Jundiaqui
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Então já é Carnaval, meu amor

Jundiaqui
26 de janeiro de 2019
Está quase na hora de abrir o baú e tirar aquela fantasia bacana, ficar lindo e linda de morrer e requebrar na rua, diz Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

Não sei seu nome, seu sobrenome nem de onde você é, mas aceito sua mão para dançar sem compromissos, sem complicações, com sorrisos nos nossos rostos e olhares singelos, felizes, vibrantes, maquiladíssimos, lindíssimos, sejam homens ou mulheres, em um ambiente laico, em paz, onde não há medos, angústias, inseguranças, arrogâncias. Só levezas e a certeza de que é um momento afortunado, ditoso, cheio de satisfações até vulgares, abençoado, bendito, maldito, protegido, propício, conveniente, favorável, vantajoso, repleto de aspirações e imaginações, sortudo e fugaz como um colibri a chupar a seiva de uma flor.

Depois, outra mão pede a minha mão e assim se repete ao longo da rua – não no salão. Não gosto de Carnaval no salão. Passei a não gostar. Gosto da liberdade das ruas, das pessoas vestidas do jeito que lhes derem na telha, garbosamente, farfalhantes, esfarrapadas ou normaizinhas. Não importa. Basta enfiar um chapéu na cabeça, um sorriso na alma e ir dançar o Carnaval na rua – ou no salão, se assim lhe apetecer.

Esqueça as tardes suarentas de verão, as pancadas de chuva a apaziguar o sol escaldante e a desmaiar plumas, lavar purpurinas, a melhorar a inhaca que exala da própria pele inexoravelmente. Vale a alegria, o regozijo, o prazer, o divertimento, o afogueamento dos dias carnavalescos.



Dias ou noites (ou as duas) desvairadamente felizes fazem as dores decantarem. O período em que você estiver lá, com sua fantasia, seja ela do jeito que for, faz o tempo decantar todas as dores, porque a imaginação e a alegria da turba a flanar, o tropel das pessoas a cantar as melodias da vida, transformam todos os problemas. É uma catarse. Limpa tudo que é impuro. É a festa da carne. Da carne orgânica, boa. Não a suje com baboseiras e grosserias, por favor. Seja gentil com você mesmo. Curta sem estragar a felicidade alheia e, principalmente, a sua própria.

Um escritor do qual eu gosto muito escreveu em um de seus livros que “estamos agudamente em trânsito: a infância acabou, mas a gente não sabe.” Interpreto tal frase assim, neste contexto carnavalesco: no Carnaval, não importa se somos crianças ou adultos. Importa a alegria de ser quem a gente quer ser. A fantasia, acredite, lhe dá esse poder.

Vou contar uma historinha para que você entenda o domínio da fantasia no Carnaval ou fora dele – embora eu seja suspeita a falar de fantasias porque sempre amei me fantasiar, desde tenra idade. Minha mãe e eu fazíamos fantasia de índio com jornal. Colávamos folhas de jornal até que dessem duas voltas na minha cintura de quatro ou cinco anos de idade – ou menos. Aí eu cortava com a tesoura tiras fininhas até uns três ou quatro dedos antes que terminasse a folha. Abria e envolvia aquela “plumagem” de jornal na minha cintura e saia pela casa dançando e, conforme meus movimentos, as tiras iam caindo uma a uma por todos os cômodos da casa pequena muito simples, pelo quintal, pela frente avarandada com pequenos quadrados de jardim guardados por muros baixos, pela rua de paralelepípedos... Eu, sozinha, com minha imaginação fértil, brincava feliz com minha saia de jornal de pequena índia original, evocando o espírito criativo com o qual abençoadamente nasci.

Um pouco mais velha, não muito, meu avô paterno me levava aos bailes de Carnaval da Banda todo ano. Minha mãe me vestia com vestidinhos do cotidiano. Lembro-me de um curtinho que ela mesma tinha feito com jabô de renda no peito. Era vestido do dia a dia, como disse. Mas, em vários anos fui fantasiada. Simples, mas eram fantasias. Não lembro mais como eram, a memória me prega peças, especialmente agora que estou velha e já não me lembro de muita coisa.

Ainda guardo velhas e gostosas lembranças que eu vou contar.

Não sei por que cargas d’água, decidi que não iria mais com meu avô na Banda. Passei anos sem ir a carnavais. Cresci e comecei ir para São Paulo, fiz teatro, ambiente perfeito para criar personagens e, claro, me “fantasiar”.

Entrei na faculdade e só ia a Carnaval na avenida por obrigação profissional, quando virava a noite cobrindo os desfiles no sambódromo paulistano. Passei a odiar Carnaval. Não suportava nem ouvir as músicas pela TV. Isso durou até eu voltar a morar em Jundiaí, quando, há uns oito anos ou nove anos, “descobri” o Refogado do Sandi e, depois, o Chupa que é de Uva. Passei a frequentar os dois. Fantasiada, claro. Fantasias que eu começava a planejar já no meio do ano, porque muitas eu bordei com lantejoulas costuradas uma a uma. Só louca faz isso. E eu fazia com prazer.

Mas, voltemos à historinha que eu prometi contar.

