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O grito da Terra 

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30 de julho de 2021
A onda de frio extremo no Sul e Sudeste do Brasil Tropical não é mero acaso ou apenas um evento isolado

Cláudia Bergamasco 

Catástrofes naturais, epidemias, pragas, guerras. Calor extremo, frio extremo. Seca persistente; de repente, inundações, tufões, tsunamis, maremotos, terremotos. O cardápio é extenso e está sendo oferecido à humanidade há décadas demais para ser ignorado. O Planeta reclama em altos brados e nós, seus habitantes, sofremos. Mas o que fazemos para refrear os gritos de dor e desespero da Terra? Gentileza gera gentileza, violência gera violência. Assim respondemos todos, seres humanos e o nosso Planeta.

Há momentos em que somos impotentes diante dos melindres da Terra, como se ela, de tempos em tempos, abrisse seus braços e desse aquela espreguiçada para esticar seus ossos. Esses “acordares” causam modificações drásticas na geografia e no funcionamento do Mundo como um todo. Mas, e quando esse período de tempo entre uma espreguiçada e outra se encurta cada vez mais e são motivadas, não pela Natureza, mas pela mão do homem? Para se pensar. E agir. Rápido.

Quem deseja ou defende a devastação do meio ambiente? Ninguém, diríamos em sã consciência e em uníssono. A questão é que as coisas não são exatamente assim. A humanidade está realizando um gigantesco, temerário e quase certamente irreversível experimento no único lar que possui: a biosfera.

No intervalo de cinco ou seis gerações, desde a primeira Revolução Industrial, a Natureza vem sendo submetida a agressões cegas e desmedidas. Florestas devastados, oceanos exauridos. As calotas polares perdendo bilhões de toneladas de massa todo ano, espécies vivas simplesmente desaparecendo da face da Terra. O aquecimento global e o efeito estufa aumenta gradualmente a temperatura da Terra - o que gera mais e mais catástrofes e cada vez mais potencializadas. Isso significa, em última instância, coisas como o desaparecimento de cidades, desertificações (da Amazônia, por exemplo, um mal de tentáculos globais), temperaturas polares em territórios essencialmente quentes e o oposto disso, o colapso da agricultura, entre outras escabrosidades.

O frio polar que chegou ao Sul e ao Sudeste do Brasil na quarta-feira, 28 de julho último, passando uma baita rasteira na temperatura e levando à lona o clima de país tropical (sensações térmicas de -25 graus Celsius nas serras de Santa Catarina), não é fato isolado. Na mesma semana, segundo matéria da BBC, vários países do Hemisfério Norte registram recordes de calor e de volume de chuvas. No fim de junho, os termômetros na cidade de Lytton, no Canadá, dispararam para 49,6 graus Celsius - marca que superou em 4,6 graus Celsius a temperatura mais alta registrada no país até então.

Poucas semanas depois, ainda segundo a BBC, chuvas acima dos padrões inundaram cidades na Alemanha e na China. Os eventos extremos nos três países provocaram centenas de mortes. Na própria quarta-feira uma tempestade de areia fechou Fênix, no Texas, EUA.

De quem é a culpa?

O filósofo e economista Eduardo Giannetti nos conta, em seu livro Trópicos Utópicos, uma historieta que exemplifica bem o colapso ambiental que nos acossa. Trata-se do experimento mental concebido pelo filósofo britânico Derek Parfit - que dá o que pensar, você verá.

Parfit diz para imaginarmos uma pessoa afivelada em uma cama com eletrodos colados em suas têmporas. Ao se girar um botão situado em local distante, a corrente elétrica nos eletrodos aumenta em grau infinitesimal, de modo que a pessoa não chega a sentir. A quem gira o botão é oferecido um hambúrguer. Ocorre, porém, que, quando milhares de pessoas fazem isso, sem que cada uma saiba das ações das demais, a descarga elétrica gerada é suficiente para eletrocutar alguém.

A questão que Giannetti nos coloca com esse experimento é a seguinte: quem é responsável pelo quê? Algo tenebroso foi feito, mas de quem é a culpa? O efeito isolado de cada giro no botão é, por definição, imperceptível, diz ele; são todos “torturadores inofensivos”.  Mas o efeito conjunto é ofensivo ao extremo. Até que ponto, questiona Giannetti, a somatória de ínfimas partículas de culpa se acumula numa gigantesca dívida moral coletiva?

A mudança climática mundial em curso equivale a uma eletrocussão da biosfera. O aquecimento global - apenas um dos efeitos das gritos de dor agonizante da Terra, lembremos - é fruto da alquimia perversa de incontáveis ações humanas, mas não resulta de nenhuma intenção humana, explica Giannetti. Quem assume, ou deveria assumir a culpa? Ele responde assim: os sete bilhões de habitantes da Terra que pertencem a três grupos: o primeiro bilhão, no cobiçado topo da escala de consumo, responde por 50% das emissões de gases-estufa; os três bilhões seguintes por 45%; e os três bilhões na base da pirâmide (metade sem acesso a eletricidade) por 5%. Por seu modo de vida, situação geográfica e vulnerabilidade material, este último grupo - o único inocente, ressalta Giannetti -, é o mais tragicamente afetado pelo “giro de botão” dos demais.

Independente de onde você e eu estamos na pirâmide de Parfit, somos responsáveis pelas consequências dos nossos atos perante a biosfera. É preciso para anteontem parar de girar botões - cometer pequenos atos contra a Natureza que reputamos ao outro e nunca diretamente a nós mesmos. Ou seja, o que eu faço não importa porque não afeta tanto assim o Planeta. Se eu jogo uma bituca de cigarro na rua será uma entre bilhões de outras bitucas as quais não tenho responsabilidades, certo? Bem, se cada um de nós continuamos a pensar e agir desse modo a ferida aberta por nós na Terra vai gangrenar. E aí, meu caro, bau-bau.

O temperamento do clima, a sobrevivência da Terra como nosso grande e único lar, dependem das ações humanas, das escolhas do presente e do futuro. Tecnologia e ciência são respostas para muitos problemas, mas se não soubermos aplicar esses recursos de forma inteligente de nada adiantará os avanços e pesados investimentos financeiros nessas áreas. Três palavras-chave: consciência, educação e ação. Se levadas a sério, já será um grande passo para não explodirmos nossa Casa.

Foto: repodução Facebook tvtec
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