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Malditos escritores!

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16 de novembro de 2017
Tolos são os que expõem seus sentimentos em páginas em branco? Napoleão Bonaparte nos chamou de “bestas”, lembra Cláudia Bergamasco

Cláudia Bergamasco

Oh, sim, somos uns tolos, aqueles que expõem seus sentimentos em palavras sem pudores, que criam personagens e histórias sem sentido, escrevinhadores de e sobre corações partidos, aqueles que vão fundo no que fazem. Para muitos, essa não é uma profissão. Para muitos, não passa de um passatempo inútil, próprio de quem não tem o que fazer. Sonhadores, idealizadores. Tolos.

Sim, senhores, somos sonhadores com muito orgulho e, quiçá, fazemos pessoas pensarem em duas próprias vidas, proporcionamos mais sabor a elas. Porém, até Napoleão nos taxou de vagabundos. Não literalmente, mas por um triz, quando cunhou a frase: “Meu Deus, como são bestas esses literatas!”

O homem que foi um líder político e militar durante os últimos estágios da Revolução Francesa nos chamou de bestas. Impossível que Napoleão não lesse livros, poemas, contos, histórias. Se não lesse livros não teria dito tal besteira – que, por ter sido ele, perdura até hoje e influencia a opinião de muita gente. Pobres diabos os que compartilham desse pensamento napoleônico. Sem sonhos, sem histórias, sem artes, sem escritores e artistas de todos os matizes, a vida seria miserável, oca, assexuada, suspensa no vácuo escuro, gelado e sem ar dos buracos asfixiantes do planeta.

Escrever, escritores: atividade recusável, irrelevante nesse mundo sem intelecto das pessoas – são muitas – que nos crucificam por simplesmente escrever. Deus meu, quanta indignação nos provoca e também aos de alma sensíveis. Esses, certamente, também estão englobados na infeliz frase de Napoleão Bonaparte. Somos bestas, somos tolos. Repito: sim, somos, com muita satisfação. Tiro o chapéu e me curvo a todos os que nos tem nojo, repulsa, desagrado, ingratidão e até ânsia e mal-estar por pintarmos páginas e mais páginas em branco com nossas tintas coronarianas, por simplesmente existirmos e lambermos as suas feridas com nossas palavras. E lhes asseguro, senhores e senhoras, quando a realidade é dura demais, o refúgio é a fantasia.

Um dramaturgo escreveu que o homem tem apenas dois inimigos neste mundo: a dor e o medo. Nossos inimigos sofrem desses dois males.

Cláudia bergamasco é jornalista e escritora
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