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Rap da Felicidade

Jundiaqui
16 de outubro de 2020
Por Vera Vaia

Eu só quero é ser feliz
Torrar grana do tráfico como eu sempre fiz
Mas preso aqui em Venceslau
Você sabe, é difícil, não consigo nem a pau!

Quero muito passear de lancha
Comer bem e encher a pança
Mas preso aqui em Venceslau
Você sabe, é difícil, não consigo nem a pau!

No PCC ainda mando
E o tráfico me dá muito lucro
Mas se não serve pra divertir
Fico triste e daqui quero sair

Eu já sei o que fazer
Vou pedir pro Marco Aurélio,
O ministro do Supremo,
Resolver a situação

Bolsonaro sancionou
A lei que vai me soltar
Eu vou me beneficiar
Trouxa é não aproveitar

O ministro pode confiar
Que em casa vou ficar
Mas como sou bandido assim que na rua chegar
Um jatinho vem me buscar

Vou-me embora do país
Quem sabe no Paraguai ficar
Gastando minha grana
E me pondo a gargalhar

Da lei que ajuda o bandido
Do juiz que mandou me soltar
Da polícia que me prendeu
E do papel de idiota que fiz todo mundo passar.

Provavelmente seria mais ou menos assim a música que faria André do Rap, se fosse compositor. Mas não é. Ganhou esse apelido por causa do cargo que dizia ocupar, o de empresário de artistas e de jogadores de futebol.

Na verdade André de Oliveira Macedo é um dos chefões do PCC (não, não é um partido político, embora alguns estejam nesse patamar), o Primeiro Comando da Capital, responsável pelo maior volume de importação e exportação de cocaína do país.

Com pena que passa dos 25 anos prisão, André do Rap saiu da cadeia pela porta da frente, graças ao artigo que o Congresso enfiou na Lei Anticrime - uma verdadeira janela ao sol para os bandidos -, sancionada sem contestação pelo presidente Jair Bolsonaro e interpretada ao bel prazer do juiz do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello.

Em seguida o presidente do STF, Luiz Fux, suspendeu a liminar do colega e expediu mandado de prisão para o meliante, mas aí tudo já estava fuxdido. O cara escafedeu-se rapidinho.

Por que você fez isso, rapaz? Decepcionou o titio Marco Aurélio que pediu pra você ficar quietinho lá no Guarujá. Ele confiou tanto em você que nem tornozeleira eletrônica mandou usar. Essa atitude não é coisa de gente decente, moço! Não é coisa de um homem “honrado” como foi o torturador Brilhante Ustra, segundo o vice-presidente Hamilton Mourão!

E agora, com que ânimo a eficiente equipe de busca da Polícia Federal pode ir atrás do bandido?

Esse casa e separa, digo, prende e solta é um balde de água gelada na cabeça de quem ainda se indigna com o crime organizado e um grande incentivo ao crime, que no Brasil ainda compensa!

Outro que estava literalmente locupletado de felicidade esta semana, antes de a polícia aparecer, é o senador Chico Rodrigues (DEM-RR). Ele, que era vice-líder do governo no Senado e amigo íntimo de Jair Bolsonaro — em vídeo Jair diz que tem “quase uma união estável” com ele — foi pego nesta última quarta com R$ 30 mil enfiados no fiofó.

Quando soube da operação Desvid-19, que apura o desvio de R$ 20 milhões do dinheiro destinado ao combate à pandemia no Estado de Roraima, Chico Rodrigues resolveu unir o útil ao agradável: enfiou 30 mil no furico achando que ninguém iria mexer no seu cofrinho.

(Depois dessa a polícia já pode chamar a operação de CUvid-19.)

E, com a maior cara de pau, o senador disse que acredita na Justiça Divina e na dos homens, que tem gente “mal intencionada” por trás (opa!) disso, que está tentando “macular” sua imagem e que “tem um passado limpo”. (O que não está limpo agora é esse dinheiro. Eca!)

E assim, de rap em rap, vamos tocando este barco chamado Brasil.

Eu só quero é ser feliz
Levar muita propina,
E encher meu rabo de dinheiro
Como sempre fiz!

Vera Vaia é jornalista
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