Quando criança, eu tinha um amigo que morava com a avó paterna num sobradinho no centro da cidade, mais ou menos próximo ao Polytheama, onde eu morava, no tempo em que aquele lugar era calmo e sossegado, havia poucos carros e nenhuma violência; não naquelas paragens. A avó, dona Magda, fora uma mulher bem casada, rica, linda e que teve o infortúnio de ser trocada pelo marido por outra, mais nova. Teve uma doença que não sabíamos o que era. Sabíamos que a cada ano piorava e ela acordava, saía da cama e se sentava numa poltrona na sala até a hora de ir para a cama novamente. Uma moça, simpaticíssima, moreníssima, que brincava comigo, com meu amigo e com quem mais chegasse, dava comida e banho em dona Magda.

Um dia, dona Magda contou dos tempos em que ela ia a bailes de Carnaval. Sempre chique em locais chiques com pessoas chiques. Com dificuldades e falta de ar, ela abriu um baú cheio de roupas. Eram fantasias de época. Ao abrir a tampa sob a janela pequena ao lado da cama, posta em frente a uma cômoda lotada de vidros de perfumes e pó-de-arroz, meus olhinhos brilharam. Havia vestidos de cetim alemão adornados com elegantes pingentes de pedra que imitavam diamantes, saias longas e rodadas reluzentes, sapatos de saltos altíssimos e finos, mil maneiras de adornos em forma de bijuterias e até de joias, como um diadema de ouro e pedras preciosas que fora da bisavó de dona Magda e ela havia usado em um baile sofisticadíssimo na sua época de mocinha.

Quando eu a conheci ela já nem andava direito. Ficava sentada numa velha poltrona num canto da sala estreita, comprida e escura bem perto da porta do quarto onde dormia. Ela usava o mesmo robe de cetim de seda todos os dias (para mim era o que parecia): largo, estampado e sem amarrações. Era fechado com botões, para facilitar a vida. Sua fala era grossa, voz rouca, cabelos curtinhos, tingidos de um tom aloirado e ligeiramente encaracolados por bobes que ela punha para dormir.

Com o consentimento de dona Magda, eu pude ver, pegar e até vestir aquelas roupagens de antiquíssimos carnavais. A sensação de coisas há muito guardada, o cheiro, o farfalhar dos tafetás, dos tules, a cócega das plumas, o oblíquo olhar das máscaras, as rendas lânguidas e repuxadas acendiam a fogueira da minha imaginação que não precisava de muito combustível para delirar. Vestindo aquelas roupas eu sentia o poder do disfarce, a multiplicidade, a riqueza, de nada nunca ser a mesma pessoa, ser a mesma menina, ser um só ser humano. Usar uma fantasia era ser todas as possibilidades em uma só.

Não consigo descrever a excitação de remexer nesse baú. Ali estavam os momentos vividos daquela mulher que fora uma belíssima moça, hoje avó deprimida e doente de um amigo, que ia a bailes de carnaval vestida como se fosse uma princesa, eventos classudos e cheios de mise-en-scène, rituais, sofisticações. Eu penetrava no estranho íntimo de dona Magda, que eu não havia conhecido direito e que já amava. Não sei se a amava ou amava muito as roupas e as representações daquelas fantasias requintadas que ela me mostrava. Acho que a segunda opção era a que falava mais alto. Sim, com certeza era.

Eu contemplava e tocava tudo aquilo como se fosse um tesouro sempre com a ponta dos dedos, cautelosa. A plumagem das penas roçava meu rosto. Com o consentimento de dona Magda, vesti um dos vestidos, o preto de cetim alemão e adornos feito diamantes. Não coube. Eu, infante por volta dos 10 anos, era mais corpulenta que ela quando mocinha. Uma trança do mesmo tecido abraçava a cintura e segurava o vestido dando a volta no decote e finalizava as alcinhas.

Outra fantasia de velhos tempos me fez pensar como a vida mudara. Tudo mudara. Hoje a gente vai para as ruas e para os salões vestindo shorts rasgado e camiseta sem demais preocupações com estética (e daí?). Alguns se vestem com mais apuro, planejam a fantasia com meses ou anos de antecedência. São os mais antigos, como eu, são os que se deleitam com fantasias e personagens, aqueles que amam “entrar” num personagem, “entrar” na personalidade que a fantasia pede/determina. Essa foi feita a quatro mãos, pela minha mãe e eu, e eu nunca usei. É uma melindrosa moderninha, mas com todos os adereços característicos, incluindo uma peruca de cabelos semi-naturais louríssima. Está no meu baú. Sim, eu fiz um baú (na verdade, dois) só de fantasias de carnaval, com boás, casquetes, penas, plumas, brilhos, chapéus e tudo. Amo. Sou loucamente apaixonada por essas fantasias/personagens de Carnaval, de teatro, de balé, daquilo que eu quiser, quando e na hora que eu quiser.

No Carnaval ou ao fim de um espetáculo, diz esse escritor que eu citei anteriormente, “(...) eu, exausto, busco ardentemente o repouso na noite estrelada, como um amigo acolhe uma criança fatigada. Todos os meus sentidos querem afundar no sono. E, minha alma, livre, quer voar solta no espaço, pelos círculos mágicos da noite encantada, onde vai viver milhões de vidas...(...).

E você, quer viver milhões de vidas por meio de fantasias de Carnaval, de teatro, de balé, de festas... de quê? O que você deseja de fato?
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