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As mulheres de Jayme Martins

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10 de maio de 2021
Segundo o cineasta Marcelo Machado, Angelina, a esposa, Raquel e Andrea, as filhas, contam muito na narrativa do jornalista 

Cláudia Bergamasco 

Jayme Matins tem hoje 91 anos e idade, completados em fevereiro de 2021, e vive com sua mulher Angelina em Jundiaí, numa chácara com imensos portões vermelhos, repleta de árvores, muitas delas frutíferas, flores, horta de ervas e hortaliças, cães, gatos, muitos livros, vastas memórias, lembranças e as mais diversas coleções (a que mais me encanta são as de chaleiras), dos mais variados tamanhos e materiais trazidas dos tempos em que morou na China e, depois, das inúmeras viagens que fez para lá ao longo da vida. Essa condição pode provocar, a quem não lhe conhece, uma inveja branca, como se o patriarca da família Picchi Martins estivesse tranquilo e feliz, sentado nos degraus do avarandado de sua casa vendo no céu a imagem parada do cair da noite.

Sim, ele está neste estado de reserva intelectual e certamente também vive um estado de plenitude e felicidade tranquila, verdadeira. Mas ainda inquieto quanto ao resguardo e segurança de sua família, aos problemas de sua cidade, que está sempre a pensar numa solução para isso e aquilo. No fundo, ele sempre viu firmar seus enérgicos domínios, todos, no sol e na Terra do Sol Nascente, que aprendeu a amar tanto quanto o seu Brasil.

Uma das Picchi Martins, Andrea, que voltou a morar em Jundiaí depois de 20 anos morando em vários países pós China, onde permaneceu por 25 anos, diz, quando questionada por esta entrevistadora, que o documentário de Marcelo Machado chegou bem na hora em que ela e a irmã Raquel pensavam em fazer algo a respeito de todo o caldo multicultural no qual se cozinhou a história da família Picchi Martins. “Um livro, uma álbum, uma coleção... sobre esta ‘experiência China’ que tivemos.”

A outra Picchi Martins, Raquel, primogênita do casal Jayme e Angelina, concordou de pronto. “A motivação foi a riqueza deste período histórico da China e do Brasil, que inclui a Revolução Cultural na China, o exílio de uma família, a comunidade estrangeira desconhecida.”

De longe, parece que a vida dessas quatro pessoas foi relativamente fácil em terras tão distantes. De perto, a realidade mostra suas garras. Ter cabelos crespos e loiros, olhos grandes e azuis como uma lua cheia, no caso de Andrea; cabelos lisos e clarinhos como ramos de trigo, bochechas rosadas como pêssegos no caso de Raquel, em um lugar em que predominam madeixas pretas e olhos puxados foi o primeiro impacto. Crianças queriam passar as mãos em seus cabelos, perguntavam se eram assim mesmo. São de verdade?

Elas aprenderam a conviver com o diferente sendo diferentes até se amalgamarem com a cultura e o modo de viver dos chineses na era do Comunismo. Idem com Angelina, a mãe de duas que foi viver o amor da sua vida num lugar em que nunca sonhou, mas amou e, com o tempo, amou mais.

Já adulta, tanto Andrea quanto Raquel dizem em uníssono que por um bom período acharam que nenhuma das mulheres Picchi Martins na China fizeram suas próprias escolhas. “Fomos envolvidas pela aventura e as consequências de uma situação não escolhida, mas imposta (o exílio) a um homem, um jornalista e um pai.”

Foi necessário fazer do limão uma limonada. E elas três fizeram “A” limonada, que deu estofo, conforto, energia, vitalidade e uma tal inquietude de ver, aprender e ensinar para Jayme nos seus muitos 19 anos de China. Sua produção jornalística é extremamente intensa. Seus ensinamentos a chineses e brasileiros como professor de línguas foram fundamentais para o estreitamento e o entendimento das duas culturas, a chinesa e a brasileira. Ambos os lados ganharam respeito e deferências.

Andrea e Raquel seguiram seus estudos na China, alargaram seus conhecimentos ao morarem e trabalharem em diversos países e, no fim das contas, toda essa experiência internacional resultou em cidadãs do mundo, nem chinesas nem brasileiras, mas do mundo e para o mundo. O documentário de Marcelo Machado pode ser visto em todo o planeta via canais de streaming, e é, com toda certeza, um alento e um estímulo aos estrangeiros na China ou em outros países.Por causa da experiência riquíssima que essas mulheres (e esse patriarca) viveram.

Andrea: “Para isso, eu segui com Estudos da China para melhor compreender o mundo complexo daquele país, e descobri que carrego um ‘laboratório’ riquíssimo de língua, cultura e história para degustar pelo resto da vida.”

O acervo de Jayme, composto de uma infindável coleção de fotografias, objetos, documentos, artes ajudou a contar a história desses quatro integrantes da família jundiaiense Picchi Martins na China. “A vontade de trabalhar neste material e a existência destes recursos ricos, desafiadores, densos e exóticos estimularam essa produção cinematográfica e o também a um profundo mergulho intelectual”, diz Andrea.

E Raquel? Raquel se estabeleceu na Finlândia, 45 anos depois de viver na China, e lá se casou, teve três filhos (um par de gêmeos) e estão todos muito bem, obrigado. Nós aqui, dizemos: obrigado Jayme, obrigado mulheres Picchi Martins.

Um beijo e um queijo, como Jayme sempre diz ao se despedir das pessoas com quem conversa, derramando toda sua generosidade e inteligência.

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