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Sônia Cintra, uma princesa de Jundiaí

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4 de junho de 2020
Por Luiz Haroldo Gomes de Soutello

Nesta quarta-feira, 3.6.2020, a amiga Sônia Cintra estaria completando setenta anos. Lembrei-me dela com uma lágrima motivada pelas lembranças de longa amizade.

Conheci Sônia em Amparo, quando ela era adolescente e eu adolescente plus. Naquela época, a sociedade polida de Amparo era uma espécie de tribo, onde quase todos estavam ligados por uma complexa rede de parentescos e contraparentescos, próximos ou distantes, levados em conta mesmo quando muito distantes.

Eu não tenho uma gota sequer de sangue Cintra, mas minha bisavó paterna Augusta Leopoldina era neta de Jorge Pires de Godoy e minha trisavó materna Anna Francisca era filha de Modesto António de Godoy Moreira.

Como a Sônia era filha de Dona Maria Alves de Godoy, isso era razão suficiente para que, em Amparo, fôssemos considerados parentes, embora nossos ramos diferentes da família Godoy só encontrem um ancestral comum no século XVIII. Mas havia um laço tribal mais recente. Em 1912, meu tio Carlos casou com Dona Sebastiana de Araújo Cintra, filha do Major (da Guarda Nacional) Jacinto José de Araújo Cintra, irmão de Herculano de Araújo Cintra, que por sua vez era pai de um segundo Herculano de Araújo Cintra, por sua vez pai do Coronel Roberto de Araújo Cintra, por sua vez pai da nossa querida Sônia Maria de Araújo Cintra. Complicado? Era assim que as coisas ainda funcionavam na grande tribo amparense, naqueles já distantes anos cinquenta e sessenta do século passado.

Fazendo parte da tribo, pude dançar algumas vezes com a Sônia nos “mingaus” do Clube 8 de Setembro, sempre sob o olhar vigilante do Coronel Roberto. Não sei se ele era bravo mesmo, mas tinha cara de bravo e isso era o bastante para ser temido pelos adolescentes que dançavam com a Sônia, a uma distância mais do que respeitosa. Velhos tempos, bons costumes.

Muitos anos depois reatamos essa antiga amizade quando passei a frequentar Jundiaí, como professor da FADIPA, amizade que se estreitou depois que me mudei para Jundiaí, quando casei com a Maria Helena.

Por fim, justifico a razão de chamar a Sônia de princesa de Jundiaí.
O primeiro Herculano de Araújo Cintra (Genealogia Paulistana, v. II, p. 516), bisavô da Sônia, era filho de José Jacinto de Araújo Cintra, neto de Jacinto José de Araújo Cintra, e bisneto do Capitão Francisco Lourenço Cintra, casado com Helena de Moraes Araújo.

Helena de Moraes Araújo, penta-avó da Sônia, era filha de António Ferraz de Araújo e de Leonor de Siqueira de Moraes (falecida em 1791). O sobrenome soa familiar? Pois é por essa Leonor de Siqueira de Moraes que chegaremos aos fundadores "oficiais” da Villa Fermosa de Nossa Senhora do Desterro do Jundiahy, e também aos primeiros povoadores conhecidos do Sertão do Jundiahy.

Leonor era filha do Capitão Manoel Preto Rodrigues e de Francisca de Siqueira de Moraes, neta paterna de Manoel Dias Rodrigues (sobrinho de Petronilha Antunes e criado por ela depois que perdeu o pai) e de Ana Maria de Louveira, e neta materna de António Leme do Prado e de Leonor de Siqueira de Moraes. Por António Leme do Prado, era bisneta de João Leme do Prado e de Ana Maria Ribeiro (filha de Rafael de Oliveira, o mais moço).

Só esse parentesco com os patrocinadores da construção de igreja de 1651 já justificaria chamar a Sônia de princesa de Jundiaí. Mas não é só.

A primeira Leonor de Siqueira de Moraes, casada com António Leme do Prado, era filha de Manoel Rodrigues de Moraes e de Francisca de Siqueira Baruel (descendente do pirata inglês Henry Barwell). O historiador de Jundiaí Alceu de Toledo Pontes descobriu, no Arquivo do Estado de São Paulo, o testamento de Beatriz Rodrigues (de Moraes), datado de Jundiaí em 1625. Seguindo as pegadas do grande Alceu, encontrei o inventário dessa Beatriz Rodrigues de Moraes (hoje disponível na Internet, no Projeto Compartilhar), pelo qual se vê que os Rodrigues de Moraes, depois Siqueira de Moraes, procedentes de Santa Ana de Parnaíba, já possuíam terras no Sertão do Jundiaí algum tempo antes de 1625. Bem antes da chegada da viúva Petronílha a Ivoturucaia (1642?), com filhos, genro (João Paes Malio, mais tarde vereador em Jundiaí) e netos, e bem antes da chegada de Rafael ao sopé da Serra do Japi (1649?), com a segunda mulher e filhos dos dois casamentos. Quem inventou o suposto romance entre Rafael e Petronilha provavelmente havia fumado alguma coisa que não era tabaco.



Na foto acima Paulo Bomfim abraçando Sônia Cintra e Maria Helena Gomes de Soutello. À esquerda, António Penteado Mendonça, presidente da Academia Paulista de Letras. À direita, João Grandino Rodas e sua mãe, ele reitor da USP na ocasião.

 
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