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Jundiaiense foi torturada durante a ditadura militar

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29 de março de 2019
Sandra Carnio foi submetida a uma série de torturas: pau de arara, choque elétrico e cadeira do dragão


Em viagem internacional, talvez por conta exatamente de não querer passar no país esse 31 de março, data que o presidente Jair Bolsonaro mandou que os quartéis comemorem, Sandra Carnio é uma jundiaiense que sentiu na pele a dor de ser torturada pela ditadura militar. Apanhou, sofreu psicologicamente e ainda teve que viver escondida dentro de casa por conta do medo do governo repressor que comandou o Brasil por longos 21 anos seguidos.

É para que ninguém esqueça esse período sombrio de nossa história, que estabeleceu a censura à imprensa, restrição aos direitos políticos e perseguição policial aos opositores do regime, que o JundiAqui publica uma reportagem do jornal "O Globo" que mostra esse triste episódio de prisão arbitrária e de torturas sofridas por Sandra. Outra reportagem trata da anistia que a jundiaiense recebeu.



Por Evandro Éboli - O Globo

BRASÍLIA / 2015 – Presa pela ditadura aos 20 anos, em julho de 1974, a então escriturária Sandra Carnio, que trabalhava no escritório de uma vinícola em Jundiaí (SP), passou 12 dias detida nas instalações do Doi-Codi, no II Exército em São Paulo. Foi submetida a uma série de torturas: pau de arara, choque elétrico e cadeira do dragão, outra modalidade de descargas elétricas emitidas por fios espalhados no corpo da pessoa. Sandra também foi ameaçada com um revólver na cabeça, encapuzaram-na e não a deixavam dormir. A violência deixou marcas.

A tortura física e psicológica contra Sandra ficou ainda mais cruel quando os agentes que a subjugavam perceberam que ela era homossexual. A violência aumentou.

Sandra hoje tem 62 anos e vive uma relação de 34 com sua companheira. Ao lembrar o período, não vincula a tortura exclusivamente ao fato de ser homossexual. Ela também não se vitimiza. Tem a convicção de que apanharia de qualquer maneira.

— Era alvo de chacota. Não sou uma pessoa fisicamente feminina. Logo perceberam. Exploraram isso também, mas não quero atribuir só a esse fato. Eu ia apanhar de qualquer jeito — contou Sandra.

Ainda no Doi-Codi, ela foi alvo de simulação. Num gesto de provocação, colocaram uma grávida em sua cela. A mulher também era alvo de tortura, e chegaram a acusar Sandra de ter forçado relação com a moça.

— Ela apanhou muito na minha frente. Foi levada para o hospital abortando. Quando o filho nasceu, a criança não tinha expressão. Não chorava.

DRAMA ‘ALIVIADO’

Sandra não era uma militante de esquerda. Foi presa e levada para depor como testemunha de ações de subversão de um primo. Traumatizada pelos dias de prisão, conta que ficou oito anos seguidos sem sair de casa. Só o fazia em caso de extrema necessidade. Por conta disso, perdeu o emprego.

— Quando saí da cadeia, ninguém acreditava em mim. Todos me execraram. Parecia uma doença contagiosa. Não foi fácil reconstruir minha vida. Não tinha dinheiro para me tratar. Fui eu mesma tentando me curar. Já tive sorte em sair viva.

Sandra guarda datas e horas de tudo o que viveu. Recorda-se de ter sido levada de seu local de trabalho, em 1974, pelo temido Raul Careca, alcunha do delegado do Dops Raul Nogueira de Lima, integrante do grupo Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Mas, até para buscar a reparação pelo que passou, não foi fácil. Só em 2008 Sandra protocolou o pedido na Comissão de Anistia. Seu caso foi julgado há dois meses e ela, pela primeira vez, teve oportunidade de contar o que viveu e, assim, aliviar o drama por que passou:

— Tirei um peso da minha cabeça. Sempre tive muito medo de contar tudo o que havia ocorrido. Mesmo vivendo numa democracia. Fui encorajada por alguns amigos.

Pela perseguição que sofreu e os danos à sua vida profissional, Sandra teve aprovado o direito a uma indenização.

— Mas não há dinheiro que pague. O fato de ter comparecido a uma comissão, ver o Estado reconhecer que errou no meu caso e me pedir desculpas é magnífico. Eu me senti redimida.



Por Aline Leal - Da Agência Brasil/2015

Em sessão de julgamento na tarde desta terça-feira (10.3.2015), a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça anistiou politicamente seis mulheres vítimas de perseguição e violência durante a ditadura militar (1964-1985). Uma das anistiadas no julgamento de hoje, Sandra Carnio, disse que quer hoje "enterrar" essa história.

“Eu tinha 20 anos, quando fui sequestrada pela repressão, pela ditadura militar, e levada para o DOI-Codi [Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna], e lá sofri todos os maus-tratos que se pode imaginar na vida”, relembrou Sandra, emocionada.

Sandra, que tem hoje 62 anos, contou que foi presa como testemunha, por ter um primo próximo que abrigava pessoas que se opunham ao governo."Eu também ajudei algumas pessoas vistas como subversivas, e isso tudo aconteceu." Depois de 12 dias presa, sem dormir, sem tomar banho, sofrendo torturas psicológicas e físicas, Sandra voltou à vinícola onde trabalhava e foi demitida sumariamente. “Eu fui execrada porque passei a ser vista como subversiva.”

Todos os julgamentos de hoje foram de pedidos de anistia para mulheres, como uma homenagem pelo Dia Internacional da Mulher, comemorado no último domingo (8). A vice-presidente da comissão, Sueli Bellato, explicou que, quando é anistiada, a pessoa recebe desculpas formais do Estado brasileiro, que reconhece que não deveria ter agido daquela forma no passado. O anistiado também recebe uma reparação financeira, que vai depender de cada caso.

Além de Sandra, foram anistiadas Selma Benjamin, Maria Fernanda Vieira, Raira Pena Cardoso, Jocely Regina Sardão e Selma Bandeira Vale, já falecida.

As indenizações, concedidas retroativamene, variaram entre R$ 100 mil e R$ 200 mil. Com exceção do pedido concedido post mortem, todas as anistiadas receberão remuneração vitalícia calculada individualmente, com base na profissão que exerciam quando foram vítimas da ditadura militar.



A ditadura militar no Brasil teve seu início com o golpe militar de 31 de março de 1964, resultando no afastamento do Presidente da República, João Goulart, e tomando o poder o Marechal Castelo Branco. Este golpe de estado durou até a eleição de Tancredo Neves em 1985. Os militares justificaram o golpe assim: havia uma ameaça comunista no país.

A ditadura, vale lembrar, tirou centenas de vidas, como a do jornalista Vladimir Herzog (foto acima enforcado, numa farsa montada pelos assassinos dentro do DOI-Codi), e muitas famílias até hoje não receberam de volta o corpo de seus filhos para que fossem enterrados dignamente...

DITADURA NUNCA MAIS!
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