso que fizeram os arquitetos Desirèe Garcia Campos e Erlon Tessari no Coworking dos velhinhos, um local onde eles podem acessar a internet, ler, sentar em um grande sofá em L cheio de charme, beleza e muito conforto.


Durante a obra, muitas das paredes descascadas revelaram um tesouro: tijolos originais, datados de 1904. Foram preservados até mesmo com as imperfeições, mesclando paredes parte com massa corrida pintada e parte com os tijolos, como já ressaltei. Esse detalhe também pode ser visto na Sala de Jantar idealizada pela arquiteta Álida Weidman e a designer de interiores Erica Gonçalves. Alí, é possível ver que materiais considerados pouco nobres, como a madeira pinus, uma das mais fáceis de replantar e de crescimento mais rápido que as demais, podem ser usados de maneira sedutora. Quatro mesas de jantar foram unidas com tampos de pinus reflorestado que passaram por um tratamento que “retirou” parte dos nós e deixou apenas os veios. É uma técnica que valoriza mais a textura da madeira. O aconchego que remete à família reunida está gravado nessas mesas. Frases como amor, paz, união pincelam suas beiradas. As luminárias foram feitas com aquários redondos para peixes. O resultado é sensacional.


Mas glamour mesmo está no Estar com Jogos, ambiente assinado pelo arquiteto e designer de interiores Maxwell Geraldi. Ele usou madeira recortada com laser para forrar paredes, de tal forma que parecem uma renda. Com uma luminotécnica impecável, o resultado é espetacular. Característica do profissional, o glamour está em todo o ambiente, desde o living com sofás que convidam ao convívio e a longas conversas e leitura, até as mesas de jogos, que foram abraçadas por uma estrutura de madeira com plantas e objetos pessoais do arquiteto.


O que você pode fazer com sucatas, restos de construção e o rejeito de fabricantes de tecidos, madeira, mármore, ferro e mais um zilhão de coisas? Muito, acredite. Sugiro que você veja a mostra e comprove o que estou dizendo no trabalho feito por 60 arquitetos e designer de interiores. Sustentabilidade não é só os oito “R” do conceito (reduzir, repensar, reutilizar, reciclar, recusar, respeitar, responsabilizar-se e repassar). É, como disse o idealizador da mostra, Fernando Caparica, educação. E isso se conquista fazendo e não acreditando que só o outro deve fazer e está tudo ok.

Com a permissão dos leitores, quero deixar registrado uma frase que costumo dizer: arquitetos, designers e designers de interiores (como eu) são como arroz e feijão na mesa do brasileiro; não podem faltar. Tem gente que não vive sem arroz e feijão um só dia. Com esses profissionais deveria ser a mesma coisa. Não teríamos soluções e ideias incríveis sem eles.

PS: Os 150 idosos que vivem no Lar ficarão com quase tudo o que foi feito lá, já que o imóvel está em processo de tombamento. Apenas parte dos móveis vai ser retirado. Quisera eu ser uma velhinha morando naquele lugar paradisíaco. Tsc, tsc... E porque ninguém, de qualquer idade, merece viver num lugar feio, mal ajambrado.

SERVIÇO

Mostra+Sustentável – até 12 de outubro de 2017, das 14h às 20h. Ingressos de R$ 16 a R$ 70. O Lar dos Velhinhos de Campinas fica na Rua Irmã Maria Santa Paula Terrier, 300, Vila Proost de Souza.

Claudia Bergamasco é jornalista

 

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