Ateliê Marilzes Petroni: de portas abertas
Por Edu Cerioni – O Ateliê e Espaço de Arte Marilzes Petroni é um convite ao público para conhecer de perto as obras, os diferentes processos de produção e as quatro fases distintas dessa artista. Ela comemora 25 anos desde o estágio em Nova York, que lhe abriu as portas a novos mercados fora do Brasil, e mais que o dobro disso desde a sua primeira exposição.
Radicada em Jundiaí, seu ateliê foi aberto em 1997 e, desde então, sempre apresenta novas criações. Marilzes é inquieta e isso fica evidente em suas obras como pintora e escultora. Também é pianista e poetisa, com reconhecimento das academias Jundiaiense de Letras (AJL) e Feminina de Letras e Artes (AFLAJ).

São mais de três mil obras produzidas e exposições dentro e fora do Brasil. Uma curiosidade: em 2011, ela pintou uma tela por dia, 366, por ser ano bissexto. “Foi um desafio meu, que só o Ivo sabia. Viajamos muito naquele ano, incluindo Uruguai, Patagônia, México, uma considerável parte do Brasil e sempre dei um jeito de produzir, algumas vezes no quarto de hotel às 23 horas”, recorda.
Ivo é seu marido, que já foi secretário de Cultura de Jundiaí e hoje ajuda a esposa a recepcionar convidados do espaço de artes no Parque da Fazenda II, onde as esculturas em ferro ganham nomes que vão de “Asas da Liberdade” a “Prisioneiro do Corpo”. A obra “Ausência, eu no Mundo”, por exemplo, tem como medidas a altura e a envergadura dos braços de Marilzes.

Das três mil obras, cerca de mil pertencem à série “Asas da Liberdade”, e uma delas, que me foi presenteada anos atrás, é um óleo sobre tela. Tem aquarela, desenhos, esculturas em diferentes materiais também.
Ela guarda no ateliê o quadro com o desenho que lhe valeu o primeiro lugar no concurso da Escola de Belas Artes do Paraná, onde se formou. E tem um exemplar das dezenas de nus que pintou.

Na propriedade de 20 mil m², além do ateliê, chama a atenção o “Espaço do Pensamento”, tipo uma cabana sem porta ou janela, cujas paredes são de garrafas de vinho. São 4.200 garrafas unidas por cimento, 285 delas com a boca voltada para dentro da cobertura e cada uma guardando um pensamento escrito pela artista. O visitante é convidado a escolher uma rolha para puxar e ser agraciado com uma mensagem de positivismo. Ela conta: “Sou budista da linha do viver com alegria, do se amar pra dar amor”.

Marilzes é rígida com os propósitos que coloca em sua vida: um deles foi mandar mensagens, a partir da pandemia da Covid-19, a um grupo de amigos durante três anos. Com os que teve reciprocidade, segue ainda hoje o contato diário. Um, que era papo assíduo e diz ter saudade, é o ex-confrade de AJL Paulo Alfredo Leite, que morreu recentemente.
QUATRO FASES E VEM MAIS
Aos 82 anos de idade, Marilzes avisa que “artista vive de aplausos”, por isso segue promovendo ações para atrair amigos ao seu ateliê e buscar visitantes que ainda não descobriram seu talento. Tem sempre café fresquinho e bolo saboroso à mesa, como no dia 25 último, quando me recebeu junto com outros convidados da mídia de Jundiaí.
Ela revelou que nasceu para a arte e que, na infância, queria ser bailarina – mantém a silhueta fininha até hoje. Também foi quando recordou seu primeiro trabalho que ganhou “novo lar”, embora ela não saiba onde, mas história que a diverte: “Fiz uma série quando morava no Recife e, na mudança para Salvador, em 1973, um quadro sumiu. Alguém gostou dele e o considero minha primeira venda, embora sem receber até hoje o dinheiro”.
As produções de Pernambuco, ela diz que foram uma fase de aprendizado boa, mas que não era seu mundo. Já na Bahia ocorreu uma grande mudança, porque conviveu com famosos que a inspiraram, como Caribé. “Eu e Ivo íamos para Itapoã sempre, ali tinha muito artista, conversávamos longos papos com Jorge Amado”.
Se em Salvador sua vida ganhou mais colorido, foi quando morou no Rio de Janeiro que tudo brilhou ainda mais: “Produzi e vendi muito para Shell e grandes empresas, tenho obras em hotéis e escritórios. No Rio, eu tinha galerias, museus para visitar, uma grande agitação, isso impulsiona a gente”.
Já a primeira exposição individual que fez foi exatamente na cidade natal, Curitiba, quando retornou em 1983. Ela já tinha mais de 500 quadros, mas resolveu fazer tudo novo. E ousou: “Fiz quadros de 1 por 1 metro divididos em cem quadradinhos cada para representar a porcentagem. E tomei por base os problemas sociais do Brasil apontados pelo IBGE, como saneamento, educação etc. O curador avisou que eu fazia pesquisa dentro da arte e que ‘o momento não é bonito, mas precisamos mostrar a realidade nacional’, o que atraiu imprensa e muitos visitantes”, fala.
Outro momento mágico foi quando, em 2000, estagiou em Nova York, nos EUA, se jogando no grafite. Morou ainda em Londres, na Inglaterra. Novas mostras vieram e foi quando surgiu São Paulo em suas vidas, dela com Ivo e os três filhos, que vieram para cá e se fixaram. A exposição foi no saguão da Caixa Econômica da capital. Foi a segunda e um total de 44 individuais que realizou.

A pintura de Marilzes, como escrevi aqui no JundiAqui no Dia da Mulher de 2021, tem vitalidade, sua energia é marcante nas gravuras, desenhos e esculturas, porque a imaginação corre solta nas colagens e pinceladas que lhe abrem infinitas possibilidades, inclusive quando se põe a reciclar e dar vida nova a peças de ferro, plástico, vidro e outros. São muitas as faces dessa artista que tem livros, inclusive infantis, que faz poesia (são 12 livros publicados) e já compôs mais de cem letras de músicas.

Boa dose dessa inspiração vem do lugar em que vive, na divisa de Jundiaí com Itatiba, onde costuma fazer passeios entre árvores — o visitante pode ler poesias pelo caminho — e obras esculpidas em concreto ou feitas da junção de pedras ou ferros. Tem olhar atento para criar em cima do que muitos tratam como descartável.
Um exemplo é o chifre de um alce que trouxe da Itália e que se mostra uma incrível luminária. Tem obras dela em Veneza, sim, e também em galerias de Nova York, Paris, Berlim e exposições na Holanda, Espanha, Argentina, Uruguai, Chile e México, um total de 12 países. “Sou muito mais conhecida e meu trabalho valorizado fora do que dentro de Jundiaí”, lamenta ela, que é verbete das “Enciclopédia Cultural Itaú” e “Enciclopédia Cultural De Paula”.

VISITAÇÃO
Ateliê aberto ao público na rodovia Constâncio Cintra (estrada Jundiaí–Itatiba), km 74,5 – entrada no último retorno antes do pedágio, indicação de Champirra. É dentro do Parque da Fazenda II, na avenida das Gaivotas, 300. Para saber mais, visite o site www.marilzespetroni.com.br.
