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Seu José, a Obra da Misericórdia e a companheira Kombi

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9 de setembro de 2021
Jundiaienses são chamados a ajudar na reforça e manutenção da perua que leva comida aos carentes há 15 anos

Pedro Fávaro Jr.

Ele vive de sua pequena aposentadoria e a da esposa, donativos e reciclagem de material. Só que, religiosamente, atende moradores de rua e as crianças da periferia com alimentação. Sente-se chamado a fazer isso. E o faz com muita alegria há quase 15 anos. É um exemplo de altruísmo. Para realizar seu trabalho, que chama de Obra da Misericórdia, usa uma Kombi 1996, que mais engasga do que anda. E falta dinheiro para ela desengasgar e andar. Mas ela anda...

Velha companheira - a "Kombi da Misericórdia" -, está em cacos: "Só anda porque é Volkswagen. E Volks (quem nunca teve um?) anda até quando faltam peças...", brinca Seu José sempre bem humorado. Ele não tem recursos para arrumar o veículo e muito menos para comprar outro. Às vezes consegue um donativo para colocar um pneu ressolado aqui, pagar um mecânico amigo ali, trocar a correia que quebra. E leva sua lida sem desanimar, sempre sorrindo, sempre com esperança e fé. Sempre com muita alegria.

Faz algum tempo, para receber ajuda, ele até criou um CNPJ para o que chama de a Obra da Misericórdia. Só ele e Deus, porém, sabem, como é escasso o auxilio oficial."Quem ajuda mais são os amigos, os mais chegados, a vizinhança, alguma igreja que conhece a gente. E vamos tocando", comenta.

Quando ele chega para entregar as refeições, nos baixos do antigo Viaduto da Duratex, em Jundiaí, nas tardes de domingo, desce cantando da Kombi: "O Senhor, tem muitos filhos. Muitos filhos Ele tem. Eu sou um deles, você também (aponta o povo sentado na calçada, a maioria dependentes químicos), louvemos o Senhor!"... Em poucos minutos contagia todo mundo. O povo de rua reza e canta com ele. E recebe os marmitex que começou a fazer na madrugada, em sua modesta casa no bairro da Colônia, com a ajuda da mulher Cida e de parte da família com uns poucos - bem poucos mesmo - voluntários. Este ano, perdeu a ajuda do genro, morto pela Covid-19.

A comida talvez seja a única refeição decente e completa que o morador de rua recebe na semana. Naquele viaduto, quem quiser pode conferir, entre essas pessoas à margem da vida, estão jovens rejeitados por seus pais, empresários que faliram, médicos que desistiram de clinicar, refugiados, ex-comerciantes e seres que perderam a gana de lutar. Todas essas pessoas só têm em comum, além da tragédia de vida, o fato de serem humanas. E é isso que Seu José deixa marcado quando as atende e ouve, a cada domingo, sem preconceito, sem distinção de nenhuma espécie. Se ele fosse padre, seria o padre Júlio Lancelotti de Jundiaí... Só que não, ele é casado com a Cida que o ajuda na empreitada, mesmo estando enferma.

Durante a semana, Seu José lida para conseguir a comida - às vezes tenta uma feijoada para as mais de 300 pessoas que atende só aos domingos - e até consegue. No meio da semana, vai atrás das xepas das feiras, do Ceasa e de outros locais, para levar comida às crianças de alguns pontos periféricos de Jundiaí. Seu José Comitre parece incansável. Mas anda preoucupado demais com a Kombi que já "entregou para Deus". "Se ela não for mais, se ela parar, sei que Deus dará um jeito para eu ir", garante com seu bom humor.

OBRA DA MISERICÓRDIA
Rua Bragança Paulista, 81
Jardim Pacabembu - Jundiaí - SP
Fones (11) 4533-2108 (11) 99756-3772

 
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