Até logo estrela da festa! – por Vera Vaia
Alfonsina y el mar!
Por blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vulve mas…
Onde quer que estivéssemos, num bar, num restaurante ou uma roda de amigos, por mais barulho que tivesse no local, um silêncio instantâneo e mágico se instalava quando a Cacilda botava sua voz e sua alma para interpretar uma de suas canções preferidas: “Alfonsina y el Mar”, gravação original de 1969, da cantora Argentina Mercedes Sosa.
Essa era a música que mais tocava os corações de quem a ouvia, mas o repertório dela era grande, assim como ela. Uma grande mulher em todos os sentidos. Grande esposa, grande mãe, grande amiga, grande cantora…
Cacilda nos deixa agora na terra com belas recordações dos encontros habituais de nossos fins de semana. Da música chorosa de Lupicinio Rodrigues ao trágico tango de Gardel, passeando por boleros, chorinhos e sambinhas, ela era a estrela da festa, sempre. “Cacilda, canta aquela…” e lá ia a Cacilda soltar voz, fazendo o que mais gostava de fazer: cantar.
Começou bem jovem na orquestra City Swing como crooner, abrilhantando os bailes do Grêmio. Lá conheceu o pandeirista Iólice Romero e não o largou mais. Se casaram e com ele ficou até que o morte dele os separasse.
Chegou o dia em que ela foi se encontrar com seu percussionista preferido e com o filho mais velho que chegou lá três meses antes dela.
O céu vai ficar em festa com sua chegada. Aposto que o Geraldo Calazans e o Erazê Martinho já vão estar afinando seus violões para acompanhá-la nos “Pinheirais”, música feita em casa pelas mãos do Calazans, obrigatória nos encontros musicais.
Minha amizade com a Cacilda começou num desses encontros na casa do Erazê. Eu e o Sandro chegamos quando a festa já rolava e ali ficamos até o dia amanhecer. Depois desse dia a gente não mais se separou e uma vez me falou que a primeira impressão que teve de mim é que eu devia ser “uma dessas patricinhas de São Paulo”. Só me contou isso quando descobriu que eu era mesmo uma caipira jundiaiense. Rimos muito.
Aliás, a gente sempre ria muito. E se entendia muito. Bastava um olhar para saber o que queríamos dizer. Foi uma longa e estreita amizade, até que a vida foi nos tirando uns pedaços que faziam parte da nossa alegria. Primeiro o Sandro, depois o Iólice, ela, que começou a ter problemas de saúde, eu, que me mudei de cidade… enfim nada é eterno. O bom é que foi muito bom enquanto durou e isso fica pra sempre.
Essa era, era não, é a eterna Cacilda Romero.
Te vas, Alfonsina con tu soledade
Que poemas nuevos fuiste a buscar? …
Espero que você, assim como a Alfonsina, os encontre. Vai em paz, amiga!

