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A destruição da memória de Jundiahy

Jundiaqui
9 de julho de 2018
Por José Arnaldo de Oliveira

Um incêndio na antiga estação central da Companhia Paulista, erguida entre 1890 a 1900, atingiu mais um pedaço da memória histórica de Jundiahy.

O fato é ainda mais grave por ser ao lado do pedaço destruído do Viaduto São João Batista, de 1950, atingido por um veículo há poucas semanas (23/5). E muito perto também de algumas casas incendiadas da Vila Argos Velha, uma vila operária de meados do século XX (23/6).

O que mostram essas três coisas tão dolorosas para os verdadeiros jundiaienses ou aos simpatizantes da noção de que as cidades têm alma?
Em primeiro lugar, que embora seja mais antiga do que cidades reconhecidamente históricas como Ouro Preto (MG) a cidade de Jundiahy ainda não teve uma política clara de valorização e conservação, embora tenha dado alguns passos positivos nessa direção.

Em seguida, que em nosso país os bens públicos são tratados como privados nas esferas municipal, estadual ou federal. Pois embora fosse historicamente parte do estadual Complexo Fepasa, municipalizado em 2001, essa estação central da Paulista é “separada” por estar na ausente gestão federal do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). Mesmo estando invadida. Mas a cooperação pelo interesse público deveria estar acima dessas coisas.

Outro aspecto é o desafio burocrático, onde se entende que a Companhia Paulista é apenas a parte municipal do Complexo Fepasa ou a Argos é apenas a parte municipal do Complexo Argos. São mais que isso.

Por coincidência, as três tragédias consecutivas (o rompimento de parte lateral do Viaduto São João Batista, o incêndio em casas na Vila Argos e o incêndio na Estação Central da Paulista) ocorreram no “corredor” urbano situado entre o Complexo Fepasa e o Complexo Argos, parte do centro histórico ampliado de Jundiahy.

Tivemos nossos heróis na luta pelo Complexo Fepasa, como a Associação de Preservação da Memória da Companhia Paulista entre 1999 e 2001 e um montão de jundiaienses e professores na Mostra de Projetos Ambientais, de 2001. No caso da estaçãozinha, também o “clandestino” morador Wilson por muitos anos e alguns ex-ferroviários e simpatizantes que me parece terem guardado algumas peças históricas antes desse novo desastre.

Talvez por falta de educação, há também aqueles moradores que acham desnecessário o cuidado com as velhas construções (mesmo que façam turismo para conhecer isso em outros lugares). Já vimos isso antes no caso do Solar do Barão na década de 1960, do Teatro Polytheama na década de 1970, da Ponte Torta na década de 1980 e tantos outros.

Mas sempre houve também uma brava resistência de moradores, incluindo ações conscientes de parte dos nossos políticos e instituições. Em alguns casos perdendo, como me ocorre no caso do obelisco da Revolução de 32 que ficava na frente do Parque da Uva.

A questão é como reagir em tempos de crise.

No caso desse trecho da área histórica central existe ainda um conjunto imenso de imóveis que mostram a variedade arquitetônica e social da cidade, como na antiga Estrada de São João de Atibaia (atual Torres Neves) e da travessa da Padroeira, ligadas entre si por uma rota pedestre “invisível” como outras no Centro. Sem esquecer de questões ambientais, como aquele último trecho do rio Guapeva ainda marcado por seres vivos como aves e até anfíbios, de espécies registradas também na Serra do Japi.

Vamos falar sério. Tantos jundiaienses sonhando em ir embora para Portugal... talvez um pouco do método deles lidarem com a preservação combinada com o uso pudesse atualizar nossas alternativas.

Somos a 12ª cidade brasileira e a 7ª cidade paulista no IFDM 2018 (Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal), que usou como base os dados de 2016. Temos uma responsabilidade não só com nós mesmos, mas para apontar saídas para o Brasil e o Estado de São Paulo.

Se oficialmente não há dinheiro sobrando, o governo local tem tentado compensar o corte de projetos e subsídios com parcerias - como o primeiro laboratório de impressão 3D (“Fab Lab”) anunciado para outubro ali.

De universidades públicas temos um embrião do IFSP na Argos e um polo da FATEC no Complexo Fepasa. Se além da inovação tecnológica uma parceria for buscada também para pesquisa ou extensão em inovações sociais nas áreas urbano-histórica e urbano-ambiental.

Já demos alguns passos ao longo do tempo. Os governos em Jundiaí (agora sem “hy”) implantaram um Conselho do Patrimônio, criaram um Departamento do Patrimônio Histórico e colocaram a transferência de potencial construtivo no Plano Diretor. Mais recentemente, levaram a ex-Secretaria de Cultura (agora unidade de gestão) para o Complexo Fepasa enquanto a ex-Secretaria de Educação e sua TV Educativa já ocupavam o Complexo Argos.

Porém precisamos de um plano prático, inteligente e imediato. E mais amplo do que apenas os espaços estritamente municipais.

Em poucas semanas perdemos partes de um viaduto, uma estação central e casas de uma vila operária histórica, sem contar as dezenas de demolições que seguem no Centro Histórico, ao lado de muitas outras reformas bem feitas ou de cuidados que mostram carinho e visão.

É possível, mesmo com dificuldades, recuperar parte dos danos. Ainda mais importante é articular a capacidade de pessoas e instituições, em um processo colaborativo e eficiente, para apontar novas medidas e atitudes.

No momento, o que resta é o sentimento de algo como perder a Copa. São 3x0, ainda menos que os 7x1. Dá tempo de reagir. Viva Jundiahy.

José Arnaldo de Oliveira é jornalista do site Jundiahy e sociólogo. Foto: Roberto Fernandes

